Entrevista a John Hawkes, o protagonista de «Seis Sessões»

(Fotos: Divulgação)

Em Seis Sessões, ao encarnar uma parte significativa da vida de Mark O’Brien, que viveu totalmente imobilizado devido a poliomielite, o ator americano John Hawkes, brilha numa interpretação em que apenas mexe a cabeça. E mostra-nos como O’Brien vivia naquilo que chamavam um “pulmão de ferro”, um cilindro de metal onde recebia respiração artificial e passava a maior parte do tempo. Mas isso não o impediu de tirar o curso de Direito, trabalhar como jornalista, escrever poesia. E até, porque não, aos 39 anos, decidir abandonar a sua condição de virgem. Algo que acabou por concretizar com a intervenção da terapeuta de sexo Cheryl Cohen Greene, numa corajosa prestação de Helen Hunt. Para a história ficou ainda curta documental Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien vencedora do Óscar em 1997. Este ano, a palavra Óscar volta a surgir associada ao drama em que mais nos faz rir de absoluto prazer.

Mas quem é John Hawkes?” A interrogação foi proferida por um jornalista em plena campanha para as nomeações aos Óscares dos filmes de 2010, onde Hawkes acabou mesmo incluído no lote dos cinco candidatos por Despojos de Inverno. Hawkes, que nasceu John Marvin Perkins, acabaria por trocar o Minnesota pelo Texas, aderindo ao movimento musical de Austin, em bandas como Meat Joy e King Straggler. Numa entrevista concedida à revista Fade revelou que assumia diferentes personagens durante as boleias que apanhava quando andou “on the road” pelas estradas americanas. Talvez isso, mas também a admiração pelo ator Robert Duvall, o terão influenciado a abraçar uma carreira na ficção. Eterno “underdog”, mas com uma longa carreira, iniciada em meados dos anos 80, deixaria uma marca forte no excêntrico Eu, Tu e Todos os que Conhecemos (2005), da performer Miranda July, sublinhando presença na série Deadwood e, claro, em Despojos de Inverno, e mais recentemente no surpreendente Martha Marcy May e Marlene. Só que este ano, o seu nome arrisca-se a entrar definitivamente no léxico da temporada dos prémios de cinema com este trabalho que vem marcado com selo de Óscar. E não só por Seis Sessões, pois voltaremos a ver John, em Lincoln (estreia no final do mês), o muito aguardado filme de Spielberg, para além de uma série de projetos em diversas fases de produção.

Já se sabe que em matéria de Óscar, ajuda se se tratar uma história verídica, ainda por cima se contar com um elemento de deficiência física. No entanto, Seis Sessões contorna os tiques do género e ganha pela forma como Hawkes supera essa condição e nos delicia com os diálogos da autoria do próprio O’Brien. Ele que era católico praticante e acreditava num “Deus com sentido de humor”. Por isso mesmo, antes de passar “à ação” pede um “parecer” ao padre (progressista) local, interpretado com brio por William H. Macy, que lhe concede “um passe” para que Brien acabe com a sua virgindade. Vale a malícia da realização e a narrativa picaresca de Ben Lewin, ele próprio também alvo da mesma doença e forçado a deslocar-se com muletas.

Na tão aguardada hora entrevista com John Hawkes, algo que se tornou um imperativo assim que vimos o filme em Toronto, em Setembro passado; deliciamos-nos entretanto com segunda visão do filme no festival de San Sebastián e, finalmente, em Londres, em Outubro, entrevistamos o homem de que muito se vai falar. Educado, cumprimenta-nos à chegada e desculpa-se antecipadamente se falar muito baixo. Tentará esforçar-se por falar mais alto. E quando fala, fá-lo de uma forma serena e sistematizada. Vamos saber quem ele é?

Esta deve ter sido a experiência mais fisicamente estática na sua carreira, não?

Sim, é verdade. Foi interessante pensar que poderia protagonizar um filme tendo apenas de mexer um pouco ao cabeça. É incrível e ao mesmo tempo intimidante perceber como, por vezes, uma boa representação não necessita de contar com o corpo todo. Mas confiei no guião e apesar na personagem não se mover, o seu desejo seria captado. Pensei que se era interessante de ler também poderia ser interessante ver no filme.

Como foi que este projeto chegou até si? E, já agora, até que ponto queria mesmo participar no filme?

Depois de Despojos de Inverno ofereceram-me alguns guiões, mas este foi aquele que achei mais interessante. Era também o que tinha o orçamento mais reduzido. Mas não tenho medo disso, até porque nos permite mais liberdade. Na altura, não fazia sequer a ideia que a Helen Hunt, o William H. Macy e o restante cast acabariam por estar também envolvidos e trabalhariam quase sem dinheiro. Quando as pessoas que admiro também têm a mesma ideia faz-me pensar que sou bom avaliador de material. Encontrei-me com o Ben Lewin, realizador e argumentista, sem saber que também ele era um sobrevivente de poliomielite. Mas o que encontrei não foi uma pessoa deficiente, mas um homem muito divertido, que por acaso anda de muletas.

Conhecia a história do Mark O’Brian?

Não vi o documentário da Jessica Yu (Breathing Lessons) que ganhou o Óscar, mas lembro-me de ler um artigo sobre ela. Mas este guião chegou-me 15 anos depois. 

Que tipo de desafios encontrou nesta personagem?

Não tanto o facto de estar imóvel e ser deficiente. O próprio realizador disse-me que tinha passado vários anos à procura de pessoas com deficiência para fazer o papel e também atores. Mas achava que eu podia fazê-lo, o que me deixou muito contente. E que não pretendia o politicamente correto, pois considerava uma forma de censura. E que queria contratar quem ele pretendia.

Viu alguns dos filmes de pessoas com deficiência, como “Mar Adentro”?…

Não vi o Mar Adentro, não vi o O Escafandro e a Borboleta, não vi O Meu Pé Esquerdo. Agora vou poder vê-los a todos (risos). Poderia até ter roubado algumas ideias destes atores fantásticos. Mas apenas vejo os filmes mais esquisitos, e um dos que mais me motivou foi uma curta do Todd Haynes, Superstar, em que as personagens são interpretadas por bonecas Barbie. E não gosto de trabalhar por referencias de filmes. Por exemplo, se estou a ler um guião que me diz algo como “do tipo Dennis Hopper”, é como se levasse um murro no estômago, pois quase nos obriga a associar nisso o tempo todo. Acho que é preguiçoso por parte de um realizador dizer: “lembra-se daquela cena em Os Amigos de Alex?” Isso não faz sentido. Quando mais puro e não adulterada a aproximação for, melhor.

Sente uma pressão maior por representar uma pessoa real?

Sim, muito maior. Eu trabalho a fundo, mas não quero sentir a ideia de que tenho de agradar a alguém.

É interessante como o filme não segue as limitações físicas da pessoa, mas o despertar sexual dele. Sente que entrou na mente do Mark O’Brien?

Acho que sim. É um filme que vai para além da limitação física. Tal como uma boa história, e acho que esta é uma boa história, vai para além do seu tema. E quanto mais específico se é, mais universal se torna a história. Já recebi elogios de pessoas que me disseram ter-se relacionado mais com aquela pessoa horizontal que muitas outras em filmes há muito tempo. Talvez porque muitos de nós já tivemos a primeira experiência sexual e relacionamo-nos com as circunstâncias que a rodearam, a alegria, etc. Quando resolvi o lado físico do Mark e deixei de pensar que era uma pessoa horizontal encarei-o como uma pessoa absolutamente normal. Aí tudo se tornou muito mais claro. 

Que tipo de detalhes considerou mais importante abordar e que referências tinha?

Tinha, desde logo, o documentário e os registos de voz. Isso permitiu-me captar a voz e a aparência do Mark. E na autobiografia dele falava de cada parte específica do seu corpo. E era muito particular sobre as mãos e os pés, os braços e as pernas. Eu gosto deste tipo de pormenores. Sobretudo para quem o conhecia.

E quais foram os maiores obstáculos nesse processo?

Por exemplo, aprender a escrever à máquina com um lápis na boca. Poder virar páginas de um livro, fazer telefonemas. Por outro lado, o guião menciona que a coluna vertebral dele está toda curvada. E como não queria ter um duplo, nem efeitos digitais, conseguimos criar uma almofada de espuma dura com a forma de uma bola de futebol que colocava nas minhas costas. Era muito incómodo, devo dizer, mas salientava a curvatura da coluna dele. 

Estava a falar do embaraço da primeira experiência sexual. Já agora, acha que o seu primeiro encontro com a Helen (Hunt) no filme também acabou por ter parte desse embaraço?

Acho que sim. Até porque eu não a conhecia bem. E isso foi bom. Quando percebi que essas cenas mais embaraçosas seriam filmadas primeiro, fez sentido que não houvesse qualquer tipo de conforto. O cinema por vezes capta esses momentos que são verdadeiros, espontâneos e desconfortáveis. 

Para além da terapia de sexo, tem também a terapia do padre (William H. Macy). No fundo, é um filme sobre sexo, mas também sobre religião… 

Bom, não sei bem o que pensará a igreja católica sobre este filme. Provavelmente abençoarão o nosso esforço. Mas, veja bem, Berkeley naquela altura, e estamos no final dos anos 80, era um lugar muito progressista. O conselho do padre começa por ser de amigo, quando lhe diz, não oficialmente, mas como amigo, pode seguir e ter sexo. “Acho desta vez Jesus lhe daria um passe”… É uma boa frase, mas é um filme. Não vamos dizer às pessoas como viver as vidas delas.

É bom podermos pensar que existe “um deus com sentido de humor”, como ele diz… É outra linha preciosa.

Sem dúvida. Quando estava a fazer o filme sentiu que se tratava de material capaz de gerar este tipo de aceitação e de pode ser nomeado para os Óscares?

Este foi um filme de baixo orçamento, difícil de financiar. Foi feito com financiamento privado. De maneira que nem sequer tinha noção de que o filme seria acabado. É o que acontece em muitos casos. A partir do momento em que a Helen Hunt e o William H. Macy chegam ficamos a fazer que seria possível acabar o filme, mas não sabia ainda se o filme seria comprado para distribuição. É altura de prémios, fala-se de tudo. E isso beneficia o nosso filme, pois não temos um orçamento muito grande para fazer publicidade. Falar com a imprensa acaba por ser a nossa campanha. O que puder trazer mais pessoas para ver o filme, melhor. Fico contente, mas não posso controlar. Por vezes, fazem-se previsões que saem erradas. No caso de Despojos de Inverno, foi publicado um artigo de opinião sobre as possíveis nomeações que dizia no final, “mas quem é o John Hawkes?” (risos)

Pelo menos, agora pode dizer-se que foi aquele ator que teve a oportunidade de simular um orgasmo no cinema…

É verdade (risos). Tem toda a razão, vários orgasmos simulados (risos)…

Foi para si estranho contracenar com a Helen Hunt quando ela estava sem roupa?

Claro que é um momento especial no filme, em que a personagem fica embaraçado, contente. Mas eu já tinha visto mulheres nuas antes (risos), acredite. Agora, digo-lhe que é um desafio ver uma mulher nua e não poder fazer mais nada do que estar quieto. Normalmente, ajudaria à cena, mas não pude (risos).

O John também escreve, se não estou em erro…

Sim, escrevo canções, histórias, poemas. Má poesia (risos). Também tenho tocado em bandas em Austin, Texas, desde 1982. Normalmente, quando um ator toca música diz-se que tem um grande ego. Mas se for um músico a entrar num filme, já é ótimo. No meu caso, como ator, digo as palavras do outros, mas também tenho a minha opinião. 

E compõe música, certo?

Era mais do estilo, entrar numa carrinha e ir tocar com bandas. Isto nos anos 80. Toco vários instrumentos, mas acho que a guitarra é onde sou menos mau. Peguei na guitarra aos onze anos porque queria ser como o meu irmão mais velho. Mas nunca tive lições. 

Ultimamente, o John tem recebido imensas propostas e participado em inúmeros filmes. Um dele é “Lincoln”, do Spielberg..

Sim, ainda não o vi, e tenho apenas um papel secundário. Aliás, há 150 papéis com diálogos no filme. Não sei quando eu próprio vou estar (risos)… Tive até um ano frustrante porque há muitos projetos interessantes que me foram oferecidos, mas é sempre difícil de encontrar financiamento. Pode ser que um filme como este mude um pouco as coisas.

Está já preparado para as piadas que o Seth McFarlane (autor das animações Family Guy e American Dad e do filme Ted) irá fazer a propósito deste filme na cerimonia dos Óscares?

Ah, pois é ele quem vai apresentar não é? Não sei (risos), mas poderá ser hilariante. 

 
 
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