Patrícia Pillar apresenta filme em Portugal: “Somos atropelados pelo cinema americano”

(Fotos: Divulgação)

A atriz veio a Portugal apresentar Unicórnio no FESTin

No âmbito da 10ª edição do Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, o FESTin, Patrícia Pillar e Eduardo Nunes, realizador, apresentam hoje (21) a longa-metragem, que teve estreia na Berlinale, Unicórnio. Com a trama centrada em Maria, uma menina de 13 anos que vive junto da mãe em uma casa afastada da civilização urbana, observa-se o crescimento e a transformação de uma criança para uma mulher, ao esperar a volta do pai para o local e depois da chegada de um novo vizinho.

Em viagem a Portugal para a ocasião, o C7nema conversou com a atriz brasileira sobre a sua carreira, sobre seus projetos e o atual momento político no seu país.

Existem diferenças claras entre uma produção cinematográfica e uma produção televisiva, especialmente sobre as novelas. Como determina qual projeto seguir diante disso?

Hoje em dia, a televisão está muito além da novela, eu gosto muito de fazê-las e tenho um carinho imenso pelas quais já fiz. Tive muita sorte de ter bons personagens, mas a televisão encontra-se em outro momento, ela arrisca muito mais, está muito mais aberta a pesquisar géneros, linguagens e geografias diferentes, textos feitos por pessoas mais jovens, ou seja, criou-se um leque de possibilidades. Algumas das obras dentro da televisão estão muito mais próximas do cinema. Já fiz diversos projetos filmados com uma câmara só. É difícil hoje em dia fazer essa separação, ainda mais por conta da passagem para o digital. Mas os projetos de cinema têm uma variedade muito grande, desde um cinema blockbuster com vampiros até coisas que nem imaginamos. O que me encantou em Unicórnio é que, primeiramente, foi baseado em contos da Hilda Hilst, que por si só já é um desafio enorme, mas o Eduardo [Nunes, realizador do filme] ainda ter juntado dois contos dela, é um desafio maior ainda, traz para ele uma outra autoridade e outro grau de autoria sobre o trabalho. E depois o facto de ser uma fábula, um filme sobre uma criança, mas não um filme para crianças. Esta linguagem de se passar em um lugar que não se sabe onde é, em um tempo que não se sabe qual é, e nem mesmo se aquilo está mesmo acontecendo, ou se é só fruto da imaginação. Distanciar-se do tempo real que temos hoje e embarcar neste tipo de história em um lugar longínquo, era também a dificuldade em me deixar aberta para receber esse outro tempo que também se aplica ao espectador, e que acaba por ser o tempo que se passa no nosso interior. Hoje em dia vivemos um ritmo inumano, esse filme te força a um outra experiência. O ponto de vista de uma criança em transformação descobrindo suas angústias, os medos, os novos papéis que as pessoas possam ter – por exemplo, a mãe que passa a ser uma rival -, e tudo isso dentro da cabeça de uma menina é tão forte ao ponto dela encontrar na figura de um unicórnio, o seu semelhante. E tudo isso, é uma linguagem muito própria do mundo do cinema.

O FESTin é um festival consideravelmente pequeno, mas já está em sua 10ª edição. Como se sente em vir a Portugal prestigiá-lo?

Estou extremamente feliz de estar em um festival que nos dá essa possibilidade de integração entre os países de língua portuguesa. São muito filmes que não teríamos como ver em outra ocasião, também a possibilidade do encontro com muitos diretores e outras pessoas para conversar. Fico muito feliz que o festival já esteja em sua 10ª edição.

Há um certo consumo por parte dos portugueses sobre a cultura brasileira que não observa-se ao contrário. Quais são os reflexos que sentiu disso ao vir para cá?

Eu tenho ascendência portuguesa, meu pai se chama Nuno… (risos). Então a cultura portuguesa está em mim há muito tempo, a primeira vez que vim a Portugal visitei o norte do país e me senti completamente em casa. As referências da cultura daqui são muito familiares para mim já que venho de uma família com os mesmos costumes. Acho que o Brasil se engana, por exemplo, ao não desenvolver uma proximidade maior com os outros países da América Latina, não criar essa “irmandade”, e vejo que isso também se aplica a Portugal.

O cinema brasileiro atual enfrenta problemas externos neste momento. Na sua opinião, o que falta hoje para que seja atingido níveis mais altos de projeção, premiação?

O Unicórnio foi a Berlinale, mas ele é uma exceção. Enfrentamos diversos problemas, distribuição, reserva de tela, somos atropelados pelo cinema americano. Agora inclusive estamos com outros problemas até para produzir. Vivemos em um momento que agora o artista é colocado em um lugar completamente inapropriado e que não é nosso.

Como assim, “um lugar que não é nosso?”

Vivemos [os brasileiros] com um governo que não valoriza a educação, não valoriza a cultura, não valoriza a ciência, a tecnologia, inovação, nada disso. Então, por exemplo, arranjaram uma maneira de desqualificar os artistas e as suas opiniões, com as fake news somos empurrados para um lugar como se nós fossemos aproveitadores de leis de incentivo à cultura. Isto pela desinformação completa fomentada pelas fake news. É um momento difícil para as artes e cultura em geral.

Você usa bastante as suas redes sociais para falar sua opinião política. Até que ponto acredita que o artista e as pessoas que possuem grande visibilidade nas redes devem usar essas plataformas para atingir o maior número de pessoas?

Acredito que somos livres. O artista não tem a obrigação, mas eu particularmente me interesso, e sempre me interessei por política, economia, e isso sempre fez parte para a minha cidadania. Eu acho que é um espaço que pode ser aproveitado para trocar ideias, expor opiniões, mas nunca sob uma obrigação.

Patrícia, ao pesquisar seu nome no Google, as notícias mais acessadas são sobre o seu vídeo sobre o Ciro Gomes nas últimas eleições brasileiras. A minha pergunta é: você se sente de algum modo afetada por estas notícias estarem lá, em vez de objetos realmente ligados a sua carreira?

A eleição foi algo muito recente. Eu tive de me posicionar nesta época por causa dos surgimentos de boatos. Foi algo que eu precisei fazer e isso não me incomoda, não me sinto colocada em um lugar abaixo do meu, me sinto Patrícia.

Está muito ansiosa para assistir “Bacurau”? [Longa-metragem de Kleber Mendonça Filho e Julio Dornelles, que estreou em Cannes na última semana]

Super. Não vou para Cannes, mas estou doida para assistir. Amei Aquarius. Temos muita capacidade para chegar lá, o Brasil tem uma diversidade de histórias, cada região tem milhares de personagens interessantes esperando para serem retratados.

Se pudesse escolher um projeto que representou um ponto de virada na sua carreira, qual seria?

Foram dois momentos: Zuzu Angel (2006), no cinema, uma personagem muito forte e difícil para mim; e A Favorita (2009), fazer uma vilã daquela espécie foi extremamente interessante.

Qual seria o seu detergente mental atualmente?

Leitura. Mais do que cinema e a música neste momento, mesmo que eu seja apaixonada por eles. O desafio da leitura tem sido mais instigante, já que existe um excesso de imagens externas por aí, a procura da imagem a partir da imaginação tem sido o melhor exercício para mim.

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