Sem qualquer apoio do Estado e feito essencialmente de amizade nos tempos livres, “Assim Assim” foi um processo de filmagem original para os atores. Até à data da ante-estreia, quando quatro membros do elenco – Nuno Lopes, Joaquim Horta, Tomás Alves e Sabri Lucas – conversam com c7nema, nenhum deles conhecia o restante do filme. A entrevista divide-se em duas partes: na primeira, eles contam o que os motivou a entrar neste projeto e falam sobre as suas personagens.
O INTERESSE PELO PROJETO
Nuno Lopes: em primeiro lugar eu sou amigo do Sérgio. Eu tinha visto a primeira versão da curta e tinha gostado bastante. Ele falou que estaria interessado em prolonga-la, acrescentar mais personagens e tentar fazer uma história. Eu concordei e ele apresentou-me uma cena que gostava que eu fizesse e disse que estava à vontade para não aceitar, já que o filme foi feito sem muitos meios, que não havia subsídio para o fazer. Eu filmei em um dia, fiz todas as minhas cenas em um dia. Quando eu filmei havia cenas que nem sequer estavam escritas, eu não li o guião. Estou curioso para ver o resultado. O filme teve muito esse desafio, uma história que estava a ser construída baseada naquela curta.
Acho que a parte mais interessante do projeto foi essa, perceber que era um filme diferente, não que seja melhor ou pior, mas diferente no sentido de ser um filme com muitos diálogos, de ser um filme com várias histórias juntas, um estilo de cinema que já é quase um género mas que nunca foi feito em Portugal. Achei que seria engraçado e desafiante fazer isso. Meu interesse era sobretudo esse desafio de não conhecer o guião, não saber o que vai se juntar depois, que peças vêm a seguir ter de confiar inteiramente no realizador, dizer OK, fazer a minha parte e tentar fazer o melhor possível.
Num filme tradicional eu pego no guião, tento perceber o que o realizador quer, qual é a história que ele quer contar. Depois olho para um guião como um todo e tento perceber qual é a minha parte neste todo. Aqui só tinha a minha parte e não sabia o que era o resto, tinha-se que confiar no realizador. É muito mais arriscado no sentido em que não sabes onde estás inserido. Tens esse guião, tens a referência da curta. Tentas acertar e ir para o caminho certo.
Joaquim Horta: acima de tudo foi a aventura. Isto começou com um desafio do Sergio e com uma curta. Fizemos isto com um grupo de pessoas que quem tínhamos estado a trabalhar e que conhecíamos bem. Ele lançou-nos esse desafio de fazer uma curta e nós embarcamos nesta aventura. Não havia esta ideia de fazer uma longa e um dia estrear com distribuição.
Portanto, não posso dizer que foi um projeto que apareceu e que foi muito estudado. Foi algo que foi crescendo. Li a minha parte a partir do momento que o Sergio falou da possibilidade de fazer uma longa e passou a desenvolver ideias para isso. Eu várias vezes lhe pedi para me mostrar o texto na íntegra mas ele nunca o fez. Ainda não vi o resultado final! Não era uma exigência do Sérgio, mas foi uma consequência do método do trabalho. No início partiu da vontade de nos encontrarmos e foi crescendo.
Por isso só conhecemos os bocados e não o todo. Acho piada levarmos isso até o fim, até o dia da estreia. A minha parte foi filmada muito rápida, gravada nas partes livres que tínhamos de outros trabalhos, fins-de-semana, noites. Tínhamos que conciliar a disponibilidade das pessoas todas. As minhas cenas foram bastante rápidas. Participo na curta que foi gravada em uma noite, uma direta, e o restante da minha participação foi gravada em um dia.
Tomás Alves: a mim o que interessou foi voltar a trabalhar com o Sergio Graciano, uma vez que ao longo destes anos nos tornamos amigos, e com os outros colegas que participam deste filme. Acho que é um luxo trabalhar com este elenco e foi uma grande jogada do Sérgio. Estou ansioso por ver o que aconteceu. Não vi e nem li, só sei aquilo que eu fiz, não faço ideia do resto.
Sabri Lucas: a ideia do Sergio no início era uma curta e depois fez sentido na cabeça dele e do Pedro Lopes continuar a história porque a curta era ótima e ganhou prémios. À semelhança do que o Strassberg fez quando criou o método dele, e depois fizeram “O Padrinho” e resultou, eu acho que o Sérgio aqui teve uma ideia excelente a juntar estes atores todos. E além disso há o Pedro Lopes, que escreve bastante bem e de uma forma simples, para um público que pode ir dos 12 aos 80 anos, que é isso que falta no cinema em Portugal.
Assim como o Brasil agora tem um cinema muito bom, com grandes filmes que chegam até nós, com atores excelentes, “Assim Assim” pega numa coisa simples e faz uma coisa diferente. Não deixa de ser cinema de autor, mas é um cinema para as pessoas verem, não para irem para casa a pensar que não perceberam nada daquilo. É aquilo que acontece na tua vida. É sobre tudo o que toca a relações e vai sempre haver relações. Quando o expectador se identifica com o que ali está e aí sim, cria questões. A história deste filme é um frame da vida de cada pessoa. Como o “Crash”. Estes frames são momentos da tua vida em que tu estás num conflito qualquer. Porque nós estamos sempre em conflito. De forma mais ou menos consciente.
A PERSONAGEM
N.L. Eu acho que a minha personagem fala sobre mentira, sobre como é viver uma mentira numa relação. Ele vive numa relação com ecos do passado e não lida bem com isso. O que faz com que, em última analise, ele se torne temperamental.
T.A. Eu faço um rapaz homossexual que está em duas relações. Basicamente o que se vê são dois picos: um em que aparentemente está tudo bem, mas no fundo não está, e outra que é um rompimento. Não sei onde se encaixa, basicamente fizemos aquelas cenas e pronto.
S.L. Não acho que a situação da minha personagem tenha a ver com racismo. O racismo é uma coisa muito corriqueira, muito vaga. Também não é preconceito. É mais do que isso. É o meu conflito com a minha namorada. Pode ser uma outra coisa, existe a situação de encontrar um amigo que já não vejo, e há o preconceito dele com o meu trabalho e o meu com o dele. Eu próprio estou a gozar com ele com aquilo que não lhe digo… As coisas são não assim tão lineares.

