Unicórnio: “A excessiva conetividade do mundo atual tira-nos tempo de reflexão”

(Fotos: Divulgação)

O realizador Eduardo Nunes e atriz Patrícia Pillar vêm a Portugal apresentar Unicórnio 

Reflexão é precisamente o que o propõe o realizador Eduardo Nunes no belo Unicórnio, que estreou no Festival de Berlim e tem exibição única nesta terça-feira (21), no cinema São Jorge, no âmbito do FESTin. O realizador Eduardo Nunes e atriz Patrícia Pillar, uma cara conhecida do público português em função das telenovelas, estarão presentes na sessão.

O filme conta a história de uma menina (Bárbara Luz), que vive apenas com a mãe (Patrícia Pillar) numa casa em meio às montanhas. Em meio à sua solidão ela fantasia com unicórnios e frutos venenosos, ao mesmo tempo que a chegada de um homem ao local modifica o ambiente. Este enredo é intercalado com outro, onde a pré-adolescente tem conversas com o pai num ambiente cercado por uma gigantesca parede branca.

Em entrevista ao C7nema, o cineasta lançou luzes sobre esta proposta filosoficamente existencialista, não propriamente otimista, sobre o género humano – ao mesmo que comentou sobre a passagem do filme pelo festival germânico.

Acha que o filme insere-se numa perspetiva filosófica existencialista, onde há uma ideia subjacente de pensar a condição humana de uma forma mais global?

Acredito que sim. O ponto de partida do filme são dois contos da escritora brasileira Hilda Hilst, que na sua literatura tem presente muitas questões existencialistas: a reflexão sobre a ideia da morte, a existência ou não de um Deus, a relação com a natureza como um possível diálogo com o divino etc.

E a narrativa do filme ‘Unicórnio’ funciona em duas linhas paralelas: uma delas é o ambiente das montanhas, onde a personagem Maria vive apenas com a mãe, e onde a sua solidão a leva a uma busca por respostas através de um diálogo com a Natureza. São questões sobre a descoberta de sua própria sexualidade, a difícil relação com a mãe, a solidão… E, para resolver estas questões, Maria cria um universo próprio, onde há unicórnios e frutos venenosos.

Na outra linha narrativa do filme, Maria está num ambiente branco conversando com o seu pai. Neste diálogo, ela procura uma compreensão mais lógica-racional para tudo o que ela viveu. Acredito que o constante diálogo entre estas duas linhas provoca no espectador questionamentos existencialistas-filosóficos.

Nenhuma das duas analogias que faz sugerindo os ratos parecem conter uma noção muito otimista. Naquela que contém a animação sugere a possibilidade de vivermos numa enorme prisão sem solução, onde o sonho de liberdade vai tomando tons angustiantes com o passar do tempo… A outra sugere os humanos como se fossem um objeto de experimentos usados por um Deus que pretende com isso apenas a própria salvação…

De facto as analogias com os ratos não são nada otimistas. De certa forma, a situação de Maria vivendo com o seu pai naquele ambiente branco é uma analogia à situação dos ratinhos de laboratório. Na cena de animação, o ratinho tenta descobrir o que há além no quarto de azulejos, da mesma forma que o pai de Maria quer saber o que existe do outro lado do muro. Mas o interessante desta cena é que, quando o ratinho descobre o mundo além do muro, ele fica imóvel, sem ação. O que nos leva a uma reflexão sobre um possível isolamento voluntário do pai de Maria, uma vontade de “escapar do mundo”, o que pode ser muito mais angustiante que uma prisão não-voluntária.

Quando o pai de Maria faz a analogia entre humanos e Deus como controladores da vida e experimentos de ratinhos e humanos, entendemos que a nossa função no mundo – segundo esta analogia – é uma existência pré-determinada por um Deus que faz de nós experimentos para buscar a cura dos males que afligem a Ele, da mesma forma que os humanos fazem com o ratinhos. Esta ideia pressupõe uma crença na existência de algum Deus (mesmo que maléfico), mas que – de alguma forma – dá sentido a uma existência patética. A opção a isto é uma descrença em qualquer Deus e a aceitação desta mesma existência patética como escolha nossa.

Enfim, nenhuma das opções são muito otimistas…

Escolheu contar a história de pessoas solitárias. Acho que essa condição interfere na maneira como as pessoas encaram a existência?

Na minha primeira longa-metragem ‘Sudoeste‘ (2012), a personagem principal, Clarice, vivia toda a sua existência num único dia, enquanto todas as outras pessoas viviam normalmente. Mesmo em contato com outras pessoas, a sua própria condição diferenciada a tornava um personagem solitário. Em ‘Unicórnio’, a personagem Maria vive num único ambiente apenas com a sua mãe. Isolada de outras pessoas, ela está fisicamente solitária.

Pessoalmente, não acredito que o estar só, por si mesmo, nos leve a uma existência triste. Mas, certamente, a existência solitária traz algumas reflexões que uma num coletivo dificilmente nos levaria. Atualmente, vivemos num mundo que está tudo conetado e esta excessiva conetividade nos tira – acima de tudo este tempo de silêncio, necessário a uma reflexão profunda.

Quando realizo filmes com personagens como estas, gostaria de propor ao espectador a possibilidade de ficar em silêncio (mesmo que seja apenas durante a projeção do filme) e pensar sobre a sua própria vida. Talvez, por isso mesmo, os filmes tenham tão poucos diálogos. É uma forma de fazer vivenciar uma existência mais silenciosa, que talvez hoje seja tão distante de nosso cotidiano.

Como foi a passagem pelo filme pelo Festival de Berlim?

A passagem pelo Festival de Berlim foi muito boa. É um dos maiores festivais do mundo e isso nos dá a oportunidade de mostrar o filme para pessoas de diferentes origens e culturas, além do privilégio de ver filmes que eu não teria oportunidade normalmente, e estar em contato com os realizadores destes filmes, trocando experiências e formando novas relações.

No festival, ‘Unicórnio’ foi bem recebido e tivemos convite para participar de muitos festivais e exibi-lo em diferentes países. Para um filme que possui uma proposta artística como esta, uma montra como a de Berlim é essencial para a sua distribuição. Todo o realizador deseja que seu filme seja visto pelo maior número de pessoas possíveis e a seleção para um festival deste tamanho é muito importante para que isto ocorra.

Já tem novos projetos?

Já existem novos projetos, sim. Ainda este ano devo realizar a filmagem da minha terceira longa-metragem de ficção, ‘Cinco da Tarde’. Mais uma vez, a personagem principal é feminina (a mesma atriz de ‘Unicórnio‘, Bárbara Luz) e com questões existencialistas. Mas, desta vez, toda a história se passa num ambiente urbano, na cidade onde nasci, Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. Estou bem animado com a possibilidade de realizar este filme com características um pouco diferentes dos projetos anteriores.

Tenho um outro projeto de longa-metragem chamado ‘Tempo de Delicadeza‘, que está em fase de captação de recursos. Também fui convidado para um filme longa-metragem de episódios, que chama-se ‘Minha Loucura, Outros que me a Tomem‘, que também terá episódios dirigidos por Ruy Guerra e também por dois realizadores portugueses.

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