No momento em que estreia em Portugal “Os Crimes dos Rios de Púrpura 2 – Os Anjos do Apocalipse”, o C7nema teve oportunidade de falar com Alain Goldman, produtor do filme e um dos mais conceituados em França pelos seus projetos mainstream (“1492”, a história de Cristóvão Colombo contada por Ridley Scott, faz parte do seu currículo).
Homem cordato e muito profissional nas respostas, Goldman revelou um pouco do processo criativo por trás da sequela do filme de sucesso realizado e protagonizado por Mathieu Kassovitz. No final, deixou ainda as razões da sua estadia em Lisboa: vem aí um novo filme futurista filmado na nossa capital.
Tive oportunidade de ver o primeiro filme [“Os Crimes dos Rios de Púrpura”] quando estreou. Foi um grande sucesso, com um ambiente “dark”, Mathieu Kassovitz [“O Ódio”, “Gothika”] na realização, Jean Reno [“Ronin”, “Vertigem Azul”] e Vincent Cassel [“Irreversível”] como protagonistas. Todos os ingredientes de um grande êxito. Foi um risco tentar enveredar por esta sequela, futuramente uma trilogia?
– Tudo o que fazemos neste negócio é um risco. É um risco porque, façamos o que façamos, é uma peça única, baseada na especulação dos desejos futuros de um público. Às vezes pensamos que não corremos muitos riscos e falhamos, outras vezes acabamos por ter êxito. Umas vezes achamos que temos todos os elementos a nosso favor e “despenhamo-nos”. É claro que é um risco!
É como a lei de Murphy…
– É um espetáculo. Nunca sabemos o que as pessoas quererão ver.
Mas quem teve a ideia de fazer uma trilogia dos Rios de Púrpura? Você?
– É principalmente minha, mas não inteiramente. Acho que este franchise dos Rios Púrpura é provavelmente o único thriller com essas características que podemos ter na Europa. É o único não-americano do género com hipóteses de atrair muito público, não só na Europa, mas também na Ásia e noutros continentes.
Se não se importa pelo atrevimento, gostava de compará-lo precisamente com um americano. Seria o mesmo se os produtores de “Se7en” se lembrassem de fazer do filme de David Fincher uma trilogia…
– Porque não? Poderiam ter agarrado essa ideia. Mas prefiro compará-lo com a série “Alien”. Em todos esses filmes, sabemos à partida que vamos encontrar um alien numa nave espacial. Nos filmes dos Rios Púrpura temos sempre duas histórias, que afinal são apenas uma, com o sangue como elo de ligação. Mas, claro, queremos que cada filme seja diferente, senão o público aborrecia-se.
Tal como em “Alien”, aqui também há a visão de diferentes realizadores…
– Exato. Conheço o Olivier Dahan [realizador desta sequela] há muitos anos. Sou fã do seu trabalho desde o primeiro filme e sempre quis trabalhar com ele. Acho que é um verdadeiro génio na execução. Por isso quis dar-lhe a oportunidade de dirigir um grande título, com orçamento maior, em que pudesse exprimir-se livremente.
Mas é a sua primeira aventura neste tipo de filmes mais “mainstream”…
– Sim. Mas, na minha opinião, ele consegue fazer qualquer tipo de película.
Como é que o Luc Besson [produtor e argumentista do filme, realizador de “Vertigem Azul” e “Nikita”] entrou no projeto?
– Foi curioso. Encontrámo-nos a caminho do Festival de Cannes, no mesmo avião. Falámos, partilhámos ideias, e disse-lhe que gostaria de desenvolver uma série de filmes com base no primeiro “Crimes dos Rios de Púrpura”, porque acho que é um conceito forte. Ele não reagiu logo, mas três semanas depois chamou-me para um café e disse que tinha uma história. Contou-me as ideias, perguntei se queria escrever o argumento, ele disse que sim. Foi assim que começámos.
Como já referiu, nos Rios Púrpura há sempre duas histórias paralelas que se cruzam. No primeiro havia o comissário Niemans (Jean Reno), que aqui regressa. O que aconteceu à personagem de Vincent Cassel?
– O Vincent Cassel não estava disponível porque estava a filmar “Blueberry” [adaptação da BD realizada por Jan Kounen] e a começar “Agents Secrets” [thriller francês em que contracenava com Monica Bellucci].
Então foi apenas uma questão de agenda…
– Sim, mas também quisemos trabalhar com Benoît Magimel [parceiro de Jean Reno nesta sequela]. Foi tanto por datas como por desejo de colaboração.
Fez um belo trabalho em “A Pianista”…
– Sim! É um ator brilhante, e quis aparecer num filme de ação mais mainstream.
E como conseguiu o Christopher Lee (o Saruman de “O Senhor dos Anéis”)?
– Incrivelmente, quando começámos o casting, o Olivier disse que adorava trabalhar com ele. É um ícone. Enviámos-lhe o guião e algumas cassetes de trabalhos do Olivier, e ele respondeu “OK”. Tão simples quanto isso!
Foi um excelente “timing”, com toda a publicidade de “O Senhor dos Anéis”…
– Sem dúvida.
Agora falta um filme para terminar a trilogia. Já estão em filmagens?
– Não. Vamos deixar passar algum tempo. Ainda há muito a preparar… você sabe.
O novo realizador para a terceira parte é Florent Emilio Siri, que está a dirigir Bruce Willis em “Hostage”…
– Exatamente. Ele termina esse trabalho no fim do ano.
Pode dar-nos algum avanço sobre a terceira parte?
– Posso apenas dizer que será mais realista do que o segundo, mais político. Ao estilo de “Three Days of the Condor” [thriller de 1975 de Sydney Pollack]. O tema serão armas não convencionais, explorando a ligação entre exército e indústria.
E o elenco vai manter-se o mesmo?
– Não posso revelar nada. Estamos a preparar uma surpresa. (sorri)
Mas o Jean Reno mantém-se?
– Não quero dizer nada neste momento. É cedo para anunciar.
E quanto a outros projetos seus? Está a “cozinhar” algo?
– Sim. Vamos começar no próximo mês um filme aqui em Portugal, filmado inteiramente em Lisboa. É um projeto futurista, um thriller de antecipação, baseado no poder da ciência. O elenco inclui Andreas Wilson, jovem ator em ascensão, e Michael Wincott (“O Corvo”, “Alien 4”). A realização será de Roselyne Bosch, que escreveu, entre outros, o argumento de “1492”.
Na história, a ação também se passa em Lisboa?
– Absolutamente. Vamos filmar na zona da Expo 98.
Já tem data prevista de estreia?
– Não. Provavelmente terminaremos no fim do ano, e deverá estrear em março/abril do próximo.
É uma produção exclusivamente francesa?
– Não. É uma coprodução entre França, Inglaterra e Portugal, falada em inglês.
Vai contar com atores portugueses no elenco?
– Sim. Vamos anunciá-los brevemente, estamos em negociações.
E a história, é original ou adaptada?
– É um guião original. Vai chamar-se “Animal”, no sentido da violência interior da espécie humana.
Nuno Centeio

