Helen Hunt assume em ‘Seis Sessões’ o papel de terapeuta sexual para tentar concretizar o desejo de Mark O’Brien (John Hawkes), um homem que vive deitado numa marquesa e com a respiração artificial, e que aos 39 anos decide deixar de ser virgem. Um filme baseado numa história real que coloca os dois atores como prováveis candidatos aos Óscares. Falamos em Londres com a atriz vencedora do Óscar em ‘Melhor é Impossível’, há 15 anos atrás. Mas, hoje, prestes a completar 50 anos, demonstra continuar sedutora e… muito sexy.
Poderemos sintetizar que esta foi, sem dúvida, uma experiência forte num regresso em grande forma?
Sim, trata-se de um filme muito belo. Quando li o guião fiquei fascinada. Na verdade, nem sabia o que pensar. Só vi a versão final na estreia mundial no festival de Sundance, nos EUA), diante de 1300 pessoas. Foi um evento incrível, nas partes mais divertidas, as pessoas riam muito, depois noutras ficavam mudas de silêncio. No fundo, eu sabia que os elementos eram certos: os atores eram bons e a história única.
Teve essa mesma percepção quando estava a fazer o filme?
Sim, mas nunca podemos ter a certeza, não é? Fiquei chocada e nervosa de quanto gostava do filme.
Ficou também nervosa quando numa das suas primeiras cenas tira a roupa e fica completamente nua?
Claro que fiquei. Mas estava muito mais interessada em fazer parte desta história do que em ficar nervosa.
No entanto, a sua representação é tão natural que não parece nada estar nervosa.
(em surdina: não acredite nisso, estava mesmo…)
Foi o Ben (Lewin, o realizador) quem a ajudou a adquirir esse à vontade?
Foi o material. O guião diz: “você está muito confortável com o seu corpo”. Então esse é o meu trabalho, parecer que estou vestida, mesmo que não tenha roupa. E acho que a verdadeira Cheryl (Cohen Greene), quem tive a oportunidade de conhecer, também não se sentia sempre confortável com o seu corpo.
Mesmo que o nosso corpo seja algo muito natural… De resto, deixe-me dizer-lhe, a Helen está magnífica. Fez algum trabalho especial para se manter em forma?
Obrigado. Não fiz nada para ficar em forma. Apenas um pouco de ioga e mau surf… Foi esse o meu regime de exercício.
No entanto, percebe-se uma certa aura em seu redor…
Isso pode ter a ver com o facto de ter interpretado uma mulher verdadeira. No passado, interpretei pessoas reais e percebi que é importante conhecê-las. É importante que se sintam fazer parte do processo. De certa forma, acho que temos de fazer a nossa versão delas próprias. Por a ter conhecido recolhi muito material do processo, mas também algo sobre o entusiasmo dela, o seu lado extrovertido, a sua falta de vergonha. Seja sobre o sexo ou outra coisa qualquer. Acho que é essa a aura em redor dela. Talvez tenha sido isso que tentei roubar-lhe.
Diria que o povo americano dificilmente fica à vontade com a nudez?
Sim, claro. Não sei bem porquê…
Mas não com armas na mão…
Não, armas é ótimo! E violência é fantástico. Nudez é terrível… É algo bizarro. Não sei muito bem como é nos outro países.
No seu caso, sentiu que a sua nudez poderia significar um grito de alerta para se encarar o corpo feminino com a outra naturalidade?
Sim, acho que sim. É claro que gostei do papel, mas também queria dizer que escolhi não me preocupar com isso. Com o que as pessoas possam ver ou dizer.
É verdade que não tinha conhecido o John Hawkes até fazer as cenas com ele?
Sim. Nunca o tinha visto. Apenas nos conhecemos para fazer o filme. Nunca ensaiamos e nunca nos encontramos socialmente.
A verdade é que no filme existem cenas de sexo. E vemos o seu corpo, mas nunca o de John, porquê?
É uma pergunta legítima e fizeram-ma também em Sundance. Quase liguei ao realizador durante montagem para lhe perguntar se não deveríamos voltar a filmar a cena e que mostro ao John o corpo dele nu diante de um espelho. No meu caso, estou nua cinco minutos depois de entrar no filme. E, de certa forma, as pessoas depressa se habituam a isso. No entanto, talvez essa surpresa no final, a de mostrar o corpo dele nu, tivesse um significado diferente. Talvez seja imperfeito, mas estará correto nos detalhes deste filme em particular.
Considera este um filme sobre o sexo, a perda da virgindade, ou antes como o sexo poderá abrir uma relação?
Não, acho que é mesmo um filme sobre sexo. É um filme sobre sexo.
Mas no sentido também de que a sexualidade é algo que necessita de alguma orientação, dado que existe a boa sexualidade e a má sexualidade?
Sim, acho que é bem dito. Não fui eu quem o disse, mas está correto. Acho que este filme deveria ser visto por jovens adolescentes, levados pelos pais. Sobretudo para quem acha que há muitos segredos. Acho que permitira que muitas pessoas não se sentissem isoladas em relação a muitas coisas.
O que sabia sobre a vida do Mark O’Brien?
Bom, já tinha visto o documentário, o ‘Breathing Lessons’ (na tradução, Lições de Respiração, vencedor do Óscar de Melhor Curta Metragem Documental em 1997), mas quando li o guião nem sabia que se tratava da mesma pessoa. E nunca tinha ouvido falar em terapeutas sexuais.
Até que ponto foi para si importante participar neste filme?
Foi muito importante. Nessa altura estava às procura de algo que pudesse ser uma escolha acertada. Mas este era um filme nada convencional, arriscado, mas que me fez querer estar envolvida nele.
O que a faz desejar assim um filme?
Eu dou tudo por uma boa história. Neste caso, até tirei a roupa por uma boa história. Seja em televisão ou no cinema. O sexo é algo intemporal e tem aqui um lado luminoso para uma história complexa.
No entanto, não abundam este tipo de papéis arrojados para atrizes…
Acho que não há papéis arriscados para ninguém.
A Helen ganhou um Óscar por uma comédia romântica (em 1998, por ‘Melhor É Impossível’). E está na rota para ganhar algo com este filme que desafia géneros, mas em que o encontro através da exploração sexual é determinante. Como é que se sente nessa expectativa?
Bom, não tendo neste momento sido nomeada para nada, seria desaconselhável fazer qualquer discurso de agradecimento nesta altura (risos)… Ouça, este é um filme pequeno, financiado pelos amigos e família do realizador e produtor. Se viesse a ser nomeada, seria ótimo para todos. Mas também para o público, para atores, produtores. Seria um dia bom…
Quer dizer que ainda não está então a preparar-se para as piadas sobre o filme pelo apresentador Seth McFarlane (autor da animação corrosiva ‘Family Guy’ e ‘American Dad’ e da comédia ‘Ted’)?
(risos) Não, ainda não estou preparada, não.
Trabalha como atriz já há muito tempo. Li algures que começou por ter lições de representação com o seu pai. O que queria perguntar-lhe é até que ponto ainda valem esses conselhos?
Ainda valem. Antes de começar um filme, lembro-me dos seus conselhos e de outros professores que tive. É uma técnica que me serve como uma pasta de ideias. Seja quando não sei como ler um certo diálogo, quando não existe química com o outro ator. Acaba por ser uma técnica, ferramentas que uso a toda a hora.
Sente que com este filme as pessoas poderão passar a olhar para um corpo nu de uma diferente que não seja uma mera exploração e mais como algo natural?
Difícil será alguém ver este filme e manter uma atitude fechada. Das duas uma: ou ficaria desapontado ou encontraria uma forma de descobrir algo diferente.
Era seu destino ser atriz?
Espero que sim. Acabei por cair nisto. O meu pai era realizador, mas eu quando era criança gostava de pertencer ao teatro. Entretanto, tive aulas de representação e obtive um trabalho muito nova. Depois outro e outro…
Conseguiu ao longo do tempo manter-se muito sã e cool. E não se deixar tentar pelo glamour. Por alguma razão especial?
Não sei. Acho que há outras coisas que me fascinam mais. Não sei…
A Helen tem uma filha (Makena’Lei). Tem sido divertido ser mãe?
Muito divertido. Nunca foi tão divertido.
Que idade tem ela?
Tem oito anos.
Continua a viver em Nova Iorque?
Não, agora vivo na Califórnia. Tenho os filhos na escola (Emmett, filho do seu companheiro Matthew Carnahan, produtor e argumentista)…
Porquê esteve tanto tempo ausente? Foram oito anos desde o seu último filme?
Quis estar mais próxima dos meus filhos. Mas também não houve nada que me fizesse regressar. Digamos que para o fazer teria de ter o “papel da minha vida”. E isso não apareceu. Não sei se foram oito anos, mas não me arrependo.
Que memórias guarda de ‘Melhor É Impossível’? Para além de ter ganho um Óscar? O Jack Nicholson era muito intimidante?
Sim, acho que sim, de início. Mas ele é um ator diante de um guião que está a tentar perceber como vai fazer a cena. As pessoas pensam nele como ícone e não como um ator estudioso. E tal como eu precisa de saber o que acontece antes e o que se vai suceder a seguir. São coisas de ator mais mundanas. Parece que ele sai da cama e é assim. Mas não, trabalha imenso em cada cena.

