De voz rouca e arrastada, mas a mesma presença do ator que ficamos a conhecer após o arrebatador papel de Ian Curtis, em Control, agora como a representação da personagem que Jack Kerouac ficcionou no filme como Sal Paradise, em Pela Estrada Fora. A seguir será o animalzinho de Angelina Jolie…. em Maleficent.
A última vez que o vi em Cannes foi na Quinzena dos Realizadores, no papel de Ian Curtis, em Control. Na altura não era um ator tão conhecido. Como sentiu esta evolução desde essa altura?
É quase o oposto, porque naquela noite ninguém tinha uma expectativa, enquanto que agora a expectativa era altíssima. Mas também todos sabiam do que o Walter (Salles) era capaz.
Como entrou a bordo do projeto?
Por acaso conheci o Walt aqui em Cannes. E o Garrett em Nova Iorque.
Ficou surpreendido pela oferta do papel?
Sim, achei que era uma escolha inesperada. Mas também não estava numa posição em que poderia dizer que não. Na verdade, nem foi uma oferta. Eu fiz uma audição com o Garrett em Nova Iorque. E demo-nos bem. E fiquei com a sensação de que o Walter gostara. Mas, entretanto, a produção ficou sem dinheiro. E acabamos por nos esquecer de tudo.
Conhecia o livro de Kerouac?
Não, só o li quando já não era um jovem, mas tive amigos meus que o leram muito jovens e foram viajar. Por qualquer razão, passou-me ao lado. Infelizmente.
E sobre a geração ‘beat’ em geral?
Apenas sabia que o Allen Ginsberg era amigo do John Lennon, nem sequer sabia da sua história, do seu passado. Provavelmente, foi por isso que o Walt decidiu fazer o ‘boot camp’ (uma espécie de recruta) para entrar no ambiente do filme. Acho que foi feito para mim, pois o Garrett já sabia tudo… (risos)
O que o surpreendeu mais sobre este período que desconhecia?
A música, por exemplo. Eu sempre fui mais ligado ao ‘rock and roll’, mas usei muito o jazz na minha preparação. Comprei um pequeno aparelho e ouvir o Charlie Parker, Dizzy Gillespie, para adquirir o ritmo, que era muito rápido. Eu procurava escrever à máquina como eles tocavam.
Durante a rodagem teve a oportunidade de viajar e de perceber essa pulsão que os movia ou foi apenas dentro do trabalho e para as sequências que estavam a rodar?
É claro que teve uma componente de trabalho, mas eu só conhecia Los Angeles e Nova Iorque, por isso é que eu digo que descobri a América durante a rodagem. O que foi ótimo. Ninguém gosta de ouvir que a vida de um ator é difícil, mas chegamos a ter alguns momentos de stress. Pois estávamos sempre em movimento. Pessoas que entravam e saiam. O Viggo Mortensen, o Steve Buscemi… Era ótimo, mas muito rápido.
Tiveram tempo para confraternizar um pouco?
Sim, por exemplo, foi ótimo ter o Steve Buscemi numa noite em que nos teve a falar de quando fez o Reservoir Dogs com o Tarantino… Foi ótimo.
Depois de um filme como este ou Control, é fácil abandonar a personagem ou elas insistem em persegui-lo?…
Em Control foi um bocado difícil de me separar, pois não sabia bem como me proteger. Na verdade, eu não conseguia perceber se já tinha mesmo acabado o filme. E isso continuou durante vários meses. Mas às vezes acabar um filme é como sair de uma guerra. Estava exausto.
Sentiu-se apanhado pela personagem?
Nem, tanto apanhado, mas absorvido. Sobretudo depois de um mês de ensaios, algo que não é comum, sobretudo para um filme de baixo orçamento. E cinco meses de rodagem, em que entro em quase todas as cenas.
Acha que agora tem um controlo maior sobre o que faz?
Talvez, mas ainda me entrego da mesma forma e procuro absorver-me. Mas esse foi o meu primeiro papel. Ainda por cima, morava perto do local de rodagem, em Leeds. E acabei por apaixonar-me por uma rapariga (Alexandra Maria Lara, com quem casou) e tive de acabar com a namorada que tinha. Uma confusão.
Vive entretanto em Berlim, certo?
Sim…
E o que faz?
Faço jardinagem…
Em Berlim?
Sim. Quase cortei um dedo do pé… Tive de andar de muletas durante meses.
Não gostava de mudar-se para Hollywood?
Gostava de trabalhar em Hollywood. Mas prefiro viver onde vivo.
Já agora, qual é o seu papel em Maleficent?
Sou o ‘corvo’ de Angelina Jolie. Ela é uma bruxa. No filme, claro. Eu sou o corvo dela, como na Branca de Neve.
Vai ser envolvido por muita CGI?
Alguma, porque ela transforma-me em diversas coisas, até num homem.
Digamos que é o animalzinho dela… Não pode ser mau… (risos)
Os meus amigos já me disseram isso (risos). Mas ainda não comecei a rodagem (na altura da entrevista. O filme está agora em pós produção).
Gostava de fazer outra personagem ligada ao meio musical?
Sim. Acho que tenho essa vocação.
E quem seria?
Elvis.

