Grande entrevista a Miguel Gonçalves Mendes, o responsável por «José e Pilar»

(Fotos: Divulgação)

O filme «José e Pilar», estreado em 2010, conseguiu cerca de 24 mil espectadores em Portugal e mais de 40 mil no Brasil. Por cá, até existe uma petição para que o documentário seja a obra portuguesa submetida à Academia de Artes e Ciências de Hollywood, visando assim uma possível nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Marcando o lançamento do filme em DVD, o C7nema falou com Miguel Gonçalves Mendes, o seu realizador, que explicou um pouco mais sobre esta obra, os seus futuros projetos e até as novas ideias que o Governo PSD tem para a Lei do Cinema.


Porquê o Saramago?

Porque era um grande fã dele desde a adolescência, porque gostava imenso dos seus livros e porque ele era uma figura polémica — ou pelo menos era assim que o apresentavam. Eu não percebia como é que alguém pintado como cinzento, comunista, que comia criancinhas ao pequeno-almoço, ateu, podia ser o mesmo homem que escrevia aqueles livros, com aquele grau de humanidade nas personagens. Tinha curiosidade em conhecê-lo. Em relação à Pilar, porque também estava incluída nessa panóplia de críticas: era a espanhola que tinha roubado o Saramago. Tinha curiosidade em conhecer uma pessoa que achava fundamental na vida e na carreira dele. O objetivo era fazer um retrato de um escritor, mas acabou por ser sobre os dois.

Isso foi do nada? Escreveu-lhe uma carta?

Já tinha entrado em contacto com ele dez anos antes, quando fiz o meu primeiro documentário, «D. Nieves», sobre a relação com a Galiza e a própria saudade. Pedi-lhe para gravar um pequeno off e foi esse o meu primeiro contacto pessoal com ele.

E havia a ideia de gravar a criação de um livro?

Não. Isso surgiu durante a rodagem. A ideia inicial era fazer um retrato da relação, um pouco à imagem de «Autografia», com temáticas universais como o amor e a morte. Aconteceram duas coisas: primeiro, propus-lhe esse retrato íntimo e ele recusou, dizendo que podia fazer sobre o trabalho, mas não sobre a relação. Depois, aconteceu um milagre: no início da rodagem surgiu-lhe a ideia da «Viagem do Elefante» e percebi que o filme ia ser sobre esse processo de escrita. Era a metáfora perfeita: um périplo até à Áustria, um desfecho marcante, e uma oportunidade de fazer um filme nos antípodas de «Autografia». Ou seja, falar das mesmas coisas — amor, morte, humanidade — mas sem entrevistas, apenas através da ação.

Mas mesmo assim há entrevistas.

Não são entrevistas, são momentos naturais. Não há talking heads para a câmara. Há comentários que são respostas a jornalistas e um momento em que ele fala sobre Deus connosco, mas de forma natural. Apesar disso, gravei oito horas de entrevista com cada um.

Havia um plano de filmagens inicial?

Havia, sim. Uma série de perguntas que queria ver respondidas e determinadas cenas que achava importantes. Por exemplo, sabia que era visitado por fãs e quis filmar essa interação, como acontece com os italianos. Havia um guideline, que fui revendo quando as circunstâncias mudaram.

E a ideia de durar tanto tempo?

Foi uma fatalidade. O primeiro corte tinha seis horas, o objetivo era chegar às duas. A grande luta foi essa. Ficou com duas horas e oito, mas percebi que estava a estragar o filme ao tentar encurtar mais.

Há a ideia de lançar a versão de seis horas?

Falou-se disso, até numa minissérie de seis episódios para televisão. Mas faltam cerca de 100 mil euros para promoção, som e imagem. Já me endividei o suficiente com este filme.

Não, refiro-me à duração da rodagem: quatro anos.

Ah! Sim. Já tinha tido a experiência do documentário sobre o Mário Cesariny, que durou três anos. Para fazer este tipo de retrato é preciso tempo e confiança. Inicialmente calculei um ano de rodagem, mas houve problemas de financiamento e a doença do José, que esteve internado seis meses. Isso prolongou tudo para quatro anos.

E a nível de fundos e apoios?

Foi difícil. Candidatámo-nos várias vezes ao ICA e só à quarta tentativa conseguimos apoio. Tivemos sobretudo o apoio da El Deseo. Num momento de frustração, enviei um e-mail a várias produtoras internacionais e recebi resposta da El Deseo. Reunimos em Madrid e deram-nos o dinheiro inicial antes mesmo de contrato assinado. Mais tarde, conheci o Fernando Meirelles, que viu a versão de seis horas e aceitou entrar.

E como foi a relação câmara/sujeito?

É óbvio que muda. Foram quatro anos de filmagens, o que permitiu quebrar a barreira inicial. No início só filmava eventos públicos, para não ser intrusivo. Aos poucos perceberam que o meu interesse não era o mesmo dos jornalistas, mas sim mostrar a vida quotidiana. A confiança foi crescendo até eu entrar em casa. Na montagem, limpei qualquer interação com a câmara, exceto uma cena no carro, incluída de propósito: para mostrar que, no fundo, eu também fiz o mesmo que os jornalistas, segui-os durante quatro anos.

Porque é que são apresentadas algumas posições da Pilar que podem hostilizar o público português, como a união ibérica ou o acordo ortográfico?

Esse risco existia, mas optei por não esconder. A Pilar é veemente, frontal e espanhola — é o seu charme. Concordo com a maioria das coisas que ela diz. Apenas discordo totalmente do iberismo. Mas achei importante assumir, porque o filme não oferece respostas, levanta questões. E queria que fosse um retrato íntimo, honesto.

Aparentemente, o próximo filme será «O Evangelho Segundo Jesus Cristo». Porquê esse livro?

Porque é o mais cinematográfico do José. Outros livros são magníficos, mas este parece quase um guião, pela forma como as cenas estão encadeadas. É uma obra que trata da experiência humana, da História e dos desígnios de Deus, e que permite a transformação de Jesus Cristo contra a sua vontade. É um livro belíssimo que foi alvo de uma polémica absurda. Fazer este filme é quase um ato de justiça.

Na altura, o PSD estava no governo. Se estiver de novo, não haverá problemas?

Espero que não. Em 1993 foi patético, e foi o que levou o José a sair de Portugal. Estamos em democracia e espero que o país esteja mais adulto.

Apoia a ideia de avaliar o cinema pelo número de espectadores quando se atribuem subsídios?

É uma questão demagógica e populista. Não podes medir o cinema apenas por números. Há filmes que só existem com apoio do Estado e que representam passos artísticos importantes. O cinema deve ser apoiado na sua diversidade. Claro que o número de espectadores é relevante, porque as pessoas também querem ver-se representadas. Mas não podemos falar em “indústria” em Portugal. O maior sucesso de bilheteira, «O Crime do Padre Amaro», teve 300 mil espectadores, o que nem pagou o filme. Com o mercado português não há indústria. A questão é: o Estado quer cultura ou não? Daqui a 200 anos, ninguém se lembrará de Cristiano Ronaldo ou desta crise, mas lembrar-se-ão de Camões, Pessoa ou Saramago. O que define a História de um país é a cultura e a ciência.

 

 

 
 
 
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