Alain Guiraudie: «A catalogação de ‘filmes gay’ incomoda-me»

(Fotos: Divulgação)

Ainda antes de passar pelo Lisbon & Estoril Film Festival, o cineasta francês Alain Guiraudie esteve no Festival Internacional de Cinema de Salónica, na Grécia, local onde numa conversa com a imprensa falou do seu mais recente filme, O Desconhecido do Lago, que estreia hoje comercialmente em Portugal.

Do cinema à sexualidade, passando pelas suas influências rurais e as tendências escapistas das suas personagens, Guiraudie abordou tudo, afastando mesmo o seu cinema do de Abdellatif Kechiche.

O Cinema…

Cinema é mostrar o mundo de uma maneira diferente, uma forma que se afasta do mainstream. Senão não haveria sentido (…) Nos meus filmes eu reconstruo o mundo desde o início. Estou interessado em aproximar-me da realidade de forma direta, enquanto dou uma visão pessoal. Pretendo representar e comentar a realidade, enquanto faço a audiência sonhar. Gosto da ideia de um certo naturalismo.

A ruralidade e o cinema de Guiraudie

Não sei se foi especificamente por ter nascido no sul de França, ou se mais genericamente o facto de ter crescido na província, numa zona rural. A minha infância em ambiente rural sem dúvida que influenciou a minha personalidade.

A representação da sexualidade

Representar a sexualidade de forma natural e não forçada é o mais difícil já que é uma questão profundamente pessoal. É também difícil evitar os clichés cinemáticos e os estereótipos quando apresentamos reminiscências das nossas experiências.

Eu abordei questões de género e da sexualidade nos meus últimos filmes. O Desconhecido do Lago é o resultado das minhas reflexões pessoais sobre como mostrar a paixão, a expressão sexual e a sexualidade entre homens. Não acho que tenha sido totalmente sucedido em apresentar estes temas de forma natural. Estou bastante satisfeito com o meu filme, mas acho que poderia ter ido um passo mais longe.

As tendências escapistas das suas personagens

Acho que as personagens dos meus filmes seguem caminhos cíclicos. Não sei se terão capacidade de escapar, mas gosto da ideia deles correrem em círculos. Também acho que o cinema deveria ser físico.

O final ambíguo…

Acho que é natural que o filme comece de forma realista e gradualmente se envolva de situações abstratas. Começa num mundo hedonista e ensolarado e termina num pesadelo negro. Eu escolhi este fim por muitas razões, uma delas é que ele tem um caráter intensamente existencial.

A Reação do Público

A reação surpreendeu-me. Antes de ir a Cannes, estava muito ansioso com a antestreia, como o filme seria recebido por uma audiência de mil pessoas. Estava preparado para lidar com a rejeição de parte do publico e da crítica. A reação positiva ao filme surpreendeu-me. A única exceção foi no Líbano, onde o meu filme foi censurado. Em todos os outros locais, foi recebido de forma calorosa. Para além disso, raramente alguém vem ter comigo e diz «o teu filme não presta». Normalmente as pessoas que vêm ter comigo têm boas coisas a dizer dele.

Os problemas da censura e pontos comuns com A Vida de Adèle

Apenas os posters foram censurados e apenas em duas cidades, onde os presidentes da câmara se opõem ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Acho que o meu filme e o A Vida de Adèle têm em comum o facto de saírem da esfera da homossexualidade. Nenhum deles trata a homossexualidade per se – os seus temas são o amor, a luxúria e a paixão. Estes filmes contribuem para a universalização da experiência homossexual, tornando-se temas das pessoas em geral. A catalogação de “filmes gays” incomoda-me.

Agora, no caso do A Vida de Adèle, eu pondero porque um realizador heterossexual faria um filme que mostra mulheres a fazer amor. Acho que a intenção dele foi criar um espectáculo picante, algo que geralmente tento evitar.

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