Entrevista a Anne Fontaine, realizadora de «O Meu Pior Pesadelo»

(Fotos: Divulgação)

Depois do bem-sucedido “Coco Avant Channel” a realizadora partiu para uma comédia para qual conseguiu atrair a “psicopata mais querida” do cinema francês – conforme já se designou Isabelle Huppert por lá. Mais habitual nas andanças cómicas, Benoit Poelvoorde faz a sua terceira colaboração com a realizadora. Passando por Lisboa para divulgar “O Meu Pior Pesadelo”Anne Fontaine fala sobre o elenco, sobre as diferenças sociais e culturais em França e sobre o seu novo filme, “Two Mothers”, que estreia em Sundance em janeiro e tem Naomi Watts e Robin Wright nos papéis principais.

Como foi convencer Isabelle Huppert a entrar numa comédia?

Ela já fez comédias, mas há muito tempo. Queríamos trabalhar uma com a outra já há alguns anos. Mas eu não queria fazer um drama psicológico com ela. Queria fazer uma comédia, pois ela já fez muitos dramas. Para mim era interessante utilizá-la numa personagem assim, “control freak”, excessiva, completamente autoritárias, sofisticada, que pensa controlar tudo. Eu falei com ela sobre essa ideia. Eu também queria pô-la em frente ao (Benoit) Poelvoorde, pois ele é um ator com quem eu já tinha trabalhado três vezes, um ator que eu adoro. É uma inspiração permanente e eu pensava que estes dois atores frente-a-frente teriam uma química interessante. 

Ia perguntar sobre a entrada dele… (Benoit Poelvoorde)

Para mim ele é um dos grandes atores franceses da atualidade. Ele pode fazer de tudo, drama, comédia, com profundidade e originalidade muito raras. Hoje não vejo um ator francês desta geração que tenha essa versatilidade. Eu fiz com ele o “Entre As Suas Mãos”, onde ele era um tipo que matava mulheres, depois o “Avant Coco Chanel”, onde está extraordinário. Normalmente eu não escrevo para atores, mas tive a ideia de utilizar estes dois desde o início.

De onde veio a ideia de inserir um sujeito rude e inconveniente no universo da burguesia intelectual?

Sempre fui interessada em ver como atua a cultura e a relação entre pessoas vindas de meios diferentes, assim como se a inteligência se transmite ou não. No filme o filho mais inteligente, entre os dois protagonistas, era o do sujeito que não sabia nada. Não diria que ele é estúpido, mas sem dúvida é algo ordinário. E ela é dona de uma galeria, mas tem um filho que não reage. E essa é a ironia. Pensei que era interessante construir a relação dos dois ao longo do filme. 

É um filme contra a ideia de que a elite não pode encontrar pessoas de extratos diferentes. Em França é muito difícil quando uma pessoa vem de um certo nível cultural, da burguesia, cruzar-se com um operário, por exemplo. É quase impossível. Era interessante trabalhar isso.

A classe média intelectual francesa é um tema recorrente na vossa cinematografia atual…

O burguês não intelectual é mais raro no cinema francês hoje. “Le BoBo”, como se chama em França, é exatamente como vivem Huppert e (André) Dussolier no filme. É burguês intelectual, é uma especialidade francesa. Muitos artistas se enquadram na definição. É muito importante nas grandes cidades. 

O que pode adiantar sobre o seu projeto “Two Mothers”, que estreia em Sundance em janeiro?

Estou a acabar, está quase. Estreia em França em abril e é baseado numa história de Doris Lessing, uma grande escritora inglesa que escolheu sempre temas politicamente incorretos e muito transgressivos.
É uma história incrível, que se passa na Austrália, com duas mulheres que são as melhores amigas do mundo e têm dois filhos da mesma idade que vivem em comunidade. É uma história de amor entre essas duas mulheres e esses dois filhos. É interessante como vai reagir a América, porque é transgressivo, mas de uma maneira muito natural. Não é uma provocação, para mim é uma história de amor muito forte. 

Tem duas atrizes excelentes (Naomi Watts e Robin Wright) e é a primeira vez que faço um filme em inglês – aliás, gostei muito de fazer. Essa história tinha que ser filmada num país anglo-saxão, por razões culturais… Eu encontrei a Doris Lessing na Austrália e começou assim a ideia de fazer esse filme lá. Era complicado, uma produção francesa…

E como entrou Naomi Watts no projeto?

Ela tinha visto o “Coco Avant Chanel”, que tinha tido muito sucesso na América e em Inglaterra. E quando ela leu a novela, gostou da provocação. Fui encontra-la em Los Angeles e estabelecemos uma relação de colaboração artística. Ela é fantástica. Ela e Robin Wright. 

Na América pode haver uma reação de cunho moral. Nos filmes eles gostam sempre de estabelecer uma nítida separação entre bom e mal.

Este filme não é moral. A maneira de enquadrar a história não é moralista de todo. É um filme forte e eu não sei como os americanos vão reagir a isso. Mas eu gosto da ideia. Por isso vai ser interessante, pois mesmo em França será chocante! 

 

 

Depois do bem-sucedido “Coco Avant Channel” a realizadora partiu para uma comédia para qual conseguiu atrair a “psicopata mais querida” do cinema francês – conforme já se designou Isabelle Huppert por lá. Mais habitual nas andanças cómicas, Benoit Poelvoorde faz a sua terceira colaboração com a realizadora. Passando por Lisboa para divulgar “O Meu Pior Pesadelo”, Anne Fontaine fala sobre o elenco, sobre as diferenças sociais e culturais em França e sobre o seu novo filme, “Two Mothers”, que estreia em Sundance em janeiro e tem Naomi Watts e Robin Wright nos papéis principais.
 
Como foi convencer Isabelle Huppert a entrar numa comédia?
 
Ela já fez comédias, mas há muito tempo. Queríamos trabalhar uma com a outra já há alguns anos. Mas eu não queria fazer um drama psicológico com ela. Queria fazer uma comédia, pois ela já fez muitos dramas. Para mim era interessante utilizá-la numa personagem assim, “control freak”, excessiva, completamente autoritárias, sofisticada, que pensa controlar tudo. Eu falei com ela sobre essa ideia. Eu também queria pô-la em frente ao (Benoit) Poelvoorde, pois ele é um ator com quem eu já tinha trabalhado três vezes, um ator que eu adoro. É uma inspiração permanente e eu pensava que estes dois atores frente-a-frente teriam uma química interessante. 
 
Ia perguntar sobre a entrada dele… (Benoit Poelvoorde)
 
Para mim ele é um dos grandes atores franceses da atualidade. Ele pode fazer de tudo, drama, comédia, com profundidade e originalidade muito raras. Hoje não vejo um ator francês desta geração que tenha essa versatilidade. Eu fiz com ele o “Entre As Suas Mãos”, onde ele era um tipo que matava mulheres, depois o “Avant Coco Chanel”, onde está extraordinário. Normalmente eu não escrevo para atores, mas tive a ideia de utilizar estes dois desde o início.
 
 
De onde veio a ideia de inserir um sujeito rude e inconveniente no universo da burguesia intelectual?
 
Sempre fui interessada em ver como atua a cultura e a relação entre pessoas vindas de meios diferentes, assim como se a inteligência se transmite ou não. No filme o filho mais inteligente, entre os dois protagonistas, era o do sujeito que não sabia nada. Não diria que ele é estúpido, mas sem dúvida é algo ordinário. E ela é dona de uma galeria, mas tem um filho que não reage. E essa é a ironia. Pensei que era interessante construir a relação dos dois ao longo do filme. 
 
Isabelle Huppert e Benoit Poelvoorde
 
É um filme contra a ideia de que a elite não pode encontrar pessoas de extratos diferentes. Em França é muito difícil quando uma pessoa vem de um certo nível cultural, da burguesia, cruzar-se com um operário, por exemplo. É quase impossível. Era interessante trabalhar isso.
 
A classe média intelectual francesa é um tema recorrente na vossa cinematografia atual…
 
O burguês não intelectual é mais raro no cinema francês hoje. “Le BoBo”, como se chama em França, é exatamente como vivem Huppert e (André) Dussolier no filme. É burguês intelectual, é uma especialidade francesa. Muitos artistas se enquadram na definição. É muito importante nas grandes cidades. 
 
 
O que pode adiantar sobre o seu projeto “Two Mothers”, que estreia em Sundance em janeiro?
 
Estou a acabar, está quase. Estreia em França em abril e é baseado numa história de Doris Lessing, uma grande escritora inglesa que escolheu sempre temas politicamente incorretos e muito transgressivos.
 
É uma história incrível, que se passa na Austrália, com duas mulheres que são as melhores amigas do mundo e têm dois filhos da mesma idade que vivem em comunidade. É uma história de amor entre essas duas mulheres e esses dois filhos. É interessante como vai reagir a América, porque é transgressivo, mas de uma maneira muito natural. Não é uma provocação, para mim é uma história de amor muito forte. 
 
 
 Naomi Watts e Robin Wright em “Two Mothers” 
 
Tem duas atrizes excelentes (Naomi Watts e Robin Wright) e é a primeira vez que faço um filme em inglês – aliás, gostei muito de fazer. Essa história tinha que ser filmada num país anglo-saxão, por razões culturais… Eu encontrei a Doris Lessing na Austrália e começou assim a ideia de fazer esse filme lá. Era complicado, uma produção francesa…
 
E como entrou Naomi Watts no projeto?
 
Ela tinha visto o “Coco Avant Chanel”, que tinha tido muito sucesso na América e em Inglaterra. E quando ela leu a novela, gostou da provocação. Fui encontra-la em Los Angeles e estabelecemos uma relação de colaboração artística. Ela é fantástica. Ela e Robin Wright. 
 
Na América pode haver uma reação de cunho moral. Nos filmes eles gostam sempre de estabelecer uma nítida separação entre bom e mal.
 
Este filme não é moral. A maneira de enquadrar a história não é moralista de todo. É um filme forte e eu não sei como os americanos vão reagir a isso. Mas eu gosto da ideia. Por isso vai ser interessante, pois mesmo em França será chocante! 
 
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