Entrevista a Garrett Hedlund, protagonista de «Pela Estrada Fora» (On The Road)

(Fotos: Divulgação)

Uma conversa feita de descoberta. Mas quem é este Garrett Hedlund, que começou a sua carreira ao lado de Brad Pitt, no blockbuster Tróia, e logo se juntou aos protagonistas? Os realizadores também gostam deste menino do campo dominado pela religião. Vejam-no agora a fundir-se no papel mítico de Dean Mortiarty e a evocar Neal Cassady, o boémio que lhe serviu de modelo.

Fica debaixo de olho para o próximo filme com os manos Coen, intitulado Inside Llewyn Davis.

Gosta de viajar? Esta ideia de fazer um filme ‘Pela Estrada Fora’ imagino que desperta essa vontade…

Bom, cresci numa quinta… O mais longe que tinha viajado até aos meus 14 anos fora apenas a três horas de distância de casa. O meu pai dizia que quem vivesse fora da nação de Deus era estranha…

A sério?…

Acho que era o seu truque mental para me dizer “nunca saias de casa, filho”. Mas desde que me mudei com a minha mãe para o Arizona, a ideia de viajar tornou-se mais possível. Lembro-me quando fui pela primeira vez com ela a Los Angeles, aos 15 anos, e vi o mar – até ali apenas tinha visto lagos de água fresca. Foi um momento incrível.

Acha que esse desejo quase bíblico do seu pai o levou a querer fazer mesmo o contrário e viajar mais?

Acho que aquilo que nos falta acaba por ser o que mais desejamos. No que diz respeito à viagem, até aos 17, 18 anos estamos sob a guarda dos nossos pais. É quando começamos a ajustar a nossa própria bússola que realmente começamos a crescer. 

Um pouco como sucede no romance do Jack Kerouac…

Sim, o Dean tinha 21 anos e o Sal, 24. E estão num ponto da sua vida em que tudo é possível, se dermos esse passo para o conseguir. 

Como foi a experiência nas sessões de treino que se realizaram antes de começar a rodagem?

Como entramos para o projeto muito cedo, tivemos três anos para compilar informação. Eu fui contratado para o filme em 2007 e logo segui para San Francisco, que ainda não conhecia. Foi lá que tentei comprar tudo o que havia sobre as pessoas que deram corpo a estas personagens. De resto, estávamos nove, dez horas sentados num apartamento a ouvir jazz, Dexter Gordon, Lester Young, a ler, a ver filmes do John Cassavetes. 

No fundo, sugestões do Walter (Salles)?

Sim, foi o Walter quem nos fez estas sugestões. Foi fantástico poder partilhar tudo isto com o Sam (Reily), a Kristen (Stewart), a Kirsten (Dunst) e todos os outros. Cada dia era uma inspiração.

Qual foi para si a parte mais fácil de compor a personagem, também baseada no Neal Cassidy?

Acho que foi o à vontade, a liberdade de aproveitar cada momento. Senti que partia sem destino. Desafiar o Sal (Sam Reily) e partir. O Dean Moriarty/Neal Cassidy sugava tudo. 

Vê o Dean como uma espécie de musa inspiradora?

Talvez quando era já mais maduro. Infelizmente, não tinha disponível material de quando era mais jovem. Apenas fotos do Ginsberg e do Kerouac e dele em ácido a dançar, nos últimos anos da vida dele. No livro percebemos que está ali alguém a experimentar as coisas pela primeira vez. 

Como encara todo este revivalismo em redor destas personagens. Vimos o James Franco como Ginsberg, em ‘Howl’. E agora não sei se sabe que o Daniel Radcliffe vai recuperar esse papel em ‘Killing Your Darlings’…

Sim, queriam que eu fizesse de Keruac.

A sério? Se calhar disse que não depois de já ter feito este filme, não?

Na verdade, este convite foi anterior a On The Road. Pelo menos era algo que estava a para arrancar. Mas há vários projetos dentro do movimento beat

Como é que encara esse movimento?

Para mim, o período da geração beat, dos anos 40 e 50, é mais romântico e tem sido muito romantizado. Ainda que a ação deste filme seja anterior à geração beat. Isto eram eles a descobrir o que viria a ser esse movimento. A certa altura da sua vida, o Keruac terá mencionado essa expressão num bar qualquer e alguém a aproveitou para apelidar esse movimento de contra-cultura.

Esta ideia de liberdade, de sexo, droga e rock’n’roll acaba por ser uma ideia recorrente para as novas gerações. É algo que sentiu também na sua adolescência?

Não, não… (risos) Nope. Eu ia à missa todos os domingos. E ia à catequese no domingo de manhã também. Desde os seis aos 14 anos. Até fazer o crisma. So depois é que nos perguntamos porquê… (risos) Isto em Minnesota, onde a tradição tem muito peso. As pessoas têm medo do mundo exterior. As pessoas namoram com as pessoas da região, casam e ficam por ali.

Como era a sua vida na altura?

Nós tínhamos apenas três canais de televisão. Eu vivia no meio do campo. Quando via televisão, tinha aquelas cassetes VHS, que tinham a morada dos estúdios. Eu lembro-me de escrever para os estúdios e pedir para entrar num filme deles. 

Alguma vez lhe responderam?

Não…. (risos) 

Mas sentia que esse era um sono comum para os miúdos da sua idade?

Nada disso. Era até um sonho estranho para mim, porque eu só queria ser mais crescido para poder trabalhar na fábrica, na linha de montagem. Acho que a ideia de ser ator, tal como no livro, acho que foi da necessidade de ir um pouco mais longe. Ao olhar para trás, apetece-nos ir ainda mais longe. Mas por qualquer razão eu queria ver-me no ecrã e ir para Los Angeles. Por isso, quando fiz 18 anos pequei na minha carrinha e só parei em LA.

E aterrou logo em ‘Tróia’, não foi? (risos)

(risos)… Sim, é verdade. Mas só depois de dois anos e meio de audições. Nem sequer eram filmes. Imagine agora quando liguei de LA à minha mãe a dizer-lhe que ia partir para Londres e depois para Malta, para fazer Troia…

Fale um pouco do projeto com os irmãos Coen, ‘Inside Llewyn Davis’…

Tenho um papel mais pequeno, mas muito divertido. O Oscar Isaac é o protagonista e é um dos meus amigos. E também o John Goodman, que volto a encontrar depois de Sentença de Morte, com o Kevin Bacon. Somos então três amigos dentro de um carro dirigidos pelos irmãos Coen. É uma história que decorre em 1961 e é baseada num tipo chamado Llewyn Devis, um cantor folk, amigo de Bob Dylan. O drama dele é que não consegue arranjar maneira de conseguir um local para cantar. 

 

 
 
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