Entrevista a Srdjan Spasojevic, realizador de ‘A Serbian Film’

(Fotos: Divulgação)

O público do Porto vai tremer por duas noites durante o Fantasporto 2011. A SERBIAN FILM de Srdjan Spasojevic é o filme-choque do ano e muitos consideram que é uma película que não vemos… apenas sobrevivemos.

Na premissa do filme, um reformado actor pornográfico volta ao activo para resolver os seus problemas económicos. Mas o seu novo empregador, não quer fazer cinema “hardcore” normal, mas sim sinistros e violentos filmes. Envolvido nessa rede macabra, Milos será forçado a ver e fazer coisas horrorosas.

A SERBIAN FILM tem feitos disparar os alarmes da censura e da moral em todas as suas exibições. Em Inglaterra, a sua exibição no FrightFest foi cancelada por ordem do Westminster Council, numa atitude sem precedentes (geralmente os filmes em festivais não são alvo de censura). O filme foi banido de qualquer exibição na Austrália e em Espanha foi proibido de passar no festival de San Sebastian – por ameaçar “a liberdade sexual”. Em Setembro de 2010, um tribunal na Sérvia abriu um processo contra Spasojevic por crimes morais contra o país e contra a protecção de menores. Ainda antes de qualquer exibição, um laboratório de pós-produção em Berlim devolveu o filmed a Spasojevic dizendo que não queria ter nada a ver com tal obra. Para justificar tanta violência Spasojevic usa uma frase: “Na Sérvia somos violados desde o momento em que nascemos até depois de mortos”.

O c7nema teve a oportunidade de falar com o realizador Srdjan Spasojevic a propósito da exibição do seu filme no Fantasporto.

De onde veio a ideia de fazer um filme tão extremo como A SERBIAN FILM?

Veio da combinação de duas vontades. Uma era de exprimir sentimentos profundos e honestos que tinha sobre a minha região e os problemas que ela tem após duas décadas de guerras e de um pesado político, social e moral. A outra era de fazer um filme nas linhas do cinema de género mais extremo que eu tanto aprecio.
Nós queriamos exprimir estes sentimentos sobre a Sérvia num contexto universalmente compreensível, que pessoas de todos os cantos do mundo pudessem perceber e se identificar. É um filme que lida com os problemas de um mundo moderno – apenas se passa na Sérvia.

Em muitas entrevistas disseste que o filme tinha uma mensagem política muito forte, chegando a fazer analogias com o que o governo sérvio faz ao seu país. Qual o impacto que esperas que A SERBIAN FILM tenha e como reagiram a ele na Sérvia?

Não é apenas sobre o meu governo, mas sobre todas as coisas más a que nos habituamos e agora consideramos normais. Nós estamos dessensibilizados e incapazes de fazer algo face a estes horrores, e quando alguém fala sobre estes problemas é mal visto.
Este tipo de filmes têm oponentes, especialmente aqueles que são incapazes de ler as suas mensagens mais profundas. Claro que era de esperar estes problemas. Mas felizmente quer na Sérvia, quer fora dela, muita gente percebeu o filme.

Esperavas que o filme fosse considerado o filme-choque de referência para 2010 a nível mundial?

Eu faço cinema de uma forma muito instintiva e não penso muito nas consequências quando estou a desenvolver ideias em casa. O meu principal objectivo era fazer um filme no qual acreditasse da melhor maneira possível. Não planeava jogar a cartada do filme-choque, mas claro que sabia o quão violento era o material com que estava a lidar e que iria causar reacções muito díspares.

Não pensas que o filme poderia ter sido feito e funcionado melhor com muito menos violência?

Provavelmente sim. Mas o motivo pelo qual mostrámos de forma tão directa aquilo que pode ser considerado como imoral de mostrar é que a violação, a humilhação e a degradação do ser humano era para ser vista e sentida pelo espectador. Não queria que fosse ignorada, interpretada de forma leviana.

A SERBIAN FILM esteve em muitos festivais – como tem corrido a busca por distribuidores? Eles têm tido medo de pegar no filme?

Vender este filme não é fácil, apesar de toda a comoção que tem causado. Eu compreendo perfeitamente a posição dos distribuidores quando o evitam. Mas conseguimos vendê-lo já em alguns territórios (EUA, Reino Unido, Alemanha…) e esperamos mais alguns.

Quais são as tuas grandes inspirações como realizador?

As minhas grandes inspirações são os cineastas americanos dos anos 70: William Friedkin, David Cronenberg, Sam Peckinpah, Carpenter, De Palma, Polanski, Walter Hill…

Qual é o teu projecto de sonho?

Essa é uma pergunta difícil. Todas as ideias que tinham são em busca desse filme de sonho. É difícil de descrever e ainda mais de atingir.

É difícil fazer cinema na Sérvia e viver disso?

É quase impossível conseguir dinheiro para fazer um filme se não és fiinaciado pelo governo – o qual tem uma ideia muito específica de como quer que os filmes sejam.

Se um estúdio de Hollywood te oferecesse imenso dinheiro para fazeres um ‘remake americano’ de A SERBIAN FILM, aceitas?

Aceitava e fazia o filme.

Tal como na Sérvia, em Portugal é muito difícil fazer cinema e começar por fazer um primeiro filme. Que conselho darias aos jovens realizadores de cá?

Apenas posso dizer que devem seguir os seus instintos e ideias, e lutar por eles.

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