Entrevista a Vitor Norte, protagonista de «O Cônsul de Bordéus»

(Fotos: Divulgação)

O ator encarna Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português que em plena ditadura de Salazar ousou desobedecer ordens expressas de seu governo e emitir centenas de vistos para judeus do norte da Europa que fugiam dos nazis. Realizado por Francisco Manso e João Correia, o filme estreia-se, com alguns meses de adiamento em relação ao prazo inicial, nesta quinta-feira. Vitor Norte conversou com o C7nema sobre as dificuldades para a construção de uma personagem que deixou poucos vestígios visuais ou testemunhos e sobre o interesse de se fazer cinema histórico em Portugal.

Como foi o trabalho de pesquisa para a construção da personagem?

Baseei-me em livros, em estudos sobre ele, num documentário e num filme com características documentais, para além de ter ouvido muitas histórias sobre ele. Tentei visualizá-lo o máximo possível, conversei várias vezes com os netos dele, para além de impressões trocadas com o Francisco (Manso), com o Mazeda (produtor). As coisas vão amadurecendo, vou tendo ideias. Num dia posso acordar e lembrar-me da história da carrinha que ele mandou fazer para os filhos, que é uma coisa muito pessoal. Ele tinha 14 filhos, então tinha uma carrinha com 17 lugares. Às vezes uma pessoa, como ator, em qualquer momento pode lembrar-se de algo que venha a ser útil para construir uma história mental para ele, para ir construindo-o. Porque é difícil. Mesmo tendo morrido há relativamente pouco tempo, não se sabe exatamente como ele era, nem mesmo fisicamente. Não sabemos se usava óculos ou não. São coisas importantes para os atores…

Mas não ficaram imagens dele?

Sim, há muitas fotografias, mas só numa imagem é que ele estava de óculos. Eu falo disto dos óculos porque foi algo que procuramos. Corremos a Baixa toda à procura de óculos, para ver quais me ficavam melhor, qual reproduzia melhor o aspeto daquela época. A pesquisa faz-se das mais variadas formas, tenta-se de tudo aquilo que se possa para tentar aproximar-se de quem foi o homem. Como é que ele andava, por exemplo? Ninguém me sabe dizer como ele andava. Era nervoso? Era calmo? Como ele mexia a cabeça? Enfim, são coisas importantes para os atores e que muitas vezes são informações indisponíveis. 

Portanto, também é um trabalho de criação…

No fundo, a sublimação da criação é mais com o realizador, com o diretor de fotografia. Chegamos a um local muito desconhecido que era a casa dele e era muito difícil uma pessoa sentir-se à vontade logo à primeira. E há coisas que muitas vezes são discutíveis – o realizador está a pretender uma coisa e se calhar estou a dar outra. Ou o contrário. É extraordinário quando se juntam esses sonhos de cada um. Chega-se a uma altura que as escolhas têm que ser feitas, dentro daquilo que consideramos que é o melhor.

O filme também não conta a história dele fora daqueles dias em Bordéus.

Não, mas se calhar isto também não tem muita importância porque ele era um diplomata. As pessoas pensam num diplomata e vêm um tipo com uma gravata, um casaco, uma grande secretária. Isto não interessa, os ofícios que ele fez para trás. Isso não interessa. Aquele momento é que fez o Aristides de Sousa Mendes, não o que ele fez 20 anos antes. 

Coloco isso no sentido de tentar entender melhor quem ele era.

Sim, eu tentei. No período em que tentei representá-lo procurei dar-lhe a maior dignidade possível, não lhe retirando a naturalidade das pessoas normais. Porque o problema às vezes é enfatizar demasiado uma coisa e torna-la artificial. Aqui a ideia não era usar grandes efeitos e minimizar o máximo possível as coisas. No cinema por vezes isso é importante, só mostrar aquilo que é necessário. É o que se passou, é o que está no argumento, então é o que vamos fazer – utilizando tudo aquilo que se aprendeu e discutiu.

Como vê a importância deste filme e de resgatar esta personagem histórica no momento atual?

Eu acho que um homem com essa história, de salvar vidas… Bom, é extraordinário que tenham feito um filme sobre isso e sinto-me muito honrado por ter interpretado esse homem e ficar ligado a ele, nem que seja num filme. 

Acha que há em Portugal uma valorização dos seus heróis históricos?

Acho que estamos a caminhar neste sentido. O filme anterior que fizemos, no qual tive a sorte de participar, Assalto ao Santa Maria”, também retrata um momento importante para a democracia, foi uma alavanca na altura contra a ditadura. Foi muito importante fazer esse filme. Aliás, os filmes históricos sobre coisas positivas para o avanço da civilização têm de existir. Muitas vezes não se fazem porque não há verbas ou não há quem os escreva. Ou simplesmente porque é muito difícil fazer cinema nesta altura.

O que pode adiantar sobre seu novo trabalho, “Com um Pouco de Fé” (de Jorge Monte Real)?

Esse é um trabalho muito diferente, que se pretende divertido. É uma comédia. E feito com as mais irrisórias quantias com que se consegue fazer um filme. Ainda não sei quando será lançado. Mas é outra coisa, não há nada que o una a este.

 
 
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