“Millennium: Os Homens que Odeiam as Mulheres” é provavelmente o filme europeu mais forte de 2009. Chega às salas portuguesas depois de arrasar nas bilheteiras em França, Espanha e na sua Suécia natal, com estreia iminente nos EUA, na Alemanha e no Japão, onde é aguardado por milhões de fãs de Stieg Larsson.
O filme é baseado na primeira obra do polémico Stieg Larsson – autor sueco que morreu em 2004, sem ver nenhum dos seus livros publicado ou a conquistar o mundo. Para além de “Os Homens que Odeiam as Mulheres” (2005), a trilogia Millennium conta também com “A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo” e “A Rainha no Palácio das Correntes de Ar”.
Na história seguimos Mikael Blomkvist, jornalista e editor da revista Millennium. Caído em desgraça após ser condenado a cumprir pena de prisão por uma reportagem sobre um magnata da economia sueca, Hans-Erik Wennerström, “Super Blomkvist” aceita a proposta de Henrik Vanger para investigar o desaparecimento da sobrinha Harriet, ocorrido 40 anos antes. É nessa busca que cruza caminho com Lisbeth Salander, hacker de renome internacional (conhecida como Vespa), que o vai ajudar. Mas a procura por uma verdade escondida há décadas coloca-os em situações perigosas, que podem levá-los à prisão ou mesmo à morte.
O C7nema falou com o realizador dinamarquês Niels Arden Oplev, responsável por este intenso thriller que adaptou o primeiro livro da trilogia que conquistou leitores em todo o mundo.
“Os Homens que Odeiam as Mulheres” arrecadou mais de 50 milhões de euros em 30 mercados, tornando-se o terceiro filme de língua não inglesa mais bem-sucedido do ano. Falta estrear no Japão, Alemanha e EUA. Esperava este sucesso?
– Todo este sucesso tem sido uma experiência incrível. Sinto-me orgulhoso e feliz cada vez que o filme estreia num novo país. É muito difícil para um filme falado numa língua menor ser visto fora do seu mercado natural. Os filmes escandinavos, mesmo os mais ambiciosos, têm muita dificuldade em ultrapassar essa barreira. O livro foi a grande locomotiva do sucesso, mas se o filme não fosse convincente, não teria resultado.
Presumo que esteja em Nova Iorque para vender o filme. Acha que a América é demasiado conservadora para uma proposta tão arriscada?
– Na realidade, estou aqui a trabalhar num novo filme, uma produção americana baseada num livro europeu. Não posso revelar mais. Mas sobre a questão: não penso que os EUA sejam um mercado difícil. O livro vendeu muitíssimo bem aqui, está no topo das listas do New York Times. Há fãs suficientes. Os EUA não são tão diferentes do resto do mundo, apenas maximizam tudo. Há conservadores, claro, mas também público para cinema independente.
Corre um rumor que Quentin Tarantino quer fazer uma versão com Brad Pitt. Isso poderá afetar a distribuição do filme sueco?
– Esse rumor nasceu da imprensa sueca. Já ouvi os mais disparatados. Acredito que um remake venha a ser feito, mas acho que vão apostar primeiro no filme sueco. É mais rápido e lucrativo distribuí-lo agora e só depois avançar com uma versão americana.
Foi difícil encontrar os atores para os papéis principais?
– Pensava que sim, mas não. Para Lisbeth queríamos alguém desconhecido. A Noomi Rapace parecia demasiado bonita e feminina, mas no casting convenceu-me por completo com a sua força emocional. Para Blomkvist, escolhemos Michael Nyqvist, um ator pacífico e carismático. No filme, tal como no livro, ele tinha de ser o único homem sem um lado negro.
Conhecia os livros antes do convite para o filme?
– Não. Recusei inicialmente porque pensei que fosse apenas um thriller de TV. Mais tarde li os livros e percebi que havia ali material para um grande filme escandinavo, rodado em widescreen. Convenci os produtores de que poderíamos combinar o comercialismo americano com a escuridão europeia – um “Silêncio dos Inocentes” escandinavo.
O que Stieg Larsson teria achado do filme, se estivesse vivo?
– Penso que estaria orgulhoso do sucesso e satisfeito com o resultado. Fomos fiéis às personagens, ao espírito e aos factos. É raro ver uma adaptação tão apreciada pelos leitores.
Quais foram as suas maiores influências?
– Um dos filmes que mais me marcou foi “La Passion de Jeanne d’Arc” de Carl Theodor Dreyer, de 1928. Foi o primeiro a usar close-ups. Também admiro John Cassavetes e Ridley Scott. Sou apaixonado por “Blade Runner”, “Gladiator” e “Black Hawk Down”.
E a prequela de “Alien” que Ridley vai realizar?
– Não percebo porquê. Talvez pelos flops recentes. Mas é pena. Ridley Scott é subvalorizado e nunca se repete.
O seu primeiro filme, “Portland”, é muito pesado, tal como “Os Homens que Odeiam as Mulheres”. Vê-se como realizador de limite?
– Não. Faço filmes em vários géneros, até para crianças. Mas sou muito virado para o realismo. A violência está nas realidades que abordo, não no meu estilo.
Acha que o filme expõe realidades da Suécia atual?
– Sim. Mostra a violência escondida sob a imagem pacífica da Escandinávia, mas também o ódio racial e religioso e os ecos da Segunda Guerra Mundial.
Por que não realiza o segundo e o terceiro filme da série?
– Porque na altura estavam pensados como telefilmes. Eu quis apenas o primeiro. Mas com o sucesso, talvez mudem os planos e façam para cinema.
E “Let the Right One In”?
– Ainda não vi, mas ouvi maravilhas.
Com o sucesso do seu filme, acha que o cinema sueco conquistará o mundo?
– Creio que foi uma oportunidade única. A língua é uma barreira grande. É mais fácil exportar literatura ou música do que cinema sueco.
Qual a sua opinião sobre o Partido Pirata e o Pirate Bay?
– Tenho uma opinião negativa. São hipócritas. Se não houver dinheiro, não há filmes. É roubo, simplesmente.
Conhece algum filme ou realizador português?
– Confesso que não. É uma falha minha. Conheço melhor o cinema brasileiro, mas nunca tive contacto com o português.

