Entrevista a Tino Navarro – ‘Portugal S.A.’

(Fotos: Divulgação)

O produtor de “Portugal SA” é Tino Navarro, conhecido no país por êxitos tão diversos como “Tentação” ou “Inferno”. O C7nema falou com ele sobre esta nova produção, o estado do país, do nosso cinema, e ainda houve tempo para os projectos que se seguem ao longo do ano 2004. Sem dúvida, o ano de Tino Navarro.

“Portugal SA” ajusta-se aos tempos que vivemos em Portugal?

– Absolutamente. Aliás, não podia estar mais actual, apesar de ter sido escrito há mais de três anos [baseado numa história original de Carlos Vale Ferraz, o mesmo de “Os Imortais”]. Portugal, infelizmente, no meu ponto de vista, continua a ser um país onde tudo está à venda e tudo se pode comprar. Depende do preço, como aconteceu ainda recentemente…

Mas acha que é uma metáfora ou um retrato mesmo?

– Acho que é um retrato mesmo. Infelizmente é um retrato do país que temos. No fundo é dizer às pessoas assim: “será este o país que nós queremos ter? Este é o verdadeiro país…”, ou seja, tirando-se as maquilhagens todas, a realidade até ao nível dos nossos dirigentes, quer políticos quer económicos quer sociais, é esta. E será que é este o país que nós queremos ou não? No fundo é isso que o filme procura dizer. Apesar de continuar a falar de pessoas, dos seus amores, das suas traições, das suas vidas pessoais. Mas por trás daquela representação que estas pessoas fazem para o público e os órgãos de comunicação social, ou nas festas, no parlamento, na vida pública em geral… como é que eles se movem nos bastidores ?

De todos esses aspectos negros que referiu houve um que me despertou a atenção: o personagem do padre Francisco [o actor Luis Mascarenhas]…

– A Igreja continua a ter uma forte influência em Portugal…

Mas acha que a Igreja vai aceitar bem esta personificação?

– Confesso que uma coisa que não me preocupa é saber a reacção dessas pessoas. A mim preocupa-me mais saber a reacção dos portugueses e em particular dos espectadores de cinema do que propriamente de instituições (é claro que há que respeitar, evidentemente). Apesar de não ser religioso estou à vontade, concretamente em relação a esses temas.
A Igreja Católica continua a ter uma força poderosíssima por trás da sociedade portuguesa em vários aspectos. Não só naquele que diz respeito à religião propriamente dita, à liberdade religiosa que é algo que está estabelecido no nosso país (e muito bem), mas também sobre o ponto de vista social, económico e político. Continua a haver essa forte influência que se estabelece, curiosamente, nos bastidores e influencia a maneira como nós vamos viver. Esse aspecto na minha opinião não é aceitável…

Mesmo com a recente revisão da Concordata?

– Mesmo com a revisão da Concordata. Aliás, no meu ponto de vista essa foi uma pseudo-revisão. Nada mudou. Independentemente de 90% (ou 95% ou 99%) dos portugueses poderem ser católicos, há aqueles que não são, que professam outras religiões ou não professam nenhuma. Eu sou de facto partidário de uma separação efectiva da Igreja e do Estado.

Um Estado laico…

– Exactamente! Absolutamente laico! Sem priveligiar nenhuma das religiões, independentemente do peso que estas possam ter sob o ponto de vista social. (…)
Portanto, não estou nada preocupado com a reacção da Igreja Católica. Mas que corresponde a uma realidade efectiva e não fruto de ficção, isso sem dúvida.

Agora faço-lhe uma pequena provocação. O Tino Navarro, no meu entender, é actualmente o nosso Jer ry Bruchkeimer do cinema português. Ou seja, as grandes produções nacionais que venceram mesmo nas bilheteiras são suas. Concorda com esta minha leitura?

– O que eu procuro fazer é filmes para os portugueses e para os espectadores portugueses. A minha preocupação fundamental é reflectir: vendem-se em Portugal cerca de 20 milhões de bilhetes de cinema por ano…

Quanto custa fazer um filme em Portugal? Por exemplo este “Portugal SA”?

– Custa bastante. Eu pessoalmente tenho uma bitola. Um filme meu custa entre um milhão a um milhão e meio de euros. Acho que para custear mais de um milhão e meio de euros num filme, tendo em conta a dimensão do nosso país, era preciso que fosse um projecto muito especial que justificasse pela sua dimensão esse investimento. Nós temos um mercado reduzido e temos que trabalhar de acordo com esse mercado. De facto a minha preocupação fundamental é os espectadores, as pessoas que vão às salas de cinema, que compram DVD’s ou cassetes VHS e AS que vêem cinema na televisão. Eu quero falar para eles. Quero falar do país onde eles vivem. Quero falar das pessoas que vivem cá, dos problemas que temos, da maneira como nos relacionamos, emocionamos, amamos, odiamos ou traímos. Como é óbvio, com alguma preocupação, tenho de ter alguma eficácia nesse tipo de comunicação entre eu próprio, produtor de cinema, e os espectadores. Felizmente tenho tido bons resultados em geral.

Voltando ao “Portugal SA”, uma curiosidade que achei bastante engraçada passa-se na última cena do filme, quando o personagem interpretado pela Cristina Câmara desliza para debaixo da cama uma carta do Banco de Portugal. Dada a analogia feita ao longo da história entre a pirâmide do poder e a faca, arma necessária para chegar ao topo, recordei-me de imediato da cena final de “Instinto Fatal”. É propositado?

– Não. Quem realizou foi o Ruy Guerra e toda essa encenação é dele. Confesso que nem sei se ele alguma vez viu o “Instinto Fatal”. Mas aquilo está ali por uma razão muito simples. Está a dizer-nos que naquele momento o interesse daqueles dois personagens é comum, estão unidos. Mas nada significa que NO futuro não possa novamente o interesse individual de um deles sobrepôr-se ao interesse comum e voltarem a trair-se, como fizeram antecipadamente.

É um estado de contínua desconfiança na natureza humana. Uma idéia muito dos conservadores…

– Não. O problema é que aquele grupo de personagens são pessoas que não têm moral, ideologias ou princípios. Têm somente interesses. Portanto, tudo aquilo que fazem na vida está subjugado ao interesse, mesmo AS opções individuais e privadas. A relação entre a Fátima Resende [Cristina Câmara] e o Jacinto [Diogo Infante] é o grande amor da vida deles, proveniente da adolescência, daqueles que marcam. Mas isso não obsta a que eles se separem, porque ela é rica e ele é pobre. Isso não obsta a que ela procure utilizá-lo e que ele tenha uma relação com ela, traindo a mulher. Isso não obsta a que ela se CASE com o Boaventura [Henrique Viana]. Portanto, não vai obstar a que eles tenham interesses próprios. O Jacinto é uma pessoa que está determinada a ser ministro e ser importante neste país. Tem uma ambição.

Mas esses interesses definem-se pelas suas classes sociais? Afinal o Jacinto vem de uma família pobre…

– Nem tanto… o Jacinto está a construir o seu poderio. Aliás, é isso que lhe diz a mãe: “deixares de servir os outros e passares a servir-te a ti próprio”. Isso é que faz a grande mudança NO futuro dele. O Jacinto inicialmente está preso entre a lealdade ao patrão e a lealdade ao amigo. Mas pouco a pouco percebe que está “a ser chutado” e utilizado. E percebe que o amigo, que é ministro, quando não necessita dele deixa de o utilizar. Assim como o patrão, que se desenvencilhará dele se não precisar mais do Jacinto. Portanto, ele acaba por perceber que tem de ter a sua própria agenda, colocando finalmente o seu próprio interesse acima de todos. Por isso é que ele orquestra o escândalo de maneira a que ele saia por cima, digno e com verticalidade, que cumpre a palavra e denuncia, de modo a poder ser ministro a seguir. E o Jacinto não vai parar ali…

Faço-lhe outra provocação. Como referiu o interesse nos espectadores, inclusivé os que adquirem VHS e DVD, não podia deixar de lhe colocar uma questão ligada ao meio em que se move o site c7nema, a internet.
Se visse na internet um dos seus filmes a circular em divx que reacção lhe suscitaria?

– Uma coisa é a pirataria que é ilegal. Nenhum produtor pode fazer um investimento seja de que valor FOR se não o procurar recuperar. Depois não pode continuar a existir NO mercado para fazer outros filmes. A pirataria é hoje um dos grandes dramas da produção cinematográfica como é na música. Isso pode ser fatal para o cinema como pode ser fatal para a música. Ou seja, nós podemos chegar ao dia de amanhã e não temos filmes nem música, a não ser coisas amadoras ou que AS pessoas fazem em casa, o que não é o caso deste tipo de filmes.
No entanto, eu acho que a internet vai ser o futuro e de facto um grande meio de divulgação e consumo de filmes. Como já aconteceu na música, também vai acontecer nos filmes. É necessário encontrar uma maneira equilibrada que responda à necessidade dos consumidores, seja pela internet ou por outro meio qualquer, e também um investimento por parte de quem produz os filmes de maneira a que esta máquina possa continuar a rolar, não sendo cortada abruptamente. De resto, a quantas mais pessoas eu conseguir chegar melhor.

Essa conclusão leva-me à próxima pergunta. “Portugal SA” tem um belíssimo site de promoção ao filme, até com domínio próprio. É coisa rara em Portugal…

– Eu tenho feito isso noutros filmes. É importante porque hoje a internet é um meio de divulgação e de conhecimento fundamental na vida das pessoas. Eu próprio uso a internet com muita regularidade, todos os dias e várias vezes ao dia. Portanto sinto esse meio a crescer e a sua importância. O site foi feito por uma pessoa que tem trabalhado nos Estados Unidos, com boas qualidades de programação e organização de sites…

Mas a ideia foi sua?

– Não a concepção. Essa foi discutida comigo e tendo várias propostas optei. Acho que é importante dar uma série de informações sobre o filme e ter uma série de materiais para que AS pessoas possam sentir-se de alguma maneira recompensadas com a busca que fazem e com a utilização da internet. Mas a idéia sim. Todos os meus filmes vão continuar a ter um site próprio, com domínio próprio, ao longo de pelo menos um ou dois anos de vida, para que AS pessoas possam conhecer o filme em questão e obter informações.

Falemos do futuro. Depois de “Portugal SA” que projectos já tem programados?

– Tenho um filme que está neste momento a terminar o processo de montagem, “Um Tiro NO Escuro” do Leonel Vieira, que estreará também em 2004, em princípio em Abril.
Por outro lado, vou começar a filmar “Até Amanhã, Camaradas”, que é um projecto do Joaquim Leitão que ele próprio vai realizar, e estará pronto em Setembro ou Outubro. São quatro meses de filmagens, está previsto filmarmos até Abril.

É uma produção ambiciosa…

– Muito ambiciosa, sim.

Diria até que é quase cinema dentro de televisão [trata-se de uma série que será emitida NO final de 2004 pela SIC]…

– E é cinema. É mesmo cinema porque vai ser filmado em película. A única coisa diferente é que vai ser dividido em seis episódios de cinquenta minutos, porque quer sobre o ponto de vista da matriz original (que é película), quer sobre o ponto de vista do realizador, equipa técnica e dos meios de produção envolvidos (incluindo actores), este é um filme, só que maior que os outros.

Vai ter um elenco gigantesco.

– Exactamente. são 136 personagens, 136 actores, para além de milhares de figurantes.

Quase me arrisco a dizer que é todo o nosso universo de actores em Portugal.

– (risos) Praticamente. como é evidente este tipo de projectos, com esta dimensão em termos de actores, também servem para muita gente ter uma oportunidade, e ainda bem que assim é. Nos filmes que têm só 15 ou 20 papéis, AS pessoas têm a tendência a escolher actores que já são conhecidos e não se criam oportunidades. A dimensão de “Até Amanhã, Camaradas” permite que muita gente nova, por vezes pela primeira vez, tenham uma chance de fazer um papel.

Foi fácil convencer Álvaro Cunhal?

– Não foi difícil. Já há muitos anos que eu tinha vontade de adaptar o “Até Amanhã, Camaradas” para televisão ou cinema. Faltava-me era uma idéia clara sobre o que pretendia mesmo. Aqui há uns anos, depois de ter tomado conhecimento que o dr. Álvaro Cunhal era o autor do livro [assinado com pseudónimo], escrevi-lhe uma carta a reafirmar que estava interessado em adaptar o “Até Amanhã, Camaradas” (para cinema ou televisão) e queria saber se ele estava disposto a ceder-me os direitos. Recebi um telefonema, encontrámo-nos, conversámos bastante sobre a adaptação, e nessa altura já tinha uma idéia clara que a dimensão e a complexidade do romance, o número de personagens e o número de acções que há, levava a que se eu fizesse um filme, ainda que fosse de duas horas e meia (que era o que o dr. Cunhal queria), teria que amputar muitas acções e muitos personagens. Primeiro tive de convencê-lo que o formato ideal era este [seis episódios de cinquenta minutos], até para preservar a identidade da obra. Só assim poderia respeitar integralmente o livro. Depois há também AS razões financeiras. com uma série de seis episódios consigo financiar a obra, apesar do esforço ser significativo (quer pela parte da SIC que pela parte da MGN). Ele depois não acreditava que houvesse algum canal disposto a financiar. Mas cá estamos…

Por falar em financiamento, acha que o cinema português está muito dependente dos subsídios do Estado? Devíamos “privatizar” mais o sector?

– Não. O problema do nosso cinema é que o mercado é muito pequeno. Neste momento, não tenhamos ilusões, constata-se que o cinema americano viaja, mas o resto do cinema é nacional. O cinema francês não viaja (a não ser um ou outro título, como é evidente), o cinema alemão não viaja…

Viaja pelos festivais…

– Mas isso não tem uma base económica, ou seja, não há efeito imediato na produção dos próprios filmes, e é preciso dinheiro para os fazer. Os filmes são muito caros e nós estamos num mercado pequeno, por isso não deixa de ser importante os subsídios, tal como existem para outras actividades económicas (a agricultura, a indústria, etc.). Por exemplo, a fábrica com maior sucesso em Portugal [a Autoeuropa] teve um forte investimento público. Foram pelo menos 150 milhões de contos logo à partida. Se me dessem 150 milhões de contos, confesso que faria muitos filmes e bem interessantes. Mas também é interessante que os filmes tenham receitas. É importante que os fi lmes sejam vist os. É importante que os portugueses em geral, NO nosso país, vejam os filmes cá feitos. E para isso é preciso que os próprios filmes estabeleçam um diálogo com os portugueses, além de coisas que tenham a ver com Portugal.

Acha que também há espaço para o cinema de autor?

– Há. Não pode é ser maioritário. Esse é que é o problema em Portugal, confunde-se tudo. Aquilo que devia estar nas margens, que são experiências que podem ser interessantes, autorais, sejam de quem FOR, devia ter uma comissão excepcional. Não é. É maioritário. Isso é que é um erro dramático que o cinema português tem pago muito. Fora isso, acho que há lugar para todas AS formas de expressão cinematográficas. Eu próprio tenho-me batido muito por isso. Mas tem que haver um equilíbrio. O que não pode haver são dez filmes que fazem quinhentos espectadores e um que, de vez em quando, faz um bocadinho melhor. Aí os próprios portugueses reagem mal. Apesar de tudo, há muito dinheiro público envolvido e é preciso respeitar AS pessoas.

Para terminar, “Portugal SA” vai ser um dos (senão ‘o’) “blockbuster” nacional NO próximo ano?

– Não sei. Eu tenho sempre algumas dúvidas relativamente à maneira como os filmes funcionam, porque às vezes não dependem só de si.

Mas acha que a conjuntura actual do país não despertará mais a curiosiodade dos portugueses em ver o filme?

– Se fosse em Espanha acho que sim. Em Portugal confunde-se muito crítica com promoção de filmes, que são duas coisas completamente diferentes. Eu não me preocupo com AS críticas. Acho que AS pessoas têm todo o direito de criticar, inclusivamente em público. Por isso nunca me incomodou nada que digam muito mal dos meus filmes ou digam muito bem. Esse é um direito inerente às pessoas. O problema é que em Portugal muitos órgãos de comunicação social confundem crítica com promoção. Enquanto em Espanha um filme é promovido por ser espanhol e está “a combater” com os americanos, ou seja, é dado a conhecer ao público. Isto sem qualquer tipo de valoração sob o ponto de vista de crítica. Aqui não. Quando os críticos não gostam, por vezes os próprios jornais nem falam do filme, como se este nem existisse. É um absurdo num país que produz dez a quinze filmes por ano. Como é que é possível fazer de conta que o filme não existe?? Não! O filme existe. É bom que ele fosse promovido, que dissessem às pessoas, “podem ir vê-lo, está nas salas”, e depois até ter ao lado uma crítica a dizer, “eu pessoalmente vi o filme e acho que ele é uma merda!”. Tudo bem! Não há problema nenhum. Mas acho que AS pessoas confundem e fazem este tipo de boicote, seja ele deliberado ou não. Não gostam do filme, é como se ele nem existisse.

Comparativamente, é a mesma coisa que na página de política de um jornal os redactores não gostarem de um partido e calarem aquilo que esse partido faz. Não pode ser! E depois há aqui uma coisa que me parece absurda. Imaginando novamente as páginas de política de um jornal, é como se a primeira página e mais três ou quatro de abertura fossem sobre o MRPP e depois tivessem uma LOCAL, pequena, sobre o PSD, o PS, o PCP, o CDS ou o Bloco de Esquerda. É assim que fazem NO cinema. Filmes que têm quinhentos espectadores conseguem três, quatro, cinco páginas. Filmes que fazem muitos espectadores não têm, só porque fazem esses espectadores, o que é um absurdo.

Parece que há um certo elistismo instituído…

– Muito. E um preconceito contra o cinema popular.

Entrevista realizada por Nuno Centeio

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