Gianni Zanasi: «A Bíblia foi o primeiro Avengers da História»

(Fotos: Divulgação)

Lucia Cheia de Graça poderia facilmente ser uma comédia ou um filme de fé à moda norte-americana, mas Gianni Zanasi trabalhou como uma tragicomédia existencial de uma topografa que, mesmo não acreditando, começa a ver a Nossa Senhora. Uma obra que reúne os mais variados e reconhecíveis elementos bíblicos em prol de um conto universal sobre a busca da verdade e da ética, esta, subvalorizada nos dias de hoje.

C7nema conversou com Zanasi durante a sua vinda à 12ª Festa do Cinema Italiano em Lisboa. O realizador, sempre bem humorado, falou sobre a (não) crença da religião e a importância desta numa sociedade cada vez mais despreocupada.

Esta é a sua primeira vez em Lisboa?

Sim.

E como está a ser a sua estadia?

De facto, está a correr bem. Aliás, fiquei curioso com um pormenor desta cidade – vocês têm esquilos. De início julgava que fossem ratazanas, grandes por sinal. Nunca tinha visto esquilos na minha vida [risos].

Há sempre uma primeira vez [risos]. Em relação ao filme Lucia Cheia de Graça, como surgiu a sua ideia?

A ideia surgiu sozinha. Tive uma “aparição”, quer dizer, imaginei uma cena em que a Nossa Senhora aparecia a esta personagem, Lucia. Mas encarei aquela imagem, algo mais do que uma simples aparição, uma encarnação de alma. A Lúcia é uma pessoa real, passando por uma fase difícil da sua vida. Uma mulher que, chegando ao estado adulto, esqueceu a diferença entre viver e sobreviver. São duas coisas bastante distintas. Ela ficou tão presa ao seu quotidiano que se esqueceu de sentir o que está além disso. E nessa crise existencial, ela enfrentará as suas próprias dificuldades tendo como impulso algo impossível, o aparecimento de Nossa Senhora.

E quanto à escolha de Alba Rohrwacher? Ela foi a sua primeira escolha para o papel de Lucia? Houve casting?

O filme poderia ser muitas coisas, uma delas era uma brilhante sitcom. Mas acima de tudo queria causar uma sensação muito forte no espectador para que este questionasse: “e se isto me acontecesse?”. E por isso queria um ator que vivesse esta situação de um modo muito verdadeiro. Tendo em conta essas capacidades, a Alba foi a única atriz que tinha em mente para o papel de Lucia. Aliás, num encontro com ela afirmei que só iria fazer este filme se ela aceitasse o papel.

Achei uma decisão, de certo modo, bastante ousada de colocar Hadas Yaron, estrela de muito cinema judaico, como Noiva Prometida ou Felix & Meira, como Nossa Senhora.

Escolhi a Nossa Senhora não pela religião, nem ligações, mas pela qualidade da atriz. Vi a Hadas na Noiva Prometida e desde então achei-a perfeita para o papel. Porque da mesma forma que Alba, Hadas era uma atriz capaz de trazer veracidade às emoções. Era isso que pretendia. O curioso é que durante a rodagem, ela foi discretamente me perguntar: “Gianni, quem é a Nossa Senhora?” [risos].

E o facto dela não saber quem era a Nossa Senhora, tornou-se um detalhe muito importante para a construção desta personificação. É normal este desconhecimento, visto que a figura da Nossa Senhora não surje na religião hebraica, porém, esta situação foi importante para trazer uma abordagem mais livre da “personagem”, e não apenas a restringindo-a um símbolo religioso.

E como explicou a ela quem era a Nossa Senhora? Fiquei curioso [risos].

Tecnicamente, é a Mãe de Deus. Mas também … tecnicamente … não sabe bem quem é o pai. Porém, o marido dela, José, aceita a situação. Por isso, é uma família bem moderna, mesmo sendo antiga, e muito humana.

A reacção dela?

Percebi.” [risos]. Hadas Yaron vem de um sítio bem especial, que é Telavive, Israel, o qual sente na pele o conflito religioso. E por isso, ela despreza qualquer forma de extremismo religioso. Todavia, ela percebeu que a figura que lhe propunha poderia ser transcendente da somente doutrina religiosa.

Deixe-me perguntar algo. Gianni, é um homem religioso?

Não. Não acredito em Deus. Respeito quem tem crença, mas simplesmente não acredito. Para muitas pessoas, tal faz uma certa espécie. Eu tenho uma amiga atriz que contou uma história da sua infância, em que a sua mãe descobriu que ela não acreditava em Deus, sendo que esta deu-lhe um sermão, achando impossível existirem pessoas sem crença. A minha amiga respondeu: “Mãe, eu acredito em Deus. Eu acredito no Al Pacino“. [risos]

E como uma pessoa não religiosa, como é para si a importância da religião nas questões morais?

Penso que a religião é uma espécie de conto. A Bíblia foi o primeiro “Avengers” da História, e teve um discreto sucesso. Pessoalmente creio que a força da Religião está no poder da história, e as figuras religiosas que temos desde a nossa infância têm um potencial, e esse potencial é o que leva a história que estas representam. E a figura da Nossa Senhora aborda questões que são muito fortes e muito relacionadas com o quotidiano. Isso coloca várias questões, quer aos religiosos, quer aos laicos. (…) Hoje, com a vida que levamos, na qual estamos constantemente distraídos da nossa própria existência, já não temos mais em consideração os mistério da vida e de morte. E também um discurso de verdade. No filme, a Nossa Senhora traz um discurso de verdade.

Imagino que hoje, se a Nossa Senhora aparecesse diante de nós com um recado de extrema importância, éramos capazes de ignorá-la em prol de uma partilha de Facebook.

Costuma-se dizer que numa segunda vinda de Jesus Cristo, ele seria novamente crucificado, tendo em conta o Mundo que hoje vivemos.

Acredito que na situação atual de Itália, se Jesus Cristo regressasse não conseguiria sequer entrar no país. [risos]

Julgo que se Lucia Cheia de Graça fosse produzido nos EUA, seria um “faith based movie” (filme de fé). Aliás, quando a Lucia começa a ver a Nossa Senhora recorre a um psiquiatra, e nunca a um padre ou exorcista.

Sim, tentei salientar, que apesar dos elementos, ‘Lucia’ não é um filme religioso. É um filme sobre a procura da verdade, qual seja a forma.

E como reagiria se o filme fosse vendido como um filme de fé?

Não sei bem como reagiria. Seria, de certo, uma desonestidade se isso fosse feito.

Em relação aos debates de Cinema vs Streaming, o que tem a acrescentar?

Conheço um sitio belo, que guarda memórias de um século de História. Esse lugar chama-se Cinema. E o mais próximo disso são os nossos sonhos. Porém, tudo muda, nada é imutável. E não seremos nós a colocar-nos no meio de uma mudança tecnológica ou simplesmente das nossas vidas e da forma de ver audiovisual. Mas também acredito que teremos sempre necessidade de um refúgio escuro ornamentado por imagens gigantes, das quais não conseguimos esquecer: uma sala de Cinema.

E se a Netflix propusesse produzir o seu filme?

Depende. Acredito que daqui a algum tempo os filmes da Netflix terão estreias simultâneas, na plataforma de streaming e em sala de cinema. Será uma mudança das suas políticas. Mas a diferença não está na Netflix, nem em outros serviços. Está no poder que as histórias possuem e que merecem ser contadas em qualquer ecrã. Até porque, quando tinha 10 anos, alguns dos filmes que marcaram a minha vida, vi na TV.

Novos projetos?

Estou a trabalhar num novo projeto, mas sou pior que as mulheres grávidas, e como ando nisto há 3 meses, prefiro não dizer nada.

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