Numa sociedade controlada pelo SISTEMA, uma variante nazi do Big Brother, que limita a privacidade dos cidadãos, João apaixona-se por Leonor, uma judia perseguida. Um inspector que os vigia, acaba por deixá-los em liberdade, reconciliando-se com o seu passado: ele era o avô de Leonor.
Esta obra de ficção científica de 15 minutos que promete surpreender o Fantasporto vem assinada por José Miguel Moreira, autor de «A Parideira», uma das curtas-metragens portuguesas de maior sucesso dos últimos anos. O seu novo trabalho, «Falha do Sistema», conta com Gracinda Nave, Pedro Lamares, José Pinto, Aurora Campos, Nuno Simões e Ana Melo.
O c7nema falou com o realizador José Miguel Moreira antes da estreia do filme no Fantasporto 2012. Entrevista conduzida por José Pedro Lopes.
De que trata ‘Falha do Sistema’?
Falha do Sistema é uma curta-metragem de ficção com cerca de 15 minutos, que nos narra um encontro amoroso entre um funcionário público (Pedro Lamares) e uma Judia perseguida (Gracinda Nave), num mundo controlado pelo Sistema, uma espécie de Big Brother de inspiração Nazi…
O resto da narrativa, para haver alguma expectativa (sobretudo na personagem protagonizada pelo ator José Pinto) é para desvendar na projeção.
Claro que uma sinopse é insuficiente e um filme é sempre muito mais profundo. No caso do “Falha do Sistema”, o seu subtexto centra-se em questões atuais na Europa, nomeadamente no real valor das suas democracias (Hitler saiu vencedor em 1945 e o mundo de hoje resulta dessa premissa que roça de forma assumida o limite da verossimilhança).
O filme tem um contexto de ficção científica, pouco usual no cinema português. Achas que o cinema nacional devia apostar mais no fantástico, nomeadamente nas curtas?
O cinema deve apostar somente em ser genuíno, obviamente lúdico e, claro… artístico. Se o conseguir, chega seguramente à crítica e ao público. Tanto faz o género. Mas “Falha do Sistema”, que não tem um género óbvio, não me parece ser de ficção científica, até porque decorre na atualidade (embora resultante da tal premissa que referi).
Quis fugir a um certo anacronismo, típico deste género de filmes, algo kafkianos, onde as sociedades são normalmente projetadas para um tempo que parece futuro, sem contudo o ser, pois também nos remetem para um passado que reconhecemos, inspirado em ditaduras comunistas ou fascistas.
No caso do “Falha do Sistema”, a ideia foi situar esse mundo kafkiano no… presente; e a Grande Europa, de que se fala no filme, numa alusão à Grande Germânia de Hitler, não passa de uma alusão à atual União Europeia, numa Europa que muitas e respeitosas figuras públicas temem estar muito próxima de resvalar para a ditadura.
Mas apesar da sua carga política assumida (embora o filme não seja ideológico no sentido panfletário, pois não julgo que deva ser esse o propósito de um criador), “Falha do Sistema” não deixa de refletir sobre a democracia na Europa, nesta época de crise económica, política e de valores (o filme, na sua abordagem metalinguística, pretende igualmente ser uma reflexão semiótica sobre o conceito do signo).
De onde veio a ideia deste Sistema que controla a sociedade?
É um tema recorrente no cinema (e na História) e que, contra todas as previsões, acaba por ganhar uma certa atualidade nesta Europa… democrática. Daí ser tema obrigatório para qualquer realizador atento ao mundo.
Mas, mais concretamente, pois as ideias nascem quase sempre de um acaso que nos escapa, o guião foi escrito há cerca de dois anos atrás, após… ouvir uma anedota (de que já nem me lembro). Na altura, terminava um mestrado em Produção e Realização audiovisual e, como tinha de redigir um guião para uma disciplina de argumento, surgiu primeiro “A Culpa é do Sistema”. Entretanto, houve um concurso a nível nacional para o ensino superior de escolas de cinema, patrocinado pelo ICA, e o guião ganhou o apoio. Depois, na reescrita, e justificado pela evolução política na Europa, o guião evoluiu para o “Falha do Sistema”.
Como foi criar este mundo?
Inicialmente, a ideia era fazer um filme com uma estética mais próxima da de um filme como O Processo (o do Welles); mas como não houve dinheiro suficiente para recriar esse ambiente anacrónico (que necessitaria igualmente de uma fotografia muito específica e difícil), lembrei-me de situar o filme no presente, jogando dramaticamente com a falta dos esperados anacronismos estilísticos (pelo menos evitando-os em demasia).
Como, no fundo, tudo depende do valor que damos (ou se dá) ao Signo, enquanto muitas vezes falso representante do real, achei interessante substituir o conceito da democracia por uma óbvia suástica nazi, nesta lógica de que tudo é semiótico e que a alteração da realidade está muitas vezes somente dependente da embalagem que a (en)cobre.
Que esperas da estreia do filme no Fantasporto?
Que seja visto. Para mim os festivais servem basicamente para isso. E já não é pouco. Eles são a grande oportunidade para os mostrar, senão os filmes não passam de experiencias não colectivas. Eu sei que vivemos numa sociedade hierarquizada segundo o desejado pódio, onde o que parece somente interessar é quem ganha prémios, mas convém não esquecer que o mais importante é ver os filmes e perceber que os mundos neles retratados têm muitas cores e devemos ficar gratos por haver formas diferentes de pensar e fazer cinema… desde que os filmes tenham qualidade, claro.
Que te parece a abertura do festival a uma competição para curtas?
Sempre houve curtas em festivais. O que me parece haver no Fantasporto atual é a tentativa de conquistar os cineastas portugueses, com a curta-metragem a ser o meio mais óbvio para o conseguir, numa altura em que elas parecem ganhar mais importância, devido à sua grande visibilidade.
Apesar de tudo, sou um pouco céptico em relação à curta-metragem no que respeita à sua verdadeira capacidade para influenciar o cinema atual.
Posso estar enganado, mas a massificação das curtas, sobretudo na internet (hoje podemos fazer uma curta com qualidade técnica, usando meios caseiros), criaram um tal ruído que, na prática, não só é mais difícil distinguir o trigo do joio, com essa banalização criou a ilusão de que tudo é cinema (veja-se o que está a suceder com os milhares de vídeos feitos com as DSLRs, infelizmente quase todos vazios de conteúdo, embora tecnicamente interessantes).
Dirias que há uma ligação entre o teu trabalho anterior, ‘A Parideira’ e ‘Falha no Sistema’?
São completamente diferentes, quer no estilo, quer no tema, portanto, aparentemente sem ligação entre si; excepto em duas coisas óbvias: em ambas as curtas-metragens aparece um ator que admiro imenso: o José Pinto. E em ambas, a minha estratégia foi simplesmente a de aprender, para num futuro próximo, se possível, fazer uma longa-metragem.
De qualquer forma, no que toca ainda às semelhanças, há algo na Parideira que é comum ao Falha do Sistema, e que de certeza existirá em eventuais projetos futuros: a metalinguagem será sempre uma prioridade no subtexto dos filmes.

