5 perguntas a João Marco, realizador de «Além de Ti»

(Fotos: Divulgação)

Depois de ter provado que é possível produzir filmes fora de Lisboa e sem contar com qualquer recurso estatal, o realizador João Marco terá a sua obra de estreia – até aqui restrita a exibições locais em Faro, no Bragacine, em Montepellier e uma passagem pela edição de 2012 do FESTin – exibida comercialmente. Com uma história difícil de se acompanhar, aborda os dramas de um cartunista de Faro – às voltas com problemas afetivos, profissionais e uma crise existencial. João Marco conversou com C7nema sobre o enredo do seu filme, fazer cinema no Algarve e as expetativas que a obra pode gerar.

Como surgiu a ideia para a história de “Além de Ti”?

Este filme vai buscar as raízes portuguesas no que toca ao conto e às lendas tradicionais. Já nem me lembro do título da história em que peguei, mas foi por aí. Apenas uma pequena sugestão que levantou todo um projeto. Sempre gostei de cinema. Realizar ou produzir não é minha decisão. Faço-o porque devo. Porque tenho em mim, criar. Gosto de levantar um mundo, as personagens, as histórias que trazem dentro. Fazer um filme. Estudo todos os dias para conseguir fazer melhor, e realizo para poder realizar melhor. Penso que a arte merece que nos dediquemos e que lhe entreguemos o melhor de nós. Este projeto é o produto da criação da possibilidade.

Teme que aquela opção “buñueliana” de utilizar duas atrizes para a mesma personagem vai dificultar a vida ao espetador?

Espero que sim. No dia da antestreia, em janeiro, um dos meus convidados confessou-me que não tinha entendido o filme. Que tinha ficado perdido ali ao princípio. Aos poucos, ficou de tal forma incomodado que começou a suar. Começou a despir-se, a tirar o cachecol e a desabotoar a camisa. A dar voltas na cadeira. Ficou de tal forma indisposto que resolveu dizer-me apenas alguns dias depois. Esta foi a melhor crítica que fizeram ao projeto. A intervenção da obra dentro do espectador é de tal forma intensa que o fere conscientemente. No fim, acabou por me dizer que tinha visto um bom filme, apesar da experiência vivida.

Já disse na entrevista sobre o seu novo trabalho (“A Porta 21”) que é possível fazer cinema em qualquer lugar do mundo, bastando vontade. E Faro era um lugar interessante. Como foram as filmagens de “Além de Ti”? Desde sempre achou que era possível fazer um filme sem recursos e longe de um grande centro?

Filmar em Faro obriga-me a conhecer Faro. A perceber cada canto e recanto, retirar cada beco do seu contexto e recriá-lo dentro da narrativa. Este olhar apenas é possível porque há limitações. Se não as houvesse, Faro ficaria sempre por apreender. Gosto de saborear a cidade. Cada rua pode ser diferente se chove, é de noite ou se a um domingo. O olhar da câmara, os atores, a luz, a arte, os figurinos, o som e a música fazem o resto. É possível, claro.

A música é um elemento interessante no filme. Como foi a composição dos temas?

Houve a possibilidade de escolher entre temas já acabados, falar com as bandas que gentilmente acederam e gostaram do projeto; e de pedir a músicos, de quem era mais próximo, que me trabalhassem uma peça. Há dois temas originais, compostos de propósito: o do Mian, o hiphop do projeto, e o do Aníbal Madeira – o tema que está no trailer. A integração das faixas foi natural, pois foram escolhidas para ocuparem tal parte, e talvez seja essa escolha que sublinha a beleza individual de cada composição.

“Além de Ti” foi exibido no FESTin há cerca de um ano. Qual é expetativa para esse lançamento em sala, que pode implicar em maior visibilidade de público e crítica?

O Além de Ti é um projeto para ser visto e procurar a reflexão entre quem o vê. O objetivo primeiro seria entrar num festival. E isso foi conseguido. O olhar da crítica não faz a obra, nem me irá fazer perder o rumo. Não tenho em mim a criação de expetativas, pois o filme está cumprido. A distribuição é um bem maior e tornou o sonho para todos mais próximo. O nosso objetivo, o dos que pertencem ao “Além de Ti”, é fazer mais. E aprender a fazer melhor. Essa é a maior lição destes 92 minutos. É possível fazer. Agora, voltemos a tentar.

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