Entrevista com Stefano Savio, diretor da Festa do Cinema Italiano

(Fotos: Divulgação)

A quantas anda o cinema feito em Itália? País de uma das culturas cinematográficas mais ricas do mundo, a Itália tem estado um pouco à margem no cenário internacional nas últimas décadas – embora uma nova geração de cineastas venha aos poucos reinventando o cinema do país, que atualmente produz cerca de 120 filmes por ano. 

Mais do que apresentar a programação do Festival de Cinema Italiano em Portugal, cuja sexta edição tem início nesta quinta-feira (21/03), a conversa com o Stefano Savio serviu para muito mais: saber o que afinal se passa no seu país atualmente, qual a nova realidade do cinema italiano, em que moldes se orienta sua novíssima e descentralizada produção. Ao mesmo tempo, serviu para falar de clássicos – Fellini, Visconti – e do património de filmes B através do género “irmão” do famoso western spaghetti dos anos 60/70 – o poliziottesco. Pouco conhecido do grande público fora do país – mas muito conhecido de um reciclador inveterado e bem-sucedido como Quentin Tarantino…

Como está atualmente o panorama do cinema italiano?

Em Itália temos o cinema americano “grande” e temos o autóctone, que tem conseguido chegar à distribuição – o ano passado 54% das receitas das bilheteiras do cinema era de cinema italiano. Houve uma comédia estúpida, por exemplo, com protagonistas da televisão italiana, que arrecadou bem mais que o “Avatar”. Em Itália existe uma indústria cinematográfica que tem conseguido veicular os seus produtos no país e sustentar-se. Também existe subsídios, embora normalmente isto dependa de quem está no governo.

Também existe o caso de algumas produtoras que utilizam o sucesso de uma obra para depois produzir filmes mais de autor. A história do cinema italiano foi sempre assim. É o caso do produtor de Fellini que fazia um filme com Totó, ganhava milhões e depois produzia um filme do Fellini. Existe um equilíbrio entre o cinema popular e o cinema de autor.

A Cinecittá ainda existe? Há tempos estreou por cá um filme do Matteo Garrone onde o estúdio era usado para produzir episódios do Big Brother…

Sim, ainda existe, mas hoje mais parece mais um museu. O que por um lado é positivo, pois há uma descentralização maior. Existem entidades regionais que produzem filmes, cada região do país ajuda e apoia a produção de cinema e cria a possibilidade de muitos profissionais saírem de Roma para trabalhar em produções fora do centro. Isto criou uma diversidade cinematográfica interessante, uma riqueza não só do panorama, da paisagem, mas de ideias. Saindo de Roma o cinema italiano perdeu talvez aquela importância internacional, a sua estrutura de estúdios, mas ao mesmo tempo ganhou em variedade e em diversidade – como nos filmes feitos em Nápoles e na Apúlia, uma região relativamente pequena que produz quase metade dos filmes italianos. Turim era nos anos 20 a capital do cinema italiano e também está a voltar.

A nível da programação, quais foram os critérios de seleção? O que pode destacar?

Há semelhança dos anos anteriores, temos uma série competitiva, com sete filmes que são primeiras, segundas ou, no máximo, terceiras obras de um realizador. É um critério que respeitamos quase sempre. São na maioria primeiras obras. Na seleção busca-se uma riqueza temática. Há filmes indies como “Il Futuro”, que estreou no último Festival de Sundance, assim como “Bellas Mariposas”, exibido em Roterdão (janeiro), também muito interessante, e “Io Sono Li”, que ganhou o prémio Lux do parlamento europeu – um filme muito forte sobre o drama da integração. Depois há uma comédia, “I Primi Della Lista”, e mais alguns que representam diversas facetas do cinema italiano. 

Já a mostra Panorama é dedicada a filmes de sucesso de grandes autores italianos, como é o caso do filme de abertura “Romance di Una Strage” e o filme de encerramento “La Migliore Offerta”, o último de Giuseppe Tornatore – que vai ser distribuído em Portugal. O filme de Daniele Cipri,”Il Stato Il Figlio”, que esteve em Veneza, é o primeiro que ele faz sozinho – Cipri formava uma dupla muito conhecida em Itália com Franco Maresco – aliás o ponto mais alto da produção audiovisual italiana… Eles já foram homenageados na Cinemateca, em Lisboa, e no festival de Vila do Conde. Claramente os aspetos do seu cinema estão todos lá. É uma tragicomédia sobre os grandes vícios da sociedade italiana. 

Ainda há “La Leggenda di Kaspar Hauser”, uma experiência cinematográfica inesquecível, e “Tulpa” ([na imagem abaixo], finalmente um grande filme de terror italiano.

Por que decidiram fazer uma mostra de filmes B policiais?

São do género spaghetti western, que começou um pouco antes. A estrutura é a mesma, os realizadores e atores são quase os mesmos e há uma linha de continuidade muito clara. Enquanto os primeiros eram inspirados no western americano, houve um período em que as alterações políticas em Itália levaram o seu cinema a fazer as contas com sua nova realidade, como o terrorismo. Então trocaram-se as vinganças dos cowboys para as da polícia contra os mafiosos – mas a estrutura é igual. Os policiais eram muito populares em Itália e achamos que formavam um género que vale a pena ser conhecido. Acabou por ser a imagem do festival. São filmes “muito B” e “extremamente” violentos. Tarantino, aliás, copiou muito daquele cinema… 

O festival vai exibir dois clássicos… 

“Fellini 8 ½” é um filme não perdeu nada em termos de importância, de fascínio, do poder de um filme. É uma obra que não envelhece, mesmo depois de 50 anos, porque fala através de um sonho, de uma fobia, de uma mania de um realizador com um mundo tão rico, tão complexo, que acaba por ser a representação de um tempo, de uma época. É a representação de uma mente brilhante. É uma obra de grande importância, uma obra linda.

Já “Il Gatopardo” é um filme que envelheceu um pouco mais, mas temos uma cópia recuperada digitalmente pela Cine Foundation, que foi criada para restaurar filmes antigos. Há dois anos foi escolhida “Il Gatopardo” – então temos uma cópia belíssima. 

Qual é a importância de se fazer uma Festa de Cinema Italiano em Portugal?

É importante no sentido de demonstrar a riqueza do cinema italiano atual e o património do cinema italiano passado. São duas realidades, dois elementos que convivem bastante bem no nosso festival. Temos o apoio, a mais-valia de ter uma grande cinematografia passada, ao mesmo tempo que temos de ter abertura para um cinema novo, novos realizadores – que têm obtido resultados interessantes nos festivais internacionais. Temos prova de que nos últimos anos o cinema italiano voltou em força.

Como é que vê a evolução da mostra ao longo destas seis edições em termos de público e da sua própria organização?

A Festa começou como uma aposta muito pequenina, no King, nos primeiros dois anos foi uma pequena aposta. Quando cheguei cá em Portugal verifiquei que havia um grande festival de cinema francês, uma mostra de cinema espanhol, além de outras cinematografias bem representadas em Lisboa. Achei que havia um espaço para o cinema italiano. Depois tivemos sorte, vimos que o público português ficou imediatamente recetivo com a nossa oferta e neste aspeto aumentamos exponencialmente o nosso alcance. 

Na primeira edição tivemos 1800 espetadores, na última tivemos 15 mil – o que demonstra o aumento substancial da nossa capacidade em chegar ao público português. Claro que ajudou também essa ideia de não se fixar só em Lisboa e levar o festival a outras cidades. Já na segunda edição levamos o evento até o Porto e a cada ano aumentávamos uma cidade. Esse ano pela primeira vez estaremos em Loulé. E chegamos também a Luanda, em Angola.

A nossa ideia por trás do festival é também capitalizar o cinema italiano criando pacotes de filmes que possam rodar pelo país o ano inteiro, ter uma incidência forte na arena cinematográfica portuguesa. O cinema italiano é muito simpático, tem uma capacidade popular no sentido bom da palavra, veicula bons conteúdos, bons valores. Constatamos que o público português fica sempre envolvido como as histórias que o nosso cinema conta.

 
 
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