Entrevista a Jaume Balagueró – ‘Frágiles’

(Fotos: Divulgação)

Sábado, 4 de março, Fragiles encerrou o Fantasporto. Presente no Porto, o realizador Jaume Balagueró teve um tempinho para conversar sobre o seu filme, Calista Flockhart, propostas de Hollywood e até para lembrar aos jovens realizadores portugueses que está nas suas mãos a evolução da nossa cinematografia.

De onde veio esta paixão pelo cinema de terror e, em especial, pelo medo envolvendo crianças?
Não sei de onde vem o meu gosto pelo cinema de terror e fantástico. Desde pequeno que gosto dessas coisas, desse género. Mas de onde vem, não sei. Provavelmente é algo com que nasci, uma inquietação pela fantasia, ficção científica e terror. É verdade que nos meus filmes aparecem sempre crianças, mas não se trata de um gosto especial ou de algo propositado. Quando escrevo uma história, simplesmente surgem crianças pelo meio.

Em que é que Fragiles é diferente de Los Sin Nombre e Darkness?
Penso que, sendo um filme de terror, é uma história de fantasmas muito clássica e mais emocional que as outras que tinha feito. É um filme que fala sobre emoções. A história pode ser terrorífica e obscura, mas está sempre baseada nas emoções e no que as personagens sentem. No final de contas, acaba por ser tanto um filme de terror como algo distinto, que os espectadores descobrirão.

Acaba por ser um filme mais completo?
Sim, penso que sim.

Quais são os filmes que mais o inspiraram e influenciam o seu trabalho?
É difícil responder, pois gosto de todo o tipo de filmes. Filmes que não são de terror também me influenciaram. Por exemplo, Paris, Texas ou trabalhos de Spielberg, James Cameron, David Lynch e David Cronenberg. Dos clássicos do terror que me marcaram: Rosemary’s Baby, The Shining, The Others – um filme dos anos 70 de Robert Mulligan que não é muito conhecido. Mais recentemente, Hellraiser, de Clive Barker, marcou-me bastante.

Foi difícil, depois de filmar o documentário da Operación Triunfo, voltar ao cinema com Fragiles?
Não, porque nunca senti uma pausa. Quando acabei Darkness, fui diretamente trabalhar em Operación Triunfo. Logo de seguida voltei ao cinema.

O que é mais difícil, rodar para cinema ou para televisão?
No caso de Operación Triunfo, apesar de ter como base um evento televisivo, tratava-se mais de um documentário. Em Espanha até estreou em salas. A abordagem foi muito cinematográfica. A diferença que senti foi mais entre ficção e documentário. No fundo, esse trabalho foi apenas um parêntese na minha carreira de realizador de ficção, uma diversão.

A escolha de Calista Flockhart para protagonista de Fragiles veio da necessidade de dar maior dramatismo ao filme?
Claro. A personagem é muito complexa, cheia de segredos que se vão descobrindo pouco a pouco, e precisava de uma atriz muito dramática. Apesar de ser mais conhecida por Ally McBeal, Calista é uma atriz intensa e dramática. Eu sabia disso e quis fazer o filme com ela.

Para muitos fãs, a escolha de Calista Flockhart foi uma surpresa…
Em Darkness trabalhei com atores de grande nível como Lena Olin e Giancarlo Giannini. Calista está ao nível deles. Escolhemos atores porque o papel nos leva até eles. Quando escrevi Fragiles, Calista surgiu-me como a melhor opção. Não houve qualquer estratégia de mercado – ela não é a escolha mais “vendável” para um filme deste género, mas era a melhor para este papel.

Foi difícil convencê-la a entrar num filme espanhol?
Não muito, porque ela gostou muito do argumento. Convencer um ator depende do realizador, da produtora e do que o filme promete. Se Fragiles fosse um filme americano com o mesmo guião, acredito que ela teria entrado na mesma. Os atores deixam-se levar pela personagem e pela história. Se a história lhes agrada, não importa tanto quem a faz ou onde é filmada.

É visto como um dos realizadores que mais contribuíram para a internacionalização do cinema espanhol. Qual acha que é o segredo desse sucesso?
Tenho uma mentalidade aberta e uma visão internacional do cinema. Gosto muito do cinema norte-americano, tanto quanto do europeu ou do independente. Muitos autores espanhóis criticam Hollywood como se fosse algo mau. Eu não. Gosto de cinema americano e faço parte do seu público, tal como sou espectador de Wim Wenders e de James Cameron. Talvez essa visão ampla tenha sido o segredo para chegar ao público mais jovem, que também vê cinema de forma aberta.

Gostaria de realizar em Hollywood, mesmo sem controlo total sobre a história?
Sim, se gostar muito do argumento e do filme que me propuserem. Mas, até agora, as propostas não me agradaram.

Pode revelar algum exemplo?
Propuseram-me Constantine e falaram-me de Taking Lives. Nenhum dos dois me apelou.

Que impressão tem do Fantasporto?
Cheguei ontem e ainda não tive oportunidade de ver filmes. Mas considero-me amigo do Fantasporto e de Mário Dorminsky. Já vim três vezes e sempre me senti muito bem-vindo. Só posso dizer coisas boas do festival.

Estes festivais, como Sitges e Fantasporto, ajudaram a popularizar o cinema de terror?
Acredito que quem mudou isso foi o público. Hoje, toda a gente quer ver filmes de medo. Já não é um género restrito a aficionados. Existem filmes de terror que são grandes êxitos, número 1 no box office. Um exemplo: Hostel foi número 1 nos EUA. Há uns anos isso seria impensável.

Que opinião tem sobre o cinema português?
Conheço muito pouco. Manoel de Oliveira e pouco mais.

Muitos dizem que falta ao cinema português o salto que Espanha deu há anos. Concorda?
Acredito que isso está nas mãos dos jovens realizadores. Eles precisam de ter gosto por um cinema mais comercial, mais virado para o público, e começar a fazer filmes que agradem aos jovens portugueses, para que possam ser levados a Espanha e ao resto do mundo.

A internet teve um papel importante na afirmação do cinema fantástico e na promoção de filmes com menos dinheiro?
Sim, teve um papel muito importante. É um meio de comunicação enorme que ainda está longe de ser explorado no seu potencial máximo. É algo a ter muito em conta no futuro, pelo crescimento que tem tido.

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