Madrinha da Festa do Cinema Francês este ano e uma das protagonistas de “Galinha com Ameixas”, que estreia comercialmente em Portugal na próxima semana, Maria de Medeiros está em Lisboa para participar no evento onde também será homenageada com a mostra de seis filmes de sua carreira recente. A atriz conversou com o C7nema sobre a sua personagem em “Galinha com Ameixas”, o seu trabalho ainda inédito “Spiritismes” (cujas filmagens iniciavam-se com uma sessão espírita para invocar a alma de um realizador falecido!), os seus projetos como documentarista e, claro, a homenagem que recebe da Festa do Cinema Francês. Maria de Medeiros também lamentou que os exemplos da política cultural francesa não sejam seguidos em Portugal…
Em “Galinha com Ameixas” tem uma personagem que à partida parece má, mas ao mesmo tempo é uma vítima…
Na verdade, quando a Marjane Satrapi (realizadora) me sugeriu a personagem estava quase embaraçada em propor alguém tão antipático. Mas, ao contrário, eu agradeci. Achei que era uma aposta para mim como atriz, defender esta personagem e fazer com que as pessoas entendessem porque essa mulher ficou assim. No fundo o filme é uma sucessão de tragédias contada de uma forma muito divertida, como um conto oriental, filosófico. E há um desencontro fundamental entre essa mulher que eu represento e o seu marido. Na verdade eles até se podiam entender enquanto casal, se não fosse…
O fantasma da outra…
Exatamente. Se ele não estivesse tão fanatizado pela ideia daquele outro amor que perdeu. Essas duas pessoas que estão casadas estão completamente desencontradas. Isso é muito triste, mas ao mesmo tempo é divertido representar isso.
Para si, pessoalmente, como se posicionava numa situação destas? Por um lado seu marido era um artista, por outra era preciso pôr comida na mesa…
Eu posso me identificar com essa mulher justamente porque ela é um combatente, é uma mulher que trabalha. Estamos a falar do Irão da década de 50. Ela é professora de matemática, trabalha. As mulheres na obra da Marjane Satrapi são sempre muito fortes. Então eu fiquei contente por representar essa situação de desamor que é tão triste…
Foi filmado tudo em Berlim…
Sim, filmamos tudo em estúdio. O cenário era absolutamente maravilhoso, incrível. Era como entrar na caverna de Ali Babá, um ambiente completamente mágico. Houve um enorme cuidado na forma com que eles reconstruíram a velha Teerão até o mais mínimo detalhe. Era uma coisa maravilhosa.
Já avançando um pouco, em relação a um dos seus novos projetos “Spirtismes”, já está terminado?
Já filmei a minha parte, mas as filmagens continuam. É um projeto muito louco do Guy Maddin (com quem ela rodou “A Canção Mais Triste do Mundo”). Ele tem uma cinematografia muito particular, muito original e “Spiritismes” é uma série de 100 curtas-metragens onde ele filma nos museus – e eu participei em dois deles. Filmamos num museu no centro de Paris – e o público está à volta! Foi a primeira vez que estive numa filmagem aberta ao público. A ideia do filme foi recuperar argumentos de filmes que ficaram perdidos. Ao longo da história do cinema mundial muitos guiões não foram feitos – então tem argumentos do Hitchcock, do Billy Wilder… Têm realizadores japoneses. Ele fez uma compilação de guiões que ficaram perdidos por todo o mundo. Para cada um escreveu, tomando a essência, o sumo de cada história, um guião para curta-metragem. Então rodávamos um filme por dia.
Eram sempre os mesmos atores?
Não, os atores iam mudando, mas todo o mundo aceitou essa experiência bem estranha. Pela primeira vez tive oportunidade de trabalhar com a Geraldine Chaplin, que era um grande sonho para mim. Ao longo de tantos anos nunca nos encontramos, e acabamos por nos conhecer aí. Foi o mesmo caso da Charlotte Rampling. Só com o Mathieu Amalric já tinha trabalhado (em “Galinha com Ameixas”). Foi uma ocasião para muitos atores encontrarem-se numa atmosfera bem estranha porque cada dia de filmagens começava às 10h da manhã com uma sessão de espiritismo para invocar o espírito do realizador! (risos). Foi muito divertido. Ele filmou em Paris, agora trabalha em Winnipeg (Canadá) e depois será a vez do Moma, de Nova Iorque.
E o novo filme da Marjane Satrapi onde também atua, Le band de jotas?
Sobre esse não posso adiantar muito…! Só posso dizer que está pronto.
Como recebeu o convite para ser madrinha da Festa do Cinema Francês?
É uma honra e uma alegria ser madrinha desta Festa. É um cinema tão variado, tão vivo, com tanto apoio. Para nós portugueses devia servir como exemplo, a nível de política cultural a seguir. Promovem o seu cinema e a sua produção artística e cultural no mundo inteiro. E no caso de nós, portugueses, que somos também gente de viagens, com tanta facilidade de comunicação… É uma pena que não divulguemos os nossos filmes, que são muito queridos no estrangeiro, respeitados e admirados.
Já tem uma carreira com mais de 50 filmes… Existem alguns que lhe despertam memórias especiais?
Há muitas memórias que são especiais. Talvez por isso aqui nesta retrospetiva da Festa eu quis apresentar coisas que ninguém viu do meu trabalho mais recente, além de “Capitães de Abril” Eu também gosto muito de fazer documentários, por isso também quis trazer “Je T’Aime… Moi Non Plus…Artistes e Critiques”, sobre artistas e críticos. Agora acabei de terminar uma longa-metragem que será exibida na mostra de São Paulo sobre o trabalho da Comissão de Anistia e Reparação, no Brasil. Chama-se “Repare Bem”. É um filme muito político, um pouco na linha dos “Capitães de Abril”, etc.
Também quis mostrar os filmes “Je Ne Suis Pas Mort” e “À L’Abri de La Têmpete”, que fazem parte do meu trabalho mais recente. Nós gostamos dos trabalhos que fazemos ao longo da carreira mas muitas vezes aquilo que nos interessa é o que estamos a fazer no momento ou dos projetos ainda não iniciados. Para mim é uma alegria poder mostra esses dois filmes, que ainda não estrearam em França.
Fale um pouco mais de “Je T’Aime… Moi Non Plus…Artistes e Critiques”.
É sobre a relação entre artistas e críticos. Foi muito divertido filmar isso. Filmei no Festival de Cannes. Na verdade o que eu queria fazer era abordar essa temática relacionada a todas as artes. Mas eu voltei de Cannes com 80 horas de filmagem, então resolvi fazer o cinema como paradigma de todas as outras artes. Aquilo que se diz do cinema no fundo vale para as outras artes também.
Esta guerra “amorosa” entre artistas e críticos é um pretexto para falar de estética, dos conceitos estéticos de como se recebe uma obra de arte. E esse filme teve uma bela carreira, foi um feito sem dinheiro nenhum para um canal de televisão francês sobre cinema, mas acabou sendo exibido nas salas em França e no Canadá, além de ter passado em variadíssimas televisões. Portanto, teve uma carreira bem além do que eu esperava, mas em Portugal ainda não foi mostrado… Fico contente que o público aqui possa ver e, sobretudo, espero que se divirta.
O cinema francês é hoje o único no mundo a rivalizar com o norte-americano em termos de bilheteira no seu país. Acha que ele representa uma alternativa interessante em relação ao norte-americano?
Eu creio que isto deles conseguirem rivalizar com o cinema americano não é só devido ao filme. Claro que eles têm qualidade, isto é evidente, mas também é devido a uma política cultural muito forte, muito ativa. Tem que ser uma combinação das duas coisas. Ajuda ainda que eles defendam a diversidade dentro do seu cinema. O cinema francês ainda hoje defende filmes alternativos. Tem todo o tipo de cinema, desde os muito comerciais aos alternativos e isso é que é bom. É aceitar essa riqueza que faz com que, também aqui na Festa, sintamos que é um cinema que está “vivo”.
Isto é muito diferente do que se está a fazer em Portugal, onde ordenaram “por decreto” que o cinema tem que se tornar comercial e independente do Estado…
Toda a história da arte ocidental é fundada no patrocínio, não há outra forma. Não há maneira de existir nem sequer cinema comercial sem uma política cultural.

