
Quando um realizador audacioso e sonhador se alia a um dos mais inspirados argumentistas da atualidade, com uma estrelinha capaz de fazer a diferença, a resposta promete falar por si.
Rush – Duelo de Rivais é o resultado brilhante de um projeto quase impossível: abordar o “need for speed” da Fórmula 1 com a história humana mais intensa. Onde o realizador de Hollywood Ron Howard faz o melhor do guião de Peter Morgan, um dos mais inspirados argumentistas do momento, e obtém um assinalável realismo. Desde logo ao servir-se dos técnicos europeus mais indie, como o diretor de fotografia Anthony Dod Mantle, que trabalhou com Danny Boyle, Thomas Vinterberg ou Lars von Trier, bem como técnicos habituados ao estilo de Andrea Arnold e Michael Winterbottom. Um verdadeiro “Hollywood indie mashup“, como definiu Peter Morgan.
Hoje em dia a Fórmula 1 já não é o desporto perigoso que era nos anos 70. Acha que isso matou o espetáculo?
Peter Morgan – Não me parece que tenha ‘matado’ o espetáculo, mas já não há é essa variável de perigo adicional. Naquela altura, as pessoas morriam na pista. E hoje isso não acontece, o que é ótimo para eles e para as suas famílias. Mas, por exemplo, o futebol também é completamente diferente hoje do que era nos anos 70. Temos as somas milionárias que se pagam aos jogadores e todo o lado corporativo. Hoje na Fórmula 1 os pilotos sabem que podem ter um acidente, sair do carro e continuar com a sua vida. Isso atrai pessoas diferentes. Já o risco de morte atraia pessoas diferentes.
Ron Howard – E veja bem, apesar do Niki e o James serem pessoas muito diferentes, ambos pensavam que podem superar esse risco. O James bebia para superar essa agonia ao passo que o Niki ia cedo para a cama e arriscava menos. Apenas 20% como refere no filme.
Qual é a opinião do Niki Lauda hoje, ele que escapou à morte? Como mudou a corrida…
RH– Sim, ele foi um dos que falou abertamente sobre a falta de segurança. E continua muito envolvido neste desporto. Mas ele compreendia que se retirasse a probabilidade de ser morto isso mudaria a forma como se conduzir e a intensidade da rivalidade. Apesar de hoje a F1 ser bem mais segura, não implica que aquela fosse mesmo a época dourada da F1.
Curiosamente, o Ron estreou-se na realização com um filme sobre desastres de automóveis, em Grand Theft Auto/O Massacre dos Bólides, em 1977…
RH – (risos) Foi uma pura coincidência. O (produtor) Roger Corman queria fazer um filme sobre carros e essa foi a minha oportunidade para fazer filmes. Não que fosse entusiasta de automóveis. Agora, neste caso, foi uma oportunidade para fazer um filme internacional, um filme europeu. E eu sabia que o desporto era uma boa oportunidade. Eu gosto de drama e intriga e gosto de trabalhar com atores. Combinar isso com a Fórmula 1 era uma autêntica dádiva.
Houve momentos perigosos durante a rodagem? O Daniel (Bruhl) contou-nos que viveu alguns calafrios…
RH – Houve carros a rodopiar, mas nada de perigoso. Mas é verdade, numa cena de teste o pneu do Daniel soltou-se e foi pelo ar. Acho que é aquela variável de perigo que sempre existe.
Foi complicado recriar toda a autenticidade desse período que vemos no filme?
RH – Começámos por desenhar o filme com imagens de arquivo de uma forma seletiva e inovadora. Isto para obter uma ideia visual do que queríamos fazer. Depois, para as cenas mais intensas usámos carros montados, apenas para ser ver o rosto dos atores, outras vezes usámos o truque do greeen screen e CGI. Uma vezes usávamos usar apenas pormenores reais, outras vezes apenas o carro mas com o exterior transformando. O desafio foi enorme, mas a ideia principio foi contar a história e manter o nível psicológico vivo para a narrativa.
Como se lembraram do Daniel Bruhl para o papel do Niki Lauda?
RH – O Peter já tinha identificado o Daniel Bruhl. E como a ideia era fazer um filme europeu achámos que não fazia muito sentido usar o Christian Bale com sotaque alemão…
PM – Sim, não fazia sentido. Eu já conhecia o Daniel, tinha-o visto em alguns filmes interessantes e percebi que ele tinha aquela calma, mas também era capaz de uma ironia fina.
E o James Hunt?…
PM – O problema é que tentámos encontrar atores britânicos para o papel deste homem alto loiro e cheio de estilo. Mas a verdade é que não encontrámos. Nós, britânicos, somos capazes de encontrar tipos com aquela beleza estranha de Mick Jagger, mas não esta espécie de Adónis que andava descalço por todo o lado como se tivesse acabado de sair de uma prancha de surf. Por isso acabámos por procurar na Austrália…
RH – Eu já conhecia o Chris e achei que era fantástico. Foi uma revelação. Esteve fantástico em Thor e Star Trek mas não sabia se ele era capaz de assumir este papel. Na altura estava muito ocupado, mas acabou por me enviar um ‘test screening’ que fez com o telefone e já com um acerto de pronúncia. Quando vimos aquilo percebemos que era uma forte possibilidade. Garantiu-nos que tinha mais ou menos a altura do James Hunt e que no dia do início da rodagem caberia dentro de um cockpit.
Um dos últimos pilotos a morrer em pista foi o Ayrton de Senna, um verdadeiro campeão. Acha que este filme é um tributo aos grandes campeões que perderam a vida?
RH -Sim, pode ser visto assim também. Quando ouvi a história dele e como ele apresentava o desporto fiquei fascinado. Eu ainda só tinha assistido a um GP. O que senti foi primeiro aquele rugido enorme e só depois se veem os carros. É uma imagem cinemática incrível.
PM – O próprio Bernie Ecclestone estava muito céptico quando lhe apresentámos o projeto, porque ele dizia que ninguém tinha conseguido dar uma dimensão humana aos diversos projetos sobre a Fórmula 1. Agora já viu o filme três vezes e quer vê-lo de novo. Acha que conseguimos quebrar essa barreira. Disse-nos que o filme o fez sentir como se estivesse lá. E sobre esses aspeto ele sabe o que diz.
Agora vai usar de novo o Chris no seu novo projeto The Heart of the Sea. Como é que ele surge no projeto?
RH – Não fui eu que o contratei, na verdade foi ele que me trouxe o guião. Um guião que está disponível há 12 anos e foi adaptado de um livro dessa altura por Nathaniel Philbrik. Fiquei entusiasmado e achei que ele ficaria bem no filme. Mas pensei muito e pedi até ajuda ao Peter (Morgan) para colaborar no guião. Trata-se de uma história de sobrevivência intrigante.
É uma aproximação a Moby Dick?
RH – O Herman Mellville foi inspirado para escrever Moby Dick principalmente devido a um evento real – por volta de 1820 um navio tinha sido afundado ao largo de Galápagos por uma baleia. Foi para tentar compreender esse evento aliado ao drama humano que lhe deu a confiança para escrever o livro.
Esteve também aqui no festival com o Jay Z, a promover o documentário com ele?
Sim, é o meu primeiro documentário e chama-se Made in America. Já conhecia o Jay Z há algum tempo, pois tinha participado em American Gangster e acabei por me encontrar com ele. Ele ficou entusiasmado com a ideia de um outsider do mundo do hip hop poderia fazer esse documentário.
São verdade os rumores de que irá fazer uma nova adaptação da obra do Dan Brown, desta vez Inferno, em nova colaboração com o Tom Hanks?
O livro é forte e estamos agora a desenvolver o guião. Mas vou esperar até ter essa parte pronta para avançar. Uma coisa de cada vez.

