Entrevista: Colin Firth arrisca-se a ganhar o Óscar com ‘O Discurso do Rei’

(Fotos: Divulgação)

O filho de professores universitários começou cedo a pisar os palcos. Contudo, o primeiro papel profissional foi no filme ‘História de uma Traição’ (1988). Ficaria conhecido pelos papéis em ‘Orgulho e Preconceito’ (1995) e ‘O Diário de Bridget Jones’ (2001). Foi o ano passado nomeado para o Óscar em ‘Um Homem Simples’, feito repetido este ano em ‘O Discurso do Rei’.

Tem sido um ano extraordinário, com a nomeação para o Óscar e imensos prémios. De que forma é que esse reconhecimento altera a forma como encara a sua carreira?

Acho que é algo que eu não consigo medir. Tem sido, de facto, um ano em grande, mas não sei se isso muda alguma coisa. Continuo a não encontrar trabalho… (risos) Não sei o que fazer… 

Concorda que está no melhor momento da sua carreira?

Talvez sim. Provavelmente. Mas não sei o que fazer com isso. Estes dois últimos papéis (incluindo ‘Um Homem Simples’) são muito bem escritos e pertinentes para a minha idade. Digamos que os meus interesses se adequam a esta idade. Posso agora interpretar alguém com um passado. 

Foi complicado interpretar um Rei com problemas de gaguez?

Não foi fácil porque primeiro aprendemos a gaguejar, mas depois temos de aprender a não o fazer. Foi todo um processo, mas não lhe posso dizer como o fiz.

Escutou as gravações originais dos discursos do Rei Jorge VI?

Sim.

Com que impressão ficou dessa personagem?

Levei muto tempo a definir. Mas não o tentei imitar. A questão (do Tom) era saber como ele soava nos seus piores momentos. Isto porque quando conheceu o Logue (Geoffrey Rush) ainda não existiam as gravações dos seus discursos. Tudo o que ouvimos hoje é depois da sua terapia. Mas diz-se que era terrível…

O facto de interpretar um Rei, altera a sua visão sobre a família Real?

Não tenho uma posição definida. Também não encarei a questão por esse ângulo. Não é disso que se trata. De certa forma é colocar uma estrutura no lugar. Estamos sempre a contar uma história no presente. Aqui estamos a sublinhar algumas coisas.

Como, por exemplo?

Trata-se do problema de um ser humano em alcançar outro ser humano. Com a agravante de estar atrás das paredes de um palácio real. Para além disso, há um problema de comunicação. Este impedimento acaba por funcionar como metáfora para esses problemas de comunicação. 

Recolheu algumas informações sobre os abusos ao Jorge VI sugeridos no filme?

Sabem-se algumas coisas. Por exemplo, na infância era obrigado a viver numa casa de jardim. Como era epiléptico mantinham-no completamente fora de vista. E nunca recebia visitas da família. Com a excepção da avó e de uma auxiliar. Isto até aos 13-14 anos. Convenhamos que não é uma educação privilegiada. O mesmo se passou com os aparelhos que lhe colocaram nas pernas, dia e noite, para corrigirem o andar. Era uma agonia. Não tinha amigos. 

O Colin sente-se próximo da Monarquia?

Não sei. Não sei sequer qual é a ligação do povo britânico. Recordo-me do sentimento enorme quando morreu a Rainha-mãe. Neste momento não sei como será a sondagem de quem será em favor ou abolicionista. Acho que muitos britânicos da minha idade não perdem muito tempo a pensar na Família real. 

A vida e a morte da Princesa Diana terá abalou um pouco essa ideia?

Não sei se a morte dela mudou alguma coisa, mas seguramente mudou algo. Foi um momento grande. De repente todos choravam em público. A mudança foi radical para quem não ligava nada.

E como encara a sua idade? Numa altura e que acabou de completar 50 anos.

Não sei muito bem como isso aconteceu… (risos) Acho que ainda agora me conformei em abandonar a adolescência… Mas acho uma idade sensacional. Apetece-me gritar a minha idade: “Tenho 50 anos”! Se isto pode acontecer, então tudo pode acontecer. A felicidade de ter bom trabalho, faz-me esquecer a deterioração do corpo…

A vida familiar ajuda-o a lidar com a idade?

Ajuda, pois a família não é um local onde receemos envelhecer. Sinto-me muito confortável em envelhecer em casa.


Publicado no Correio da Manhã


 
 
 
 
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