Entrevista a Sofia Coppola (Somewhere – Algures)

(Fotos: Divulgação)

Depois de ganhar o Leão de Ouro no Festival de Veneza, chega finalmente às nossas salas, ‘Algures’, o filme mais pessoal da realizadora

Qual a sua motivação principal para fazer este filme? Poderemos ver em ‘Algures’ um filme autobiográfico?

Todos os meus filmes têm um lado introspectivo. Nesse sentido, é um trabalho muito pessoal, mas não vou tão longe a dizer que é autobiográfico, pois a minha vida de criança e adolescente foi bastante diferente da que é mostrada no filme. Mas não deixa de ser pessoal. Nesse sentido, usei e imaginei muito do meu passado. É algo que gosto de mostrar. 

E o que torna este filme pessoal para si?

É o tipo de vida que mostro. Apesar de ser diferente do que é hoje em dia, não deixa de me ser familiar; depois, o facto da minha filha (Romy, nasceu a 2006) ter nascido pouco tempo antes de começar a escrever o guião fez-me pensar como ser mãe alterava a minha perspectiva sobre o mundo. Embora seja algo diferente da de Johnny Marco (personagem de Stephen Dorff), um actor em momento de pausa e à espera do seu próximo filme. Foi mais esse ponto de vista que quis passar, mesmo que a minha vida tenha sido diferente da dele.

De que forma o facto de ser mãe influenciou todo esse processo?

Ao ser mãe acabamos sempre por olhar para o passado, para a nossa infância. Tentei recordar-me de memórias de momentos importantes que acabei por colocar no filme. No fundo, imaginei a vida deste actor com uma filha (Elle Fanning) e de que forma as prioridades se baralham e alteram a nossa maneira de pensar.

Acha que com o nascimento da sua segunda filha (Cosima, nascida em Junho de 2010) irá limitar mais o seu tempo de trabalho?

Acho que sim, apesar de ser importante continuar a ser criativa. Acho que vou encontrar o meu próprio equilíbrio familiar e continuar a trabalhar. Aliás, o que eu gosto nos filmes é que podemos trabalhar com muita intensidade, mas ter também bastante tempo livre. Acho que consigo ter o melhor desses dois mundos.

Podemos dizer que, de certa forma, o seu pai está presenta na personagem de Johnny Marco?

Não. É apenas o lado divertido e doce de um pai com uma criança. A personagem do Johnny Marco foi baseada em diversos actores e músicos, mas não no meu pai.

É até uma bela surpresa vermos o Stephen no papel excelente, ele que ultimamente estava um pouco arredado dos filmes de primeira linha… Porque se lembrou dele?

Por acaso, foi um actor de que me lembrei logo, quando estava a escrever. Foi uma imagem que me ajudou durante esse processo e que acabou por impor-se. Felizmente, foi possível trabalhar com ele.

Mas porquê o Stephen?

Já o conheço há bastante tempo e achei que ele possui essa doçura de que falava e poderia acrescentar essa dimensão humana a esta personagem com bastantes defeitos e, de certa forma, fazer-nos sentir alguma empatia com ela.

É interessante a inclusão das ‘stripers’ de ‘pole dancing’ na cena em que o Johnny Marco está no Chateau Marmont… Conhecia este tipo de ‘stripers’ que montam o seu espectáculo no local do cliente?

Não sabia que existiam, mas achei que poderia trazer à personagem uma dimensão interessante.

A Sofia lembra-se também de passar a vida em hotéis como sucede a Elle Fanning no filme?

Sim, sem dúvida. Tenho muitas memórias desse período em que estava quase sempre com adultos. O meu pai levava-me a lugares onde normalmente as crianças não iam. Lembro-me, por exemplo, de aos 16 anos o meu pai de me ter levado a Cuba e de ter conhecido o Fidel Castro. E de termos ido a Las Vegas e a Reno.

Imagino que seja difícil de eliminar as suas memórias de acompanhar o seu pai na rodagem de alguns dos seus filmes…

Claro. A relação com o meu pai é muito importante para mim e está presente no meu trabalho. 

Nessa altura quando o acompanhava ainda jovem, já pensava que poderia um dia fazer um filme sobre essa vivência itinerante?

Só comecei a pensar nisso quando estava a viver em Paris, depois de ‘Marie Antoinette’. Foi talvez ao ver fotografias de alguns actores no Chateau Marmont que poderei ter começado a pensar em fazer um filme.

Disse na conferência de imprensa, aqui no festival que o seu pai teria dito que só você poderá ter feito este filme…

Talvez porque viu parte da minha personalidade no filme. Acho que sentiu algo especial.

É algo que ele costuma fazer, dar a sua opinião isenta?

É um pai e, está a ver, como pai tende a ser menos exigente. Mas ele viu este filme e disse-me que gostou muito. Mas é o meu pai, por isso… (risos)

A Sofia também é capaz de ajuizar os filmes dele?

Admiro imenso o trabalho dele. Não gosto de o analisar. Prefiro admirá-lo. Se ele me pedir alguma opinião, sobre guarda-roupa, por exemplo, sou capaz de ajudar…

Fez apenas quatro filmes, mas ao ver este percebemos que só poderia ser feito por si. Percebe-se que está a desenvolver um estilo muito próprio.

Eu gosto de filmes de realizadores em que percebemos a personalidade deles. Não é genérico que possamos reconhecer o estilo deles.

O que lhe fascina mais no processo criativo? É escrever, realizar? Trabalhar com os actores? Montagem…

É difícil de dizer. Talvez seja a montagem, pois aí já temos todos os elementos e é divertido começar a ver o filme ter uma estrutura. E acrescentar a música e o som. Mas gosto também muito de trabalhar com os actores. Há muita energia quando estamos a filmar, apesar de ter também algo desgastante.

Acha que por viver em Paris sente uma maior liberdade criativa?

Eu também vivo em Nova Iorque, não apenas em Paris. Não sei se será liberdade o que sinto, talvez seja apenas uma experiência diferente. Paris tem um ritmo diferente que Nova Iorque. É um pouco mais lento. Talvez por isso tantos escritores se tenham inspiram na vida dos cafés de Paris.

É interessante quando mostra as entrevista no hotel Four Seasons. Como é que avalia esse lado do seu trabalho, ou seja, o contacto com a imprensa e a promoção do filme. É um aspecto contratual? É algo penoso ou até pode ser algo gratificante? Até porque percebemos que o Johnny (Stephen Dorf) não liga muito a isso.

Sim, alguns actores podem ter esse lado. Sobretudo o Johnny Marco que está com uma ressaca e não está interessado em vender um filme que não gostou de fazer. Para mim é diferente, porque gosto muito deste filme. E quero falar sobre ele. E quero que chegue às pessoas. Às vezes pode é ser difícil de falar de certas coisas, pois tenho um envolvimento grande com o filme. Acho que me expresso melhor a fazer filmar.

Publicado na revista Vidas do Correio da Manhã

 
 
 
 
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