Entrevista a Carlos Atanes – ‘FAQ’

(Fotos: Divulgação)

Paris, França. Um próximo e provável futuro. A outrora cidade do Amor está rodeada pelo deserto e a natureza mudou seriamente. A Irmandade do Metacontrol, totalmente controlada por mulheres, governa a Europa. Todo o contacto físico entre seres humanos é proibido por questões de higiene. Mensagens a desencorajar o sexo são difundidas por todo o lado. Uma exemplar e irrepreensível cidadã, Angeline, acaba de entrar para a Ordem. Contudo, a relação de Angeline com um homem especial, Nono, vai fazê-la questionar profundamente os princípios da doutrina. Nono passa parte do seu tempo no ciberespaço a ver imagens de uma sensualidade e sexualidade inimagináveis para o tempo em que vive.”

Este é o princípio de FAQ, um filme realizado por Carlos Atanes que concorreu à Seleção Oficial de Cinema Fantástico do Fantasporto.

O que é FAQ e porque escolheu esse nome para o filme?
FAQ é um filme de ficção científica à moda antiga, mas que aborda questões atuais. Um dos meus cineastas preferidos (não me recordo qual) dizia que o cinema deve criar perguntas, mas não dar respostas. FAQ é um acrónimo de Frequently Asked Questions (perguntas mais frequentes). Nesse sentido, o filme é um conjunto de perguntas estratificadas para as quais o espectador terá de encontrar respostas — e elas são inúmeras, quase infinitas.

No que toca ao argumento, enquanto drama distópico, talvez a questão essencial seja: a antiutopia é a antítese da utopia ou apenas a sua aplicação?

Do ponto de vista semiótico, enquanto obra de ficção científica, a questão pode ser: a ficção científica é apenas um género de evasão, prisioneiro da imaginação e dos efeitos especiais, ou um género de ideias?

E do ponto de vista “industrial”, sendo FAQ uma película ultra-independente, coloca-se outra questão: é insensato tentar produzir, distribuir e exibir uma longa-metragem digital, sem qualquer apoio empresarial ou institucional, sem concessões comerciais, num género praticamente inexistente no país de origem?

Como surgiu a ideia para desenvolver este filme e que obras o influenciaram?
Levo 20 anos a realizar curtas, quase todas enquadradas no género fantástico, e 30 anos a ler e a ver ficção científica. Suponho que FAQ era inevitável, até previsível. Por outro lado, sou facilmente indignado pela forma como a realidade é interpretada por jornalistas, comentadores, psicólogos, intelectuais, políticos ou pedagogos.

FAQ é uma alegoria carregada de crítica nascida dessa irritação. As influências são claras: o cinema de ficção científica dos anos 70 e a literatura distópica.

A utopia negativa e o totalitarismo são frequentemente abordados no cinema. Muitos dizem que estas obras funcionam como alerta. FAQ também é político nesse sentido?
Creio que não. Se fosse inspirado em medos comuns, trataria de choque de civilizações, gripe das aves ou guerra bacteriológica. Há alusões a temas partilhados, como a desertificação ou a ingerência totalitária nas liberdades, mas são apenas cenário.

A mensagem antiutópica de FAQ é outra: denuncia a marginalização do instinto humano e a cruzada contra a nossa natureza animal, que leva à desumanização. É, profundamente, um filme politicamente incorreto. As distopias mais interessantes não denunciam o óbvio, mas sim as ameaças ocultas — como Orwell fez em 1984, ao apontar o estalinismo e não o nazismo, já amplamente denunciado.

Como é a vida de um cineasta na Catalunha? E como vê a evolução do cinema fantástico em Espanha?
Não me considero um cineasta catalão. Nasci e vivo aqui, mas poderia fazer filmes em qualquer lugar. Gostaria de contribuir para a riqueza cultural da Catalunha, mas irei onde me apoiarem. Se me produzirem um filme em Portugal, amanhã faço cinema português.

Sem a Internet, os festivais internacionais e a facilidade de distribuir DVDs, FAQ teria ficado enterrado na miséria. Hoje, quem faz cinema digital independente em Espanha quase não tem existência “oficial”.

Na Catalunha, sofremos décadas de nacionalização ideológica da cultura por organismos públicos. Espero que mude, mas tenho pouca fé. Continuo com vontade de trabalhar sem ingerências.

Quanto ao futuro do cinema, passa pela aceitação de novas formas de produção e pela “desterritorialização”. A globalização traz problemas, mas também oportunidades.

O cinema fantástico espanhol renasceu das cinzas, embora quase sempre restrito ao terror. A ficção científica continua rara. Ainda assim, há talento. Autores como Álex de la Iglesia e Jaume Balagueró têm trabalhos comparáveis a bons cineastas americanos ou japoneses. O importante agora é não estagnar em clichés e apresentar propostas novas. Vejo alguma tendência perigosa para redundância e umbiguismo, mas mantenho-me otimista.

E depois de FAQ? Há algum novo projeto?
Sim, a minha próxima longa chama-se Próxima. Também é ficção científica, mas não distópica — explorará novos territórios. Será igualmente ultra-independente, mas mais ambiciosa e dispendiosa do que FAQ. Acredito que ficará pronta no final do ano.

Seguirei esta linha. É o cinema que gosto de ver e de fazer. Além disso, sinto quase como um dever moral: alguém tem de impulsionar a ficção científica neste país.

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