“Wounds”: “a minha maior inspiração foi David Cronenberg”, diz Babak Anvari

Wounds está a partir de hoje disponível na Netflix

(Fotos: Divulgação)

Foi na praia de Cannes que nos encontramos com Babak Anvari, jovem realizador inglês de raízes iranianas que ganhou notoriedade com o terror de Na Sombra do Medo, o qual colocava mãe e filha num prédio fantasma durante os bombardeios iraquianos de Teerão, ao mesmo tempo que elas eram assombradas por um “djinn”, uma entidade maligna que o vento encarregou-se de o transportar.

Anvari estava nervoso no nosso encontro e não era por menos: a sua segunda longa-metragem migrou do Festival de Sundance para a Quinzena de Realizadores de Cannes sob o selo da Netflix, causando celeuma e gerando burburinho sobre uma rutura entre o evento paralelo e o grande festival gerido por Thierry Frémaux, que instigado pela pressão dos exibidores gauleses declararia guerra ao gigante do streaming com uma espécie de boicote às suas obras na seleção.

O realizador trouxe à Riviera Francesa Wounds, um conto de terror à moda de Lovecraft com um elenco composto por Armie Hammer e Dakota Johnson em que nos centramos num barman que certa noite encontra um telemóvel cujo seu conteúdo o encaminhará para recantos obscuros e mortais.

Digamos que Wounds é uma espécie de conto moral, o próprio Babak trata-o como tal?

Se fores um homem vazio e fútil como o protagonista, que utiliza o seu charme para concretizar os seus objetivos, um privilegiado masculino e sem escrúpulos, percebes que o teu único destino é ficar sozinho, alcoólatra e completamente destroçado em vida. Encaro toda esta transformação como um conto moral, a transformação de um “principie encantado”, completamente vazio e cuja vacuidade se torna no véu da sua obscuridade. Essas trevas tendem depois a materializarem-se no que quer que seja.

E esse homem é Armie Hammer. Porquê ele? Como foi trabalhar com ele?

Foi fantástico. Na altura em que eu, o estúdio e os produtores, estávamos a decidir sobre o casting, tinha estreado o Chamam-me Pelo Teu Nome e havia toda uma febre no social media en torno dele. Encontrei-me com o Armie em LA, propus o papel e nessa mesma noite enviei-lhe o argumento. No outro dia, telefonam-me: ‘Babak, bateste com a cabeça? Adoro, vamos fazer isto’. Demo-nos automaticamente muito bem, ele é uma pessoa amistosa, talentosa, fantástica, que adora desafios. E este papel foi desafiante para ele, e Armie correspondeu às expetativas. Como vemos no filme, temos de inicio esta pessoa afável, carismática e ao longo da história vai-se transformando neste ser horrível e desprezível. Foi um casting perfeito, não diria melhor.

Deixe-me dizer que em Wounds há ali qualquer coisa de Lovecraft.

Lovecraftiano? Sim. Enquanto realizador eu tenho imensas referências (…) em Wounds, eu diria que a minha maior inspiração foi David Cronenberg, com umas “pitadinhas” de David Lynch e uns aconchegos a Roman Polanski, nomeadamente a sua trilogia do apartamento. E se continuarmos mais com as referências, visto ter uma costela iraniana, sempre me fascinaram os thrillers domésticos, limitados ao espaço mas criativos perante estes. Sou um fã de Asghar Farhadi, por exemplo.

E não sente medo quanto ao peso do legado? O facto do terror ser hoje demasiado preso às referências. Ao seus antecessores.

Entendo, mas como realizador facilmente recordo os filmes que via. Eles prenderam-se ao meu inconsciente.

Mas é verdade que hoje em dia, o legado do Cinema, um cineasta é quase limitado ou a reproduzir os filmes que ama, ou desconstruir esses mesmos.

Toda a gente é inspirada por toda a gente. Por isso, qualquer trabalho criativo suscita inspiração e fontes delas para terceiros. Arte, Cinema, Música, Literatura, até mesmo eventos reais, tudo inspira-nos. De certa forma todo esse vórtice criativo vindo de diferentes áreas é libertador.

Voltando ao ponto do Lovecraft e à menção de Cronenberg. Podemos dizer que em Wounds há uma tendência para o body horror e que isso o fascina. Porquê?

Penso que é por realmente perturbar-me enquanto pessoa. Se não fosse realizador, obviamente seria dermatologista [risos], porque todo este conceito de pele, corpo e as suas manifestações são algo mórbido que me enoja, mas que ao mesmo tempo deixa-me curioso de ver. Sou irracionalmente fascinado.

Visto o seu filme estar na Quinzena de Realizadores, evento que abriu com uma condecoração a John Carpenter, que por sua vez disse que “o medo é o que toda a gente necessita, porque motiva-nos a seguir em frente“, gostaria de saber qual é a sua perceção em relação ao medo?

A minha perceção de medo? Bem, eu assusto-me facilmente, essa é que é essa. Tenho imensos medos e fobias [risos]. Talvez seja por isso que os meus dois primeiros filmes exploram o medo e o seu espaço, é como um partilhar dos meus próprios temores à audiência para ver como estes reagem. De certa maneira é como enfrentar os próprios demónios, mas é com a interação com o público e o facto de conseguir assustá-los, é que apercebo que afinal não sou assim tão medroso [risos].

Ao fazer Wounds depois do sucesso de Na Sombra do Medo, não sentiu o receio de não conseguir cumprir as expetativas?

Para dizer a verdade, não penso nisso. O meu principal interesse é contar as histórias que quero contar. Aquelas que me interessam, apaixonam-me, que fazem o meu sangue ferver. Se eu pensasse realmente nisso, teria parado filmar depois Na Sombra do Medo, mas por acaso ele foi um impulso para continuar. Como disse, quero partilhar histórias e medos com o Mundo.

Depois de Na Sombra do Medo, surgiram-lhe diferentes propostas?

Sim, Na Sombra do Medo abriu-me portas. Inclusivamente possibilitou que Wounds estreasse em Sundance também. Após terminá-lo, arranjei um representante americano, consegui vendas e segui para Hollywood naquilo que se chama de Waterbootle Tour (“Digressão da Garrafa de Água”), a qual consiste em andar de um estúdio para o outro, por entre reuniões e negociações. Chama-se de Waterbootle Tour, porque sempre que vamos a esses encontros, é nos oferecido uma garrafa de água [risos]. Nós procuramos desesperadamente pela casa-de-banho no fim de cada reunião [risos].

Aí recebemos imensas ofertas e propostas, mas disse ao meu agente que queria dar um passo de cada vez e não seguir automaticamente para uma grande produção, “queimar-me” e desaparecer do mapa. Ele compreendeu o meu pedido e apoiou-me desde início. Claro que o passo desta vez foi maior em comparação com Na Sombra do Medo. O meu orçamento foi maior, tive a oportunidade de trabalhar com atores de Hollywood, foi uma experiência excitante, mas executável.

Eu poderia seguir para outros géneros, nunca ficando exclusivo ao terror … estou aqui a lembrar-me de dramas, comédias, thrillers, etc … Mesmo assim, Wounds é um perfeito sucessor de Na Sombra do Medo, um passo bem dado. Pensando bem, segue a mesma linha.

Na Sombra do Medo é sobre a resistência daquela mulher em ultrapassar os obstáculos e libertar-se dos seus medos, uma ascendência, enquanto que Wounds é a decadência de um homem. Encontramos aqui um díptico, uma espécie de ying e yang.

Em relação à Netflix, o facto deste filme ter sido comprado pela gigante do streaming, não lhe preocupa o facto do ser filme não estrear em sala?

Enquanto realizador, o meu principal trabalho é contar a história da melhor maneira possível. Agora, se com a Netflix, este meu filme pode ser visto por milhões e milhões neste Mundo fora, porque iria estar preocupado?

Então qual é a sua posição neste confronto de Cinema Vs Streaming?

É um debate que se prolonga. Mas reafirmando, sinto-me abençoado pelo facto de conseguir fazer os meus filmes. É tudo o que me importa.

Fora isso, nos dias de hoje temos uma gama vastíssima de ferramentas ou atalhos para fazer Cinema. De certa forma, qualquer um atualmente pode fazer Cinema. Isto não o preocupa? Acha que hoje é mais fácil ou difícil vingar neste Mundo?

Sinto que é um pouco de ambos. O Cinema de hoje é polvilhado por milhões de estilos, qualidades e produções de todo o género. Há muita oferta, quer para os blockbusters, quer para filmes independentes. Como realizadores temos que aprender e ter as ferramentas necessárias para navegar no meio deste “mar”. Não é qualquer um que pode contar com um bom produtor ou agente que nos ajude a navegar.

E a TV está cada vez melhor e igualmente competitiva. Como vemos, existe cada vez mais cineastas a transladarem do Cinema para TV, porque encontram aqui espaço para o seu talento, algo que no grande ecrã está-se a perder. A TV está mais criativa, é uma constante e evolutiva escapatória.

Não é fácil sobreviver neste mercado.

Novos projetos?

Tenho um projeto televisivo que espero começar a trabalhar já no final do verão, e obviamente tenho alguns filmes no horizonte … Amo o Cinema, por isso é que estou aqui. Não diria que seja novamente terror, até porque quero apostar em variedade e não reter-me como realizador de terror.

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