“Roosevelt tinha uma constelação de mulheres em seu redor”
Hyde Park em Hudson é um filme curioso que aborda a vida íntima e secreta de um dos mais importantes Presidentes americanos. Laura Linney, três vezes nomeada aos Óscares, assume o papel da mulher que viveu de perto a intimidade de Franklin D. Roosevelt, na véspera dos EUA entrarem na 2ª Guerra Mundial. Falámos com a atriz no festival de Toronto.
O que a atraiu para este papel? Conhecia a Daisy, a ‘amante’ do Presidente Roosevelt?
Não sei se poderemos chamar ‘amante’… Mas nunca tinha ouvido falar dela. No entanto, sei muito sobre os Roosevelts e sei muito sobre o Hyde Park em Hudson, porque vivi ali perto, a uma hora de Nova Iorque.
Surpreendeu-a este tipo de infidelidades no mundo da política?
Nada. Afinal de contas, é sempre política, não é?
Apesar da Daisy ser uma prima bastante afastada do Presidente, motivou algum tipo de julgamento da sua parte?
Não podemos julgar esta pessoa. Ela era completamente devota por ele. É claro que este aspeto sexual se torna muito mais excitante para as pessoas. Até porque esse sexo fica um pouco sujeito à interpretação de cada um. Era uma relação muito séria.
Teve ocasião de ler essas cartas?
Oh sim. Eram cartas muito pessoais. Cartas sobre a intimidade com o Presidente de que ela nunca falou a ninguém. Ela era também muito modesta e recatada, não gostava de chamar a atenção. Por isso quando morreu – com 100 anos de idade -, encontraram uma caixa com cartas debaixo da cama dela.
Eram mesmo cartas íntimas?
Eram documentos que mostravam como ambos eram na verdade muito íntimos e uma amizade muito profunda. Ela deixou ali as cartas porque queria que fossem encontradas, de outro mosto tê-las-ia destruído. Algo que provavelmente tinha uma componente sexual. Mas desde o tempo em que o conheceu até à sua morte – e ela estava com ele nesse momento.
Ela permite-nos conhecer a faceta de um Presidente que os americanos desconheciam?
Em primeiro lugar, ninguém conhecia a Daisy, embora muitas pessoas soubessem que Roosevelt tinha uma constelação de mulheres na vida dele.
Apesar de tudo, Roosevelt é ainda hoje um dos Presidentes americanos mais respeitados…
Oh sim. Em matéria de presidentes, há o Lincoln, depois FDR, o JFK, o Jefferson…
Acha que o Obama alguma vez entrará nesse círculo restrito de notoriedade?
Não sei. Não sei. Veremos. Espero que sim. A História irá traçar o seu juízo.
Foi interessante ver como FDR sabia lidar com a imprensa. Hoje, acho que nenhum Presidente se deixaria fotografar em fato de banho…
Ou numa cadeira de rodas… Hoje não existe essa delicadeza. Hoje domina uma visão de que a imprensa e toda a gente tem direito a tudo. Sobretudo se for alguém que tenha um cargo público. Quando é isso que se torna entretenimento, isso deixa de me interessar.
No filme temos aquela cena bizarra de ambos no carro que indicia um ato sexual. Até que ponto é também mencionada no diário dela?
Nada no diário dela tem natureza sexual. É uma interpretação. O que é mencionado é “o nosso monte”, um monte onde davam passeios de automóvel. Agora o que aconteceu ali quando estavam sozinhos no carro ninguém sabe… Mas há outra passagem do diário dela que cito de cor: “o Presidente está tanto física como psicologicamente um Homem! É tudo o que digo.”
E temos de falar de Bill Murray, claro. Como foi esta experiência partilhada?
O Bill é incrível. E este filme era muito importante para ele. Foi um trabalho muito difícil. Quem não ficaria intimidado ao encarnar Roosevelt?

