Terence Davies pode muito bem ser o cineasta britânico mais ignorado; ou, se preferirmos, aquele a quem não são dadas as condições para fazer o cinema britânico mais verdadeiro. Sem nunca perder a fleuma, seja quando desanca as instituições culturais do seu país ou quando se deleita a recordar a infância ou a invocar com orgulho a sua preferência homossexual. Foi por isso mesmo um encontro saboroso aquele que tivemos em San Sebastian – já lá vai cerca de um ano e meio – para falar de ‘O Profundo Mar Azul’, um filme que vimos em êxtase apreciando sinceramente a forma como lida com a época, como as personagens evocam um realismo (lirismo!) trazido do passado. E como, de repente, o amor assolapado parece fazer sentido. Já não se fazem filmes assim. Infelizmente, só com Terence Davis. Esperemos apenas que o próximo não seja apenas daqui a mais de dez anos, como sucedeu com o anterior A Casa da Felicidade, filmado no ano 2000. Queremos mais Terence Davis, já! Sim, quem é que quer saber da “bloody” Jane Austen?
Percebe-se que o Terence é um cineasta que filma com tempo. O seu último filme ‘Casa da Felicidade’ data do ano 2000…
Tomo o meu tempo porque não tenho dinheiro para filmar. É esse o problema na Europa. Nesse sentido, a Grã-Bretanha é o país menos civilizado das Europa.
Isso significa que se tivesse mais dinheiro faria mais filmes, é isso?
Sim, sim. Mas não faria cinema ‘mainstream’. Só trabalho com quem quero. É claro que também existem aqueles atores que são importantes demais para receberem indicações de leitura ou repetições. Peço desculpa, mas não existe ator nenhum que esteja acima do realizador. Por outro lado, a Grã-Bretanha tornou-se numa colónia americana. Somos um porta-aviões de produtos americanos. Estamos sempre à procura de aprovação. Não olhamos para as nossas histórias à nossa maneira. Não faz sentido fazermos meras imitações dos americanos. Se não, remetemo-nos a fazer adaptações de Jane Austen. Mas quem é que quer saber da ‘bloody’ Jane Austen!? E nós temos de aguentar com este cinema de herança com coisas hediondas.
Mas se são os seus pares que o escolhem… Não foi a revista Time Out quem elegeu o seu filme Casa da Felicidade e Lawrence da Arabia como uma das melhores fitas britânicas de sempre? Assim sendo, porque é que os seus filmes não são mais apoiados?
Essa é a pergunta que eu também faço.
Porque até nem deve ser um cineasta muito caro….
Não, este filme (Profundo Mar Azul) custou 2,5 milhões. Mesmo assim, não deixa de ser difícil juntar esse dinheiro. O problema é quando os atores, mesmo grandes nomes, não sabem representar. É uma dança barroca para conseguirmos trabalhar com quem queremos.
No entanto, parece ter conseguido um cast perfeito em Profundo Azul.
Obrigado.
Foi complicado conseguir a Rachel Weisz para este filme?
Eu estava a ver televisão e fiquei pasmado com uma atriz. No final procurei nos créditos e percebi que era a Rachel Weisz. Quando perguntei por ela ao meu agente ele disse-me: “você é o único que não conhece a Rachel Weisz”…
(risos) E como foi?…
Eu mandei-lhe o guião e disse-lhe: “se não aceitar não sei quem poderei escolher”…
Disse que não gosta de olhar para a história, mas este é o seu terceiro filme que olha para o período pós guerra. O que procura nesse período?
Foi-me sugerida esta peça que tinha estreado em 1952. Como cresci nos anos 50, sei o que se sentia nesse período. Tínhamos um país na bancarrota não tínhamos nada.
Como cresceu também nesse período, pergunto-lhe até que ponto o seu cinema ficou impregnado com essa visão?
É claro que foi completamente influenciado. Dos sete aos onze foram os anos mais felizes da minha vida. O meu pai morreu nessa altura, de cancro – ele era um homem muito violento – ainda bem que morreu. Mas havia uma atmosfera fantástica.
Até que ponto a parte romântica o ajudou a crescer no cinema?
Muitíssimo. Sobretudo até há 10 anos atrás. E compreendi como a minha mãe, que era uma das pessoas mais carinhosas que conheci, foi capaz de passar por tão grandes adversidades. Isso e apaixonar-me ao ver o Serenata à Chuva com sete anos.
No filme aproxima-se muito da personagem feminina. Algo até que acompanha ao longo da sua carreira…
Veja bem, sou o mais novo de dez irmãos. Fui criado pelas minhas irmãs e a minha mãe. Gostava dos meus irmãos, mas tinha uma afeição especial pela irmãs. É que eles gostavam todos de futebol e de coisas masculinas. Uma vez fui ver um jogo e foram 90 minutos de agonia…
Preferia então estar com as mulheres…
Sim, nas sextas-feiras as amigas das minha irmãs vinham lá a casa e ainda me lembro do cheio do nylon das meias. E de um perfume muito barato, o ‘Evening in Paris’. Tudo muito romântico. E sendo ‘gay’ é claro que isso me afeta muito. É claro que quando todos saiam e eu ficava com a minha mãe, o ambiente era um pouco desolador.
Por falar nessa atmosfera, o ambiente musical nos seus filmes é sempre carregado de uma atmosfera de enorme felicidade e partilha. Eram momentos que também experienciava com a sua família?
Sim, isso era muito comum. Nesse tempo todas as ruas tinham o seu pub. E cada um ia ao da sua rua. E pelas nove da noite todos começavam a cantar. Sempre em grupo. Aliás, ninguém sabia o que era uma canção individual, apenas canções em grupo. Nesses momento, sentia que estava no centro do universo.
Seria capaz de fazer um filme contemporâneo? Sentia-se capaz de encontrar um interesse nesses temas?
Honestamente, não sei dizer. Por exemplo, um filme de gangsters. Acho que não saberia o que fazer. Não gosto de violência, não sei nada sobre drogas, perseguições de carros… é algo que não me interessa.
Sei que há alguns momentos biográficos, não só nas suas curtas, como nas longas também. Pergunto se existe alguma memória que gostasse de incorporar num outro filme?
Sim, por acaso fantasio em fazer um musical. Mas hoje em dia ninguém escreve musicais.
E que tipo de musical seria. Por certo recriaria os anos 50, certo?
Sim, a verdade é que já não temos esses filmes. Hoje, todos queres ser estrelas e ter graça.
O que acha do Tom (Hiddleston)? Vai ser uma estrela, seguramente.
Sim, eu julgo que sim. Sem dúvida. Tenho muito orgulho no meu cast. Em todos. Mas quando o vi percebi logo que seria uma boa escolha.

