Entrevista a Salvatore Mereu, realizador de «Bellas Mariposas»

(Fotos: Divulgação)

“Bellas Mariposas” é uma das boas surpresas desta edição da Festa do Cinema Italiano. O filme narra a desventuras de uma adolescente, Caterina (Sara Podda) que vive num bairro degradado, com uma família (e uma vizinhança) completamente disfuncionais. A partir de uma certa altura, junta-se a sua amiga Luna (Maya Mulan) à história e as duas andam a perambular pelas ruas de Cagliari, enquanto o filme funciona como uma inventiva e documental observação da passagem para a vida adulta num ambiente hostil.

O realizador Salvatore Mereu esteve em Lisboa para apresentar o seu filme no festival. Em conversa com o C7nema, o cineasta falou sobre a escolha do universo que quis abordar, o gosto pelo estilo realista e o processo de casting de um filme fortemente apoiado na sua atriz principal, Sara Podda.

Porque escolheu esse extrato social para abordar no seu filme?

Eu sempre tentei falar dos humildes, daqueles que normalmente não têm direito à palavra, de se expressar. Eu também venho de uma família simples, embora não de um ambiente igual ao do filme e acho que o cinema devo abordar as situações reais, conhecidas. Porque se tentas contar coisas de um mundo que não conheces torna-se tudo falso e as pessoas percebem logo. Assim, mesmo sendo um filme de ficção, quero sempre que haja uma parte de verdade, que seja o mais realista possível. Por isso transferi-me para Cagliari para estudar o ambiente – e neste sentido o filme é quase um documentário, embora a história tenha sido baseada num conto literário (de Sergio Atzeni).

Fora do cinema eu sou também professor, portanto, quando pedi para estar num bairro de Cagliari,terminei por ser também professor destes jovens lá na escola do 2º ciclo – dos 12 aos 14 anos, o que me deu possibilidade de conhecer muito melhor o seu mundo. Eles reconheceram-me antes como professor e depois como realizador. Mas voltando à sua pergunta, o que tentei foi abordar uma realidade que conhecia e não fazer de turista. O cinema não pode ser feito por turistas…

Por falar neles, o seu filme também não é para quem pensa fazer turismo na Sardenha…

(risos) Não! Apesar de ter sido apoiada pela Film Comission da Sardenha, ele é tudo menos um filme para turistas… (risos)

Como falou na sua origem, o filme tem memórias autobiográficas?

Não diretamente, até porque o centro da história são duas meninas adolescentes. Além disto, o filme é rodado na periferia de Cagliari, enquanto eu sou do centro. Mas, com certeza, é possível que, sendo um filme inspirado num conto, se possa encontrar nele algo que me tenha inspirado e que me seja familiar. É possível que neste sentido tenha algo de autobiográfico. É difícil dizer o quanto, mas de certeza que há sempre de autobiográfico do realizador.

É um filme onde a sexualidade tem um papel muito importante…

Sim, embora seja mais importante no que diz respeito ao conto. Seria mau dizer que no filme a sexualidade tenha um papel central. É mais, digamos, um filme sobre a dificuldade de crescer.

Como funcionou o processo de casting para as duas protagonistas?

A experiência na escola deu-me a possibilidade de conhecer estas jovens. Portanto, ao estar quotidianamente com eles, tive a oportunidade de perceber quem é que poderia ter inspirado esse conto. Alguns atores eu trouxe da escola. No caso de outras zonas mostradas no filme eu fui mesmo à procura nas escolas, porque queria que eles falassem mesmo com o sotaque específico – e até porque no conto eles têm esse tipo de linguagem.

Construímos um mosaico de 1500 jovens e começamos depois a ensaiar dentro do ginásio da escola onde estava a ensinar – até porque queria que os familiares e os pais vissem, estivessem presentes, observassem como desenvolvíamos o nosso trabalho. Também quis rodar o filme em ordem cronológica, construí-lo dia-a-dia. As duas protagonistas, que não se conheciam, foram elas próprias desenvolvendo uma relação de amizade com o passar do tempo.

Já tem novos projetos?

Ainda não, estou na fase de leitura de muitas coisas, na fase de escolher, de ver qual destes projetos posso vir a realizar – pois hoje em dia está muito difícil fazer produções a baixo custo. Sobretudo quando se tem uma ideia de cinema como esta, que não é comercial.

 
 
 
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