Apesar de ter uma filmografia de um jovem realizador do género fantástico, David Ellis é um veterano do cinema – um realizador moderno que criou a sua carreira à moda antiga.
Começou como duplo nos anos 70, eventualmente chegou a “realizador de segunda unidade” em produções como Patriot Games e Forever Young. Só aos 51 anos chegou a realizador de uma produção de Hollywood com Final Destination 2. Depois disso, tem vindo a realizar sempre, e sempre na área do thriller e do terror: Cellular e agora Snakes on a Plane.
Snakes… surgiu como um filme cómico com um pitoresco Samuel L. Jackson, num conceito tão estranho como serpentes num avião. Foram feitos trailers falsos e criados tantos rumores que os produtores filmaram novas cenas para irem de encontro a tais expectativas.
O realizador, oriundo da Califórnia, com um currículo cheio de thrillers e de terror, revelou ambicionar ser realizador de ação, género onde trabalhou dezenas de anos como duplo e realizador de segunda unidade.
O C7nema falou com ele, ficando aqui mais alguns detalhes sobre Serpentes a Bordo:
Devido ao título e à propaganda feita na Internet, existe uma grande dúvida – o que devemos esperar de Snakes on a Plane? Sustos ou gargalhadas?
Montes de sustos! É um filme verdadeiramente emocionante e aterrador.
Especulou-se muito sobre Snakes on a Plane na Internet, por causa do seu título e de Samuel L. Jackson. Estavam a contar com isso?
Foi uma grande surpresa. Esperávamos ser vistos como um thriller sério – que é o que o filme é de origem. Mas as pessoas viram um conceito diferente e o Samuel, e acharam que se tratava de um filme de diversão. E, na realidade, também o é.
Diz-se que filmaram novas cenas para irem de encontro às expectativas de comédia criadas. Isso é verdade?
Sim. No início queríamos fazer um filme Rated R (maiores de 17 anos), mas o estúdio achou que deveria ser um PG-13 (maiores de 13) para ser acessível a todos os públicos. Mas depois do filme estar pronto, os produtores, quando o viram, acharam que deveríamos voltar ao formato mais adulto: acrescentar linguagem mais provocatória a Samuel L. Jackson, aumentar a violência dos ataques das serpentes e adicionar sexualidade ao filme. Uma das cenas novas envolve um casal que está a fazer sexo na casa de banho do avião e é atacado pelas serpentes.
Fruto da presença de Samuel L. Jackson no filme, tentaram levar a personagem e o filme numa abordagem mais provocatória, num estilo Tarantino?
Sim, é verdade.
Como realizador, como se sentiu ao ver o filme anterior fruto das expectativas do público e da Internet?
Acho que assim tivemos a oportunidade de voltar e tornar o filme em algo mais nas linhas do que o público esperava de um produto destes. Dar aos fãs o que eles esperavam. A realidade é que ia ao encontro de um filme mais violento e provocatório, como tínhamos imaginado, o que foi bom.
A escolha de Samuel L. Jackson foi na esperança de dar uma postura mais sarcástica a Snakes on a Plane?
Não é uma comédia. É um filme sério que tem bastante humor pelo meio. Claro que Samuel L. Jackson traz com ele uma presença muito própria e um “edge” às suas personagens e filmes.
Como foi trabalhar com ele?
Foi fantástico. Ele é muito divertido no set, mas é também muito profissional. Vem sempre extremamente preparado todos os dias e é uma presença de peso não só no filme mas também nas filmagens.
E na vida real ele é tão “cool” como nas personagens que interpreta?
Absolutamente. Mas é acima de tudo uma pessoa muito acessível e generosa com quem trabalha. É um profissional muito correto e muito amigável. Mas é também um tipo muito “cool”.
Final Destination 2, Cellular e agora Snakes on a Plane… porque esta paixão pelo cinema de emoções fortes e de terror?
Vem de duas coisas. Primeiro, e muito importante, vem das oportunidades que surgem, que têm sido sempre nesse sentido. E segundo, é um género de cinema com muitos fãs e que traz muito entretenimento e diversão. Gostaria de fazer outro tipo de filmes, comédias inclusive, mas este tem sido o tipo de filmes que me têm oferecido.
Shakers e Asylum… afinal qual é o próximo filme?
Asylum. Shakers ainda não está pronto a ser feito, o argumento ainda precisa de muitas alterações para ser concretizável. Asylum é um filme de terror mais sério, sobre um grupo de miúdos que vão para uma universidade que outrora era um manicómio. Mas o edifício é assombrado pelo fantasma de um médico. É um filme que os fãs do terror irão gostar: tem imensos sustos e gore.
De todos os filmes da sua carreira, com qual te sentes mais concretizado?
Penso que com Snakes on a Plane. É sem dúvida um filme que funciona bem a todos os níveis que um thriller deve funcionar.
Se houvesse um Snakes on a Train, realizava-o?
(risos) Não sei… Se o Samuel entrasse no filme, sem dúvida.
Não tem medo de ser classificado como realizador de terror e ficar preso nesse género?
Sim, sem dúvida. Mas deixo-me ir pelos projetos que me oferecem, que me têm levado neste sentido. Por isso, depois de Asylum, ando à procura de projetos diferentes. O que interessava fazer agora seria dentro do thriller, algo mais ligado à ação e não ao terror. Já depois de Snakes on a Plane tinha decidido isso, mas quando surgiu a oportunidade de fazer Asylum, decidi agarrá-la. Mas gostaria de fazer um filme de ação com um herói de ação. Esse tipo de filme.
Qual é o seu filme favorito de todos os tempos?
(hesitação) Rear Window de Alfred Hitchcock. É de novo um filme de terror, mas é poderoso a nível psicológico e muito bem realizado.
Não contando com ligações de qualquer tipo, tens algum projeto de sonho?
Claro. Tenho, na realidade, vários. Há um projeto chamado Tag, que é um projeto de ação cheio de energia e entretenimento.
Começaste como duplo e evoluíste pela equipa de filmagens até seres o realizador de um dos filmes deste verão. Este não foi um sucesso da noite para o dia. Esperavas chegar tão longe?
Eu não esperava. Eu adorei cada passo da minha carreira, adorei ser duplo e fazer todas as loucuras que fiz. Durante anos, fui realizador de segunda unidade de cerca de 80 filmes. Geralmente, eu era o responsável por rodar as grandes cenas de ação que envolviam muitos duplos. E agora realizo os meus próprios filmes. Mas gostei de tudo o que fiz, foi muito divertido e é um trabalho fantástico.
Ser realizador era o teu principal objetivo?
Não, isso descobri com a experiência. Como sempre estive em rodagens, apaixonei-me pelo trabalho criativo que o realizador tinha. E a partir daí, persegui essa profissão. Ser realizador de segunda unidade permitiu-me aprender com os melhores antes de me arriscar a ser um.
Qual seria o teu conselho para os jovens realizadores?
Eu diria que fossem atentos a tudo e que nunca desistam. É muito difícil entrar no mundo do cinema. Na maioria dos casos passa por contactos, que eu não tinha. Surgiu-me a oportunidade de ser duplo e, como tinha talento para isso, aproveitei. Existem por aí muitos jovens realizadores com os seus pequenos filmes a tentar exibi-los em festivais, e tenho muito respeito por eles. É muito difícil entrar – mas para os que sonham com isso, nunca devem desistir porque as oportunidades surgem quando menos se espera. Mas temos de nunca deixar de as procurar.
Que pensas sobre a imprensa online?
Penso que é bom. Penso que falam mais diretamente pela voz dos fãs de cinema. Snakes on a Plane ganhou a sua projeção graças à imprensa online. Penso que a media online é por vezes muito dura com certos filmes e é muito especulativa. Mas, no final, é igual a toda a comunicação social. Por vezes gostamos do que eles dizem, por vezes não, e muitas vezes achamos que não são justos.
Qual é para ti o filme do ano?
Snakes on a Plane. (risos) Sem dúvida!
Que pensas do cinema português?
Infelizmente não conheço o cinema português. Gostaria muito, e adoraria ir a Portugal quando surgisse a oportunidade.
Mas o Rio de Janeiro não é em Portugal? (antes da entrevista, David Ellis disse que gostaria de dar uma entrevista ao C7nema e não se importava de vir ao Rio de Janeiro)
Eu sabia que não era. (risos) Disse isso como uma sugestão, por ser um sítio que adorava também conhecer. Eu adoraria ir a Portugal e ao Brasil. E acho que seriam locais estupendos para rodar. O cinema de ação de Hollywood muitas vezes esquece-se de oferecer cenários novos e mundos novos.
(25 de Julho de 2006)

