Estamos na Islândia, onde a caça à baleia foi proibida e os pescadores, entregues à pobreza, subsistem com o turismo: levando os visitantes a ver as agora protegidas baleias e vendendo souvenirs.
Um grupo de turistas – americanos, alemães e japoneses – parte numa expedição de barco para avistar as criaturas em alto-mar. Quando o capitão morre acidentalmente, ficam à deriva, mas acreditam estar a salvo quando um pequeno barco pesqueiro os resgata. Nada mais errado: os seus pesadelos estão prestes a começar.
Esta é a premissa de Reykjavik Whale Watching Massacre, resposta islandesa ao género slasher. Escrito pelo poeta e novelista Sjón – que salpica de humor e de situações estranhas este relato de sobrevivência – o filme tem vindo a ser um sucesso em festivais e junto dos fãs do fantástico. Estes reconhecerão a presença do ator islandês Gunnar Hansen, o lendário Leatherface de Texas Chainsaw Massacre, num pequeno papel.
O c7nema esteve à conversa com o realizador Julius Kemp para descobrir as origens deste original filme anti-ecológico.
Como foram as reações ao filme na Islândia? As pessoas ficaram ofendidas ou gostaram de ver um filme slasher passado lá?
A maioria das pessoas na Islândia não ficou ofendida com o filme – interpretaram-no como diversão e entretenimento.
Quem escreveu o argumento foi o poeta e novelista Sjón, autor inclusive de livros para crianças. Como foi que ele acabou a escrever o slasher islandês?
O Sjón é um grande fã de filmes de terror, creio que já viu quase todos. De momento está a escrever outro filme de terror. Penso que a sua criatividade tem uma combinação interessante: é capaz de escrever livros lindíssimos durante o dia e filmes de terror à noite.
Qual foi a tua inspiração na hora de realizar “Reykjavik Whale Watching Massacre”?
Texas Chainsaw Massacre, é claro. Creio que o humor do nosso filme é muito semelhante ao dos primeiros filmes do Sam Raimi, como The Evil Dead. Mas algumas das nossas sequências mais estranhas são uma homenagem a David Lynch.
Há planos para uma sequela?
Sim. Nós queremos fazer uma sequela – o Sjón e o Torsten estão a escrevê-la. Vai passar-se numa comunidade de avistamento de golfinhos, no Amazonas, em pleno Brasil.
O que fez com que quisesses ser cineasta?
Comecei a filmar com uma Super8mm quando tinha 14 anos e não parei desde então. Mas os filmes que realmente me apaixonaram foram os de ficção científica contemporânea, de mestres como Steven Spielberg e George Lucas.
Tens uma longa carreira como produtor. Realizaste três filmes ao longo de quase duas décadas – os dois primeiros nos anos 90, comédias dramáticas. Agora, voltas à realização com um filme de terror. Porquê?
Foi basicamente uma questão de financiamento. O meu primeiro filme (Veggfóður: Erótísk ástarsaga) era uma comédia juvenil com muito humor físico que foi um grande sucesso na bilheteira e nos festivais.
Graças a ele, consegui algum apoio do fundo de cinema da Islândia e fiz o meu segundo filme (Blossi/810551, 1997), um road movie sobre jovens sob o efeito de drogas – um estudo da minha própria geração.
Depois envolvi-me na produção de diversos filmes e só quando o argumento de Reykjavik Whale Watching Massacre surgiu é que senti que estava pronto para voltar à realização.
É difícil viver do cinema na Islândia?
Sim. Tens de conseguir criar bons filmes – e ser bem-sucedido – para continuares a trabalhar. Mas penso que é assim em toda a parte.
Tens algum projeto de sonho?
Um dos meus projetos de sonho é fazer um épico de Vikings, muito sangrento. Também gostaria de realizar mais filmes de terror com um sentido de humor estranho e absurdo.
Cá em Portugal chega pouco cinema islandês. Que filmes sugeres a quem quiser descobrir esta cinematografia?
Children of Nature (1991) é muito bom. When the Raven Flies (1984) é um ótimo filme de vikings. Também recomendo Noi the Albino (2003).
E sugiro ainda The Icelandic Dream (2000), que eu produzi – é um filme muito divertido.
Conheces o cinema português?
Não posso dizer que sou um perito, mas já vi alguns filmes portugueses. Costumo apanhá-los quando vou a festivais.
Que conselho deixas aos jovens cineastas que queiram fazer o seu primeiro filme e enfrentem as dificuldades num mercado pequeno como Portugal ou a Islândia?
O mesmo conselho que recebi de outros realizadores: continuem. É um trabalho e uma carreira difícil, mas não podem desistir. Têm de insistir sempre.

