É possível fazer cinema independente em Portugal. É que o cineasta algarvio João Marco vem conseguindo provar. Sem esperar pelos recursos cada vez mais escassos das entidades governamentais, produziu uma longa-metragem – “Além de Ti”[
ver crítica], exibida no FESTin este ano – e prepara seu segundo trabalho, “A Porta 21”, que pretende concluir em 2013.
Num momento em que só se fala em crise de forma geral, do cinema português em particular, como é que alguém decide fazer um filme, ainda por cima afastado de Lisboa?
A vontade de contar histórias, de criar ambientes e possibilidades. Nada pode negar essa vontade. Hoje até com telemóveis se fazem filmes. E falo de cinema. O facto de estar longe de Lisboa pode ser visto como um obstáculo, mas eu olho as coisas de forma diferente. Todos os pólos culturais têm o maior leque de escolhas e de gente que quer fazer, é certo. No entanto, vendo de outra forma ou com o pensamento longe de uma vertente mais industrial, pode se fazer cinema em qualquer local do mundo – e faço reparar que Faro é um local muito interessante, fílmico e se, bem conduzido, sedutor.
O que verdadeiramente interessa é a força daqueles que trabalham comigo, a garra que deitam aos projetos e o querer fazer mais e melhor. Nem passa tanto por ser diferente ou querer sê-lo. Temos por base as regras da linguagem cinematográfica, todos de nós estudamos o que nos cabe, e fazem-lo diariamente. Aquilo que fazemos poderá ser visto como um “indie” nu e cru, mas tudo aquilo em que trabalhamos é depurado, amadurecido e lançado à tela. Nada é secundário. O nosso primeiro prémio “inovação visual e artística”, uma menção honrosa em Braga, deixou-nos plenos de vontade em continuar a caminhada que muitas vezes é longa e vaga. Mas não nos cabe deixar de a fazer. Assim é que A Porta 21 está a começar a rodagem em breve.
O que pode adiantar sobre o conteúdo de “A Porta 21” ?
A Porta 21 é um filme negro. Um conceito entre o filme noir e as possibilidades narrativas de um universo do protagonista. Algo entre a sanidade e a perdição. Não é um filme clássico português. Será rápido e escuro. Sombrio, psicologicamente frágil. Um filme que está escrito para ser acutilante e muito preciso em cada um dos cortes. Trabalhamos todos os dias da semana, desde Setembro, às noites durante três horas: ensaios, figurino e cinematografia. Queremos elevar a fasquia do “Além de Ti”. Teremos uma qualidade técnica e artística mais mainstream, sem querer fazer-nos passar por tal coisa, contudo. Será sempre um filme indie muito duro.
Prevê muitas diferenças em relação ao “Além de Ti”?
Os ambientes serão muito mais densos, mais profundos e mais intensos, embora no Além de Ti já o fossem. N’A PORTA 21 quero fazer um buraco maior debaixo dos pés do espectador. Obrigá-lo a navegar entre vielas escusas. Aqui será um confronto constante, no “Além de Ti” há um crescendo intimista, na Porta 21 há um decair constante.
Como “Além de Ti”, também é uma história original?
Sim. Gosto da criação a partir do papel branco. Dá-me outra força saber que sou obrigado a criar pontes e não apenas usá-las. A unir personagens, a rasgá-los em diferenças e em desprazeres. Tenho muitas pequenas histórias que poderão dar origem a longas-metragens e estou a desenhá-las uma a uma. O próximo, que poderá suceder
A Porta 21 , já está esboçado. Quem sabe irá ou não para a tela? O que interessa, no final de contas, é a arte em si. E aprender com o ofício, a erigi-las. Olhar para cada uma das partes que a compõem e saber que o trabalho está conforme. Que é aquilo que quero contar.
No seu primeiro trabalho desempenhou inúmeras funções, como diretor de fotografia, montador e compositor da banda sonora. Isso também será assim no novo trabalho?
O primeiro filme teve um propósito maior, um caminho que eu deveria fazer em muitos momentos sozinho. Precisava de sentir os diferentes momentos do projeto, de vivê-los. Pedir a pessoas para me auxiliar nas diferentes etapas significaria fragiliza-lo. Seriam demasiados elementos. Sublinhe-se que todos estavam a funcionar nos tempos livres do emprego. Tal coisa não é bem-vinda num filme que tinha mesmo que ser feito. Porque os tempos nem sempre são os mesmos e os atrasos dificultam a criatividade e o empenho crescente. Por outro lado, como não havia um pagamento em vista, não me pareceu digno estar a convidar técnicos a participar no “Além de Ti”.
A Porta 21 é um projeto diferente neste aspecto. Já me sinto mais inteiro como realizador. Já passei pelas fases da experiência e sei melhor o que procuro e para onde me quero dirigir. Esta longa-metragem inclui uma equipa técnica mais completa e uma pré-produção com os atores em tudo mais demorada. As coisas estão a ser criadas de propósito para o filme. A belíssima banda sonora orquestrada – Pedro Calquinha -, o figurino desenhado de raiz – Filipe Corre -, o som direto com um trabalho de estúdio melhorado – Filipe Correia -, uma diretora artística de grande sensibilidade – Úrsula Mestre -, estudo e ensaios durante quatro meses com a equipa artística antes da rodagem, cabeleireiro – CRPA – e maquilhagem – Marisa- de nível ultra-profissional.
No entanto, há aspetos que não me consigo distanciar nem deixar de parte. São os casos do argumento, a fotografia e a edição – embora procure um bom editor, porque quero ideias novas em cima da mesa. Vou deixar a música ao compositor que está a fazer um trabalho fascinante.
Quem compõe o elenco?
Os atores nucleares serão, como protagonista, o Pedro Monteiro, ator de teatro desde além de três décadas, e a Tânia Silva, como femme fatale. O Igor Arrais, o André Canário, a Laura, o Gil Silva e uma pequena aparição do Mário Spencer fazem o filme nascer. Entre estes, haverá muitos mais pequenos papeis. Mas ninguém das capas de revista. O teatro é a base artística do filme. Um grupo de teatro com gente interessante e motivada para a cultura e para o cinema. Estamos a trabalhar de uma forma muito dura para conseguirmos tirar dos atores todo o sumo a que temos direito.
Em que as experiências com “Além de Ti” contribuem, a nível de produção, mas também de expetativas – com base nas reações despertadas pelo filme?
O projeto anterior permitiu-me ler o público e confrontar essa leitura com aquilo que foi pensado, escrito, filmado e editado. Essa análise é fundamental para despertarmos para um caminho. Para novas aberturas, novas opções. Fazer um filme é um processo de tal forma longo que é fácil a obsessão por pormenores que não interessam e julgar que irão fazer toda a diferença. Tornar coisas perfeitamente secundárias em objetos de noites sem dormir. Essa dificuldade em saber lidar com o produto final leva a que o público possa ter uma reação nos antípodas do esperado. E a incerteza, após dois anos de preparação, não é coisa boa. No fim, a história é o que mais interessa. Não a história em si, entenda-se, mas a forma como essa história é contada, é passada para a tela. Criar uma imersão é o trabalho do realizador. E emergir uma sala inteira é obra.
No que diz respeito à produção, continuamos a fazer o filme sem financiamento, embora estejamos a trabalhar para que assim não seja. Contamos apenas com apoios estratégicos e logísticos. As coisas tornaram-se mais simples porque já temos alguns metros de estrada atrás de nós, mas ainda não existe uma consciência fílmica. A força de um filme. Aquilo que existe do outro lado da fronteira, uma verdadeira aposta de privados, não se sabe fazer deste lado. Veja-se que um filme é um produto virtualmente eterno. Que pode ser visto a qualquer momento.
Nas salas, nos festivais, no computador, com a família, nas escolas. Há um sem número de pessoas alcançáveis apenas com um DVD. Promover um produto ou uma marca é uma boa aposta. Veja-se a Coca-Cola, a Levis, a Marlboro, a Nokia, os muscle cars, a Califórnia, Nova Iorque, a música inglesa. O que seriam delas sem os filmes? Muito menos universais, certamente. O Cinema enche-nos o imaginário de esperança e de sonhos. Falta-nos muito para entendê-lo. Eu acredito na arte e no público. Fazer apenas arte é um ponto de vista. Um filme apenas para o público é procurar uma receita fácil. Juntar os dois é um mundo novo. Penso que posso dizê-lo: se o cinema em Portugal fosse a indústria que tantos procuram, A Porta 21 seria vista com outros olhos, tal como o cinema português, em geral. Ainda há muito para fazer. E nós queremos ajudar a essa reflexão.

