O C7nema teve também oportunidade de falar por breves momentos com o protagonista de “Portugal SA“, Diogo Infante. Como o tempo já era curto, ficaram para outra oportunidade as menções a projectos passados e futuros, e concentrámos o diálogo no personagem do Diogo, o Jacinto, e na temática do filme. Eis Diogo Infante, um dos melhores actores portugueses de volta ao grande ecrã.
Parabéns pela interpretação neste “Portugal SA“. O Jacinto é um personagem que veio de famílias pobres e venceu na vida à custa do seu próprio trabalho. Depois há toda aquela envolvência tutelar da Igreja. Algo macabra…
– Sim, um bocadinho perversa. Mas acho-a pertinente. Aquilo é ficção, obviamente…
Será?
– Pois, exactamente. Será? Isso perguntamos nós.
Mas generalizando a questão, o filme é um retrato do que se passa em Portugal actualmente ou uma metáfora?
– Eu gostava de responder a isso mas não tenho dados suficientes…
Mas qual é a tua opinião? O que é que tu pensas?
– Eu acho que aquilo é um retrato da relação dos homens com o poder, e nesse sentido é uma metáfora. Eu vejo o filme de duas formas. Por um lado nesta relação com o poder, o dinheiro, a ambição. Acho que isso é inerente ao homem e sempre foi, desde a Grécia antiga e da Idade Média. Sempre que os homens desejavam o poder e o conseguiam tinham depois dificuldade em abdicar dele. E faziam tudo para lá chegar. Houve sempre pessoas dispostas a isso. A grande generalidade das pessoas não só não está disposta a isso como nem sequer têm acesso a isso. Mas há um grupo restrito de pessoas que vive de facto disto.
Mas o teu personagem luta para chegar lá…
– Claro que sim. Porque é brilhante, bom e inteligente. A classe política está cheia de pessoas que lutaram e provavelmente sentiram a vocação e o apelo para esta. Mas simultaneamente também há um retrato de uma mentalidade e uma filosofia de vida que se enquadra em Portugal nos dias de hoje, como se enquadra em qualquer sociedade contemporânea.
Então estaremos perante o facto de este filme ser a primeira vez (ou uma das) no cinema português que se retrata esse lado mais obscuro e de bastidores?
– Uma das coisas que me seduziu foi exactamente este olhar para nós próprios, desta nossa actualidade, da qual muitas vezes nos demitimos ou não queremos pensar muito. Mas todos nós intuimos, para além das entrevistas que lemos e das que ouvimos nos telejornais, há todo um jogo de poderes e de interesses que nos ultrapassam, de acordos ou lobbys.
Lembro-me uma vez de um político dizer “sim, nós na Assembleia discutimos mas depois vamos à tasca comer todos juntos”. Obviamente, não é?
Claro. Afinal são colegas de profissão.
– Exactamente, é uma profissão. Depois há é ética, valores, e saber até onde é que essas pessoas estão dispostas a ir para alcançar os seus objectivos. O Jacinto luta contra si próprio durante um período…
Depois entra o personagem da mãe…
– Exacto. Eu acho que é ela que despoleta tudo o resto…
Que acaba por ser também algo negro, não? Afinal ele vai entrar no mesmo caminho que todos os outros.
– Sem dúvida. Ele segue. Ele não é melhor que os outros. Ele simplesmente resiste mais à idéia ou é mais consciente, até um determinado ponto. Ele tem receio até per ante si próprio de admitir aquilo que quer porque sente culpa. Mas quando às tantas se sente dividido e percebe que não pode ganhar nem há maneira de sair acaba por soçobrar. “Do mal o menos, ao menos penso em mim”. Acho que é um pouco um instinto de sobrevivência que prevalece. Portanto, se tem que privilegiar alguém, e isto significa “poder”, então “privilegio-me a mim próprio”. Gosto particularmente do twist, da forma como ele resolve o assunto. Acho interessante a idéia de ser leal ao amigo ou ao patrão, e de servir os interesses dele próprio. Depois a mãe é que lhe dá a chave com aquela sabedoria popular.
Achas que o facto de ser um personagem que vem de uma classe social inferior torna-o alguém que qualquer português dessas classes ambicionaria ser?
– Nós temos uma imagem tão negativa dos políticos…
Mas tu não és um político [no filme]. És um administrador…
– Sim, mas vai chegar a político. Há uma imagem que não é muito abonatória deste universo da política e alta finança. Não acredito que seja um sonho para a generalidade das pessoas. Acho que é sonho as pessoas terem dinheiro e poder de decisão. Mas há pessoas como eles, os representados no filme, que quase são “formatadas” para alcançar aqueles objectivos. E esses objetivos não servem a si próprios nem às pessoas. São maiores, dentro de lógicas estratégicas, de partidos, ideologias, igreja, o que for. E tem tudo a ver sempre com o poder versus dinheiro, forçosamente.
O Jacinto é um trabalho mais teu, dos guionistas, do Ruy Guerra?
– É um trabalho de todos nós. Para este personagem o mote estava dado no guião e depois tive algumas conversas com o resto da equipa.
Mas não baseaste a tua interpretação em alguém conhecido?
– Não. Mas passei muitas horas a ouvi-los falar (risos). Foi para tentar apanhar uma certa cadência, uma maneira de respirar e de lançar as frases. Acho que eles falam de uma maneira muito especial. Primeiro para não mostrarem fraquezas, depois para ganharem tempo para pensar no que é que vão dizer a seguir.
É quase um diálogo televisivo.
– É. Eles são exímios em não deixar transparecer aquilo que realmente pensam, mas sim aquilo que querem que os outros pensem. Isso deu-me algum gozo. Depois foi, sobretudo a partir do texto, na minha relação com o Ruy. Fomos orientando o personagem no sentido que nos parecia mais interessante sem o tornar demasiado óbvio. Há uma premissa no filme que é vagamente aflorada mas que me deu algum gozo. Foi uma combinação que eu fiz com o Ruy: o Jacinto várias vezes tentar fumar e nunca fuma, a não ser no final. O que eu disse ao Ruy foi, “o que é que tu achas de o Jacinto estar a tentar deixar de fumar? Suponhamos que quando acompanhamos a história ele decidiu deixar de fumar. E portanto, cada vez que alguém lhe oferece um cigarro ou ele pega num, acaba por não fumar.”
O que é que isto pressupõe? Uma alteração no estado mental dele ao longo do filme.
Entrevista realizada por Nuno Centeio

