“O meu pai era um pouco assim”
Um ator enorme, tanto física como emocionalmente. Um dos papéis onde isso está mais visível é o filme que acaba de estrear sobre a história verídica de um homem comum que não controla os seus ímpetos de violência e acaba por se converter num assassino brutal. Arrepiámos-nos quando nos confessou que o seu pai também tinha acessos de violência…
Qual foi a atração por este papel? Pode parecer uma pergunta óbvia, mas a verdade é que escolhe sempre papéis muito fortes… O que foi que lhe despertou a atenção?
Ao ver as entrevistas que ele deu, transmitidas pela HBO, e que até podem ser vistas no Youtube, ficamos a conhecer um homem muito charmoso, quase uma pessoa decente. Só que participou em toda esta carnificina. Normalmente, quando as pessoas veem essas entrevistas ficam com uma ideia de um tipo de sangue frio e calculista, mas eu não fiquei com essa impressão. Vi mais uma pessoa triste, e não só por causa da sua família. Ou seja, não me parece que seja o típico sociopata. Até porque estimava muito a sua família.
Até que ponto a sua personagem não é também ela própria uma versão romântica da personagem?
Não me parece que o filme crie uma visão romântica dele. Acho difícil que alguém saia deste filme com uma visão de quem era o Richard Kuklinski. Isto porque ele não dava uma imagem clara de si próprio. Há muitas pessoas no mundo que fazem coisas que são totalmente negativas. E não precisam de ser assassinos. Para mim, esta é uma visão extrema disso mesmo.
A Winona Ryder disse-nos que ao trabalhar consigo sentia que grande parte era instintivo na sua atuação. Acha que ela está certa?
Eu gosto de ter um guião. Não estaria confortável apenas a explorar essa liberdade. Mas com uma estrutura sólida de uma história podemos encontrar momentos em que podemos improvisar.
Ela fala mesmo numa cena específica em que ficou a sangrar…
Ah, sim. Na primeira vez que viro a mesa com uma pancada acabei por me ferir na perna. Eu mostro-lhe… (Michael sobe a calça e exibe um corte profundo na perna). Mas eu não mostrei a ninguém. Nessa cena estou descalço. O problema é que tivemos de fazer a cena mais uma vinte vezes… Só que tinha de tentar esconder esse corte da Winona e de toda a gente. Ainda bem que só descobriram mais tarde, pois iria estragar uma cena tão importante.
Uma vez mais, é uma personagem muito forte, mas com um lado negro. É algo que tem em si?
Acho que falar nisso é algo desconfortável. O meu pai era um pouco assim. Não quero aflar muito nele porque já morreu. Há aspetos de Kuklinski que me fazem lembrar o meu pai, pois era capaz de se irritar por nada. Talvez isso esteja nos meus genes. Mas prefiro pensar que seja apenas puro talento de ator.
Ocorre-me perguntar-lhe: como foi a sua infância e como foi que chegou ao contacto com a representação e o cinema?
É estranho, porque quando era garoto não conhecia nada de cinema. Não era uma coisa que me interessasse. Curiosamente, comecei a interessar-me mais pela música. Estudei piano e toquei numa orquestra e numa banda de jazz.
Algo que ainda faz…
Sim, adoro música. Seria um músico se não fosse ator.
Terá sido um filme a influenciá-lo?
Acho que houve um filme que mudou a minha vida. Foi o ‘Starman‘, do John Carpenter, com o Jeff Bridges. Lembro-me de ver o filme como adolescente e de ficar siderado. Mas foi no liceu que comecei a representar. Mas nada que me fizesse pensar que um dia haveria de ser ator. Aliás, no início da minha carreia fiz apenas teatro.
A sua personagem, apesar de ser um assassino, era também um bom homem de família. Talvez esse aspecto se relacione consigo, agora que foi pai…
Sim, acho que tenho uma filha, sinto isso perfeitamente.
Mudou a sua vida, claro…
Completamente. É algo difícil de imaginar. Por exemplo, fiz uma peça antes e depois de ter a minha filha. A mesma peça. E a minha personagem tem três filhos. Isso é algo que não se pode fingir antes de passar por nós.
O filme tem uma pequena cena com o James Franco. Pergunto-me se terá algum papel no filme que ele vai realizar?
É o filme ‘As I Lay Dying‘, não é? (foi exibido este ano em Cannes) Ele queria que eu trabalhasse nele, mas tenho uma peça na Broadway, por isso acho que não dará. Mas trabalhei com ele em algumas das suas curtas. Gosto muito dele e já o conheço há algum tempo. É um artista muito ambicioso.
Falemos um pouco da série ‘Boardwalk Empire’. Estar numa série tão importante leva-o a recusar muitos filmes?
Nem por isso. A série ‘Boardwalk‘ não é assim tão exigente. Por exemplo, passei o último verão a fazer teatro em Nova Iorque. E também os produtores foram muito compreensivos quando fui trabalhar em ‘Homem de Aço‘. É um bom ambiente e sabem que vários atores estão em demanda.
Quantas séries estão previstas? Já assinou contrato?
Não sei, ainda estamos a rodar a terceira série. Acho que o nosso contrato é de sete anos. Por isso, haverá de certeza uma série 4. Mas a série 3 é muito forte. Com muitas linhas narrativas fortes.
Pode levantar um pouco o véu sobre o arco da sua personagem para a série 3?
(risos)…
Da história, claro…
Bom, no final da série 2 eu saio de Atlantic City e vou para Cicero, Illinois, nos arredores de Chicago, onde existe alguma atividade de gangsters, como Al Capone, tal como a minha ‘nanny’ norueguesa e o nosso filho. Basicamente, tenho de criar um modo de vida diferente, uma nova identidade. Eu estou escondido e não posso ir preso, porque estou escondido. Bom, e sei disser mais do que isto acho que me vou meter num lindo sarilho…
Só para terminar, ‘Revolutionary Road’ foi um grande filme, sobretudo aquela discussão violenta com o Leonardo DiCaprio. Como foi que trabalharam? Houve improvisação?
Não houve improvisação. Estava tudo escrito. Até porque foi um dos melhores livros que já li na minha vida. A ideia era mesmo fazer aquilo que estava no livro. Foi uma cena gravada várias vezes. Lembro-me de ficar impressionado com o Leo.

