Entrevista a Ana Cristina Oliveira & Luis Galvão Teles – ‘Tudo isto é Fado’

(Fotos: Divulgação)

O c7nema teve oportunidade de manter uma conversa a três com Luis Galvão Teles, realizador do novíssimo “Tudo Isto é Fado“, a comédia portuguesa que estreia nas salas do país, e com a actriz/modelo Ana Cristina Oliveira, uma das intervenientes na história, onde contracena com actores como o brasileiro Danton Mello ou Ângelo Torres.

Uma pergunta primordial… como é que surgiu esta ideia ?

Luis Galvão Teles – como é que surgiu, Ana Cristina, lembras-te?
Ana Cristina Oliveira
– É assim… fomos um dia jantar fora.. (risos)
LGT – Não. Estou a brincar. A ideia surgiu da minha vontade de fazer uma comédia. Embora tivesse feito nos anos 80 “A Vida é Bela” (que é mais que uma comédia, é uma farsa, claramente uma farsa), tive sempre um pouco para voltar a este género. Tinha feito o “Retrato de Família”, que é um filme extremamente dramático, deprimente e negro, tinha feito o “Elas”, que já tem elementos de comédia, mas muito misturados com elementos dramáticos. Agora tinha vontade de fazer uma coisa mais directamente comédia e muito menos farsa do que foi “A Vida é Bela”. E a certa altura, dentro desta vida e da nossa posição, vão nos aparecendo pessoas e projectos, apareceu-me este argumento nas mãos e pensei, “olha! aqui está!”.

O “Elas” é um filme de 1997. Porquê este hiato tão grande até ao “Tudo Isto é Fado” ?

 LGT – Porque entre 97 e agora fiz “A Noiva”, um telefilme, que é um trabalho de realização também, produzi o “Jaime”, “Nha Fala”, montei uma sociedade que é a Fado Filmes, que hoje em dia tem cerca de 50 projectos em desenvolvimento, entre documentários e multimedia. Vamos sair agora, por exemplo, com a revista Visão do dia 20 de Maio, com um CD-ROM e DVD sobre Timor. Temos a ideia também de criar um site sobre cinema – não é para vos fazer concorrência (risos), de maneira nenhuma – no entanto tudo isto me impede, como é evidente. O “Dot.com”, que é o próximo filme, já o devia ter filmado e não consigo porque estou a fazer outras coisas que me são tão importantes, sobretudo a construção da própria sociedade.

Mas prefere a produção à realização ?

LGT – Não. Significa que estou dividido entre as duas e que gosto de fazer tanto uma como outra.

 Bom… eu não queria enveredar já pelo “Dot.com”, mas como acabou de mencionar o filme, pergunto… envolve internet? Do que é que trata propriamente ?

 LGT – Envolve a internet, exactamente. A história é muito simples. É uma comédia, mais uma vez, agora que lhe ganhei o gosto, a argumentista é a mesma deste filme [Suzanne Nagle], que é uma estrangeira com um olhar muito irónico sobre Portugal, e eu acho que isso é muito interessante. A ideia do filme é basicamente esta… há um desses engenheiros que vão construir uma estrada, que por acaso nunca se constrói. Havia dinheiro da Europa, mas este nunca mais vem, e ele não tem nada que fazer senão estar à espera. Ele quer é regressar a Lisboa porque tem lá a namorada. A certa altura, como não tem nada que fazer, cria um site para a aldeia onde está, sobre esta. De repente, quando está já tudo preparado para retornar a Lisboa e retomar a sua vida normal, recebem uma carta registada com aviso de recepção de uma sociedade de advogados a dizer que o site tem que fechar, porque há uma multinacional que tem o mesmo nome, e o site está a infringir as regras de copyright. Para o protagonista não há problema nenhum, porque ele está de partida. Só que o site não pode ser fechado porque está em nome da associação de aldeões. Então ele tem de organizar uma assembleia geral, onde tudo se começa a dividir. Há aqueles que querem guardar o site porque não vão ceder aos estrangeiros, e aqueles que vêm em tudo uma oportunidade de negócio, já que o site vale dinheiro (porque também têm de pagar por ele) então porque não pedir aos estrangeiros dinheiro e lhes vender o site? É então que aquilo começa a transformar-se, com as televisões todas a invadir o sítio.

É uma rica mistura entre o bucólico e a tecnologia…

LGT – Completamente. E esta é a comédia que vou fazer a seguir. Mas falemos do passado e do presente…

Muito bem. Uma pergunta agora para a Ana Cristina. Como é que foi esta experiência de trabalhar neste filme? Foi a primeira experiência cinematográfica?

 ACO – Não. É a primeira em Portugal, mas já tinha feito algumas coisas nos Estados Unidos e em Itália.

Em Itália? Admito que praticamente conheço-a dos spots publicitários para uma marca de automóveis, ao lado do Harrison Ford, e para uma marca de jeans… mas como é que foi então trabalhar cá em Portugal?

ACO – Gostei imenso.

Eu refiro isto pela vivência que tem de Los Angeles. É um mundo completamente aparte, não é?

ACO – É. Mas é difícil de comparar Portugal com os Estados Unidos. A maior aproximação talvez se possa fazer da vez que trabalhei em Itália. Somos mais parecidos, há qualquer coisa de mais latina, mais descontraída.

Foi fácil trabalhar com actores brasileiros e portugueses, para variar? Deu-se bem com o Danton Mello?

ACO – Foi. Dei-me lindamente com o Danton, estávamos sempre a rir. Tinha piada porque as cenas que fizemos, em si, já tinham piada

 Fale-me um pouco do seu personagem.

ACO – A Lia… o primeiro adjectivo que eu lhe dou é… super misteriosa.

Tenho a informação que no filme diz que não é uma mulher fatal. Mas é, porque acaba por criar uma série de “guerras” entre os dois protagonistas…

ACO – Porque eles são uns fracos (risos). Eu acho que ela não é fatal. Ela de repente percebe que é muito fácil dominar estes homens em particular. O mais difícil é o Amadeu [Ângelo Torres], mas o Danton é facílimo de manobrar.
LGT
– O Danton ou o Leonardo? (risos)
ACO
– O Leonardo! o personagem, claro. (risos)

Gostou de se ver no filme, do resultado final?

ACO – Gostei. Gostei de ver toda a gente. Eu não estava à espera, porque nunca tinha visto o filme já todo acabado e feito. É muito diferente quando se lê o guião, porque há imensas cenas em que eu não estou presente. Ver depois o conteúdo todo e a história completa… gostei imenso de ver várias cenas em que eu não estava presente e que estavam os outros actores.

Tenho outra informação que me diz que vai participar no remake americano do “Taxi”.

ACO – Já participei.

Já? Bom… tirei isto da internet…

ACO – Já. Já está acabado.

LGT – Nunca se pode confiar na internet (risos).

ACO – Está tudo em atraso na internet (risos).

Significa então que esta profissão de actriz em longas metragens é para continuar?

ACO – Espero bem que sim. Espero que não tenha que arranjar outra profissão brevemente. É para ficar.

Por curiosidade, pode nos dar algumas dicas sobre a sua participação no “Taxi” ?

 ACO – No “Taxi” sou uma assaltante brasileira. (risos) Ando sempre aos assaltos. LGT – É que no “Tudo Isto é Fado” também há um assalto, e ela é uma das assaltantes.

Podemos definir este “Tudo Isto é Fado” como um “heist movie”, como dizem os americanos. Mas tem sempre aquele pormenor do futebol…

LGT – Sim, é um “heist movie”, um filme de assalto, tratado de uma maneira especial. Normalmente os americanos fazem “heist movies” a sério, isto no sentido em que os intervenientes no golpe são super profissionais, que fazem super assaltos de uma forma super rigorosa. O nosso filme é muito mais dentro do espírito da comédia italiana, daqueles assaltantes a quem as coisas saem sempre mal, saem sempre furadas, e que fazem os maiores planos da vida mas nunca nada bate certo. Portanto, é de facto um filme de assalto…

O Marcantonio referia a influência dos filmes do Totó…

LGT – Exacto. Há um filme com o Mastroianni que é um pouco este mundo. As pessoas juntam-se e arranjam uma grande ideia. Neste caso, eles têm aquela miragem do escritor de livros policiais que lhes vai arranjar o grande plano. O grande plano, já em si, é roubar um quadro que aparentemente é falso. Depois tem uma outra grande ideia que é a de fazer o assalto durante uma final do campeonato do mundo, em que Portugal participa em confronto contra o Brasil, portanto ninguém estará preocupado com as questões de segurança.

Acredita que uma situação dessas fosse possível?

LGT – Já estamos a caminho, não é? Agora a caminho do Euro, depois a caminho do mundial…

Mas isso é o Euro. Portugal na Europa dá sempre cartas. No mundial acha que chegamos assim tão longe?

LGT – (risos) É só ganhar-lhe o gosto, não é? Eu acho que é um pouco uma utopia, mas os portugueses vivem dessa utopia, a nossa grande utopia portuguesa…

Ou seja, “Tudo isto é Fado”…

LGT – Exactamente. Por isso é que o filme se chama assim, obviamente. E não como às vezes as pessoas fazem uma leitura em termos directos do fado como canção. Portanto, é a brincadeira sobre essa grande utopia de nós nos sentirmos predestinados para sermos os melhores do mundo, e não aceitarmos que é tão bom sermos o que somos, e não aquilo que não somos.

Outra questão que creio ser essencial é sobre o tipo de filme de que estamos a falar. Esta é uma produção acessível ao grande público. Há sempre aquele eterno binómio em Portugal entre o cinema “de autor”, mais erudito, e o cinema mais comercial. O que é que tem a dizer sobre isto?

LGT – Esse binómio é de certa maneira falso, porque se põe uma coisa contra outra. Eu acho que não, que são coisas complementares. Acho que há públicos, não há “um público”. E mesmo quando fala do “grande público”, são “grandes públicos” e “pequenos públicos”. No fundo, o “grande público” é composto por muitos “pequenos públicos”, e há filmes que se diz que tocam o “grande público”, mas muitas vezes tocam apenas uma parte desse “grande público”, e outro filme tem tantos espectadores como aquele mas é outra parte do público. Portanto, acho que essas coisas são um bocadinho falseadas e eu não ponho umas contra as outras. Prefiro referir diferentes maneiras de chegar a públicos. Neste caso é evidente que eu coloco uma linguagem fácil, acessível, directa, que permita a qualquer pessoa ver este filme e percebê-lo. Tem uma história, tem personagens. A história tem um princípio, um meio e um fim, os personagens têm vida, têm problemas, têm sonhos, têm aventuras, e isso é o principal. Mas depois o filme não é só isso, tem outras coisas também que quem quiser ver vê, quem não quiser não vê…

Mas deve ter uma contribuição pessoal…

LGT – Sim, claro que tem.

Qual é?

LGT – Fundamentalmente são duas, se quiser. Uma delas é a de que “portugueses, deixem de sofrer, chorar, menos ais e mais sorrisos sobre a vida e sobre si próprios”. A outra contribuição é, sobre uma característica também muito portuguesa, não deixem para amanhã aquilo que podem viver hoje. Portanto, tratem de pegar nas coisas com as mãos e não se desculpabilizarem com “ai não, isto a fatalidade é assim”, deixando-se comandar pelo destino. Não. Tentem agarrar o destino com as mãos. É evidente que eles vão fazer o assalto, mas é fundamentalmente uma comédia, porque a certa altura o assalto não se passa tão bem como eles estão à espera, porque apesar de tudo há personagens que estão dentro da televisão, e não se comportam como eles estavam à espera, por isso as coisas saem sempre furadas. Mas também à boa moda portuguesa, há sempre uma maneira de dar a volta ao jogo.

Ana Cristina, como já falei de projectos futuros com o Luis Galvão Teles, falta fazer-lhe a mesma pergunta. Há algo na forja?

ACO – Neste momento não há nada confirmado. Há apostas mas nada de concreto…
LGT – Mistério (risos).

Olhando para ela, realmente parece uma mulher bem misteriosa…

ACO – (risos) Quem me dera estar a guardar imensos segredos, mas não…
LGT
– De qualquer maneira não vale a pena estar a esconder… quer dizer… há castings, todos os processos normais. É que o cinema é uma coisa ingrata desse ponto de vista. Vive muito de moda, de momentos e de riscos. Muitas coisas que estão em vias de arrancar. Eu lembro-me sempre de uma coisa que foi terrível para mim, em termos de sentimento de responsabilidade. Quando a Ana Cristina veio fazer o “Tudo Isto é Fado”, estava num processo relativamente avançado dum casting, em que tinha entrado numa selecção final, e estava à espera de uma decisão em relação a isso. Mesmo assim, teve a coragem de avançar e vir fazer o filme. E estávamos a meio das rodagens do filme, e um dia chega desesperada porque teria de ir aos Estados Unidos fazer a parte final do casting e não podia porque estava a fazer o filme connosco. É absolutamente terrível. Perdeu aquela ocasião por causa deste filme que já estava a fazer, mas pronto… é assim a profissão, não é?

Mas valeu a pena… ?

ACO – Claro! Nunca se pode pensar “E se…”. Não se chega a lado nenhum.
LGT
– Não se pode viver no campo das hipóteses…

Nuno Centeio

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