O cinema independente mundial continua a encontrar formas de se impor perante Hollywood e chegar ao público global. The Tunnel é a mais recente e original aposta nesse sentido – quer pelo modo como foi financiado, quer pela forma como será distribuído.
A produtora australiana Distracted Media (Carlo Ledesma, Enzo Tedeschi e Julian Harvey) decidiu vender os frames do filme, antes e durante a sua produção, a 1 dólar cada. Com este método já arrecadou mais de 22 mil dólares para rodar este filme de terror passado nos subterrâneos de Sydney.
Com milhares de co-produtores, The Tunnel será lançado gratuitamente em 2011 via BitTorrent, esperando que este verdadeiro exército de financiadores o partilhe pelo mundo e o leve ao maior número possível de espectadores.
O espírito colaborativo que tornou possível este projeto barato, mas ambicioso, no regime Found Footage (falso documentário, como em The Blair Witch Project e Paranormal Activity), está presente em toda a sua comunicação. O primeiro cartaz, lançado online há algumas semanas, mostra uma imagem composta pelos nomes das primeiras mil pessoas que compraram frames do projeto.
A história
The Tunnel decorre num labirinto de túneis e numa bolsa de água existente no subsolo de Sydney, Austrália. O filme acompanha Natasha e a sua equipa numa investigação sobre os verdadeiros motivos que levaram ao encerramento de um lago subterrâneo localizado sob a estação de St. James – espaço que, de ponto turístico, passou a zona interdita.
O c7nema falou com o realizador Carlo Ledesma, que aguarda ansiosamente a estreia de The Tunnel em 2011, sem saber até onde poderá levá-lo esta ousada forma de distribuição.
Entrevista
Como surgiu a história de The Tunnel? É mesmo real? Existem de facto coisas terríveis no subsolo de Sydney?
The Tunnel baseia-se em locais que existem debaixo da estação de St. James: um vasto sistema de túneis com um lago “acidental”, criado por uma plataforma abandonada que acumulou água da chuva ao longo dos anos. Este lago chegou a ser uma atração turística, mas foi encerrado quando se descobriu que continha toxinas perigosas.
Quando os argumentistas souberam disto, a primeira reação foi: “isto dava um cenário espetacular para um filme!” Daí à escrita do guião foi um passo. Foi a primeira vez que realizei um filme escrito por outros, e a experiência de dar vida a algo já no papel foi muito enriquecedora.
O que me interessava não eram tanto os elementos óbvios do terror, mas sim as personagens e o que elas me faziam sentir. Vindo da televisão e do documentário, identifiquei-me com Nat, Pete, Steve e Tangles – a equipa de reportagem que protagoniza o filme. Quis retratá-los não como “vítimas típicas de terror”, mas como pessoas reais, com imperfeições.
Este filme foi rodado no protocolo Found Footage. Porque decidiram apostar nesta linguagem já tão explorada em Hollywood?
A nossa equipa base (eu e os produtores/argumentistas Enzo Tedeschi e Julian Harvey) vem toda do documentário, por isso sentimos que poderíamos dar uma nova abordagem ao género.
Uma das nossas ideias foi afastar-nos da fórmula convencional, mostrando o lado de quem sobrevive. Um pouco como em Touching the Void, onde o verdadeiro terror reside não tanto na escuridão, mas nas reflexões dos sobreviventes sobre o que viveram.
Além disso, houve limitações práticas: nos túneis era impossível levar uma equipa de filmagem completa ou construir cenários. O Found Footage tornou-se a forma viável de concretizar o filme. Apenas a sequência do lago foi rodada em piscina.
O que devemos esperar do filme?
Um filme de terror, mas também um estudo sobre a condição humana e as nossas fragilidades. É sobre objetivos e até onde estamos dispostos a ir para os alcançar.
Foi difícil filmar na escuridão e em cenários tão complicados?
Sem dúvida. Não havia orçamento para iluminação, por isso trabalhámos com lanternas e capacetes dos personagens.
Optámos por filmar com várias câmaras, tirando partido das características de cada modelo:
- DigiBeta para o estilo de reportagem,
- RED para entrevistas cinematográficas,
- GoPros para simular câmaras de segurança,
- uma HD de mão para night vision,
- e Canon 5D/RED para a abertura, com ambiente mais cinematográfico.
Foi uma mistura de codecs que deixaria qualquer editor louco – mas como os nossos editores eram também os produtores, ninguém se queixou (risos).
Tudo foi feito no espírito Do It Yourself, com muita amizade e cooperação. Queríamos ser conhecidos não apenas como “os que financiaram um filme de forma original”, mas como “os que fizeram um grande filme”.
Como surgiu a ideia de vender frames e depois distribuir o filme gratuitamente via torrent?
A ideia foi do Enzo e do Jules. Estávamos impacientes e queríamos rodar o filme o quanto antes. Gostei muito do método: dá a cada fã a possibilidade de ser dono de uma parte única de um filme e, ao mesmo tempo, transforma-os em divulgadores do projeto.
O que esperam quando o filme for lançado na internet?
Que as pessoas o recebam como algo delas e o partilhem pelo mundo. Pensar que alguém em Portugal vai fazer download e mostrá-lo aos amigos é entusiasmante.
Para mim, como realizador estreante, é uma oportunidade incrível de ter o meu trabalho visto por milhões. Decidimos usar a internet a nosso favor – em vez de lutar contra ela, como muitos fazem.
Claro que esperamos também que quem goste do filme compre depois o DVD com extras, para podermos continuar a trabalhar.
Se um distribuidor vos quiser comprar o filme antes do lançamento via torrent?
A estreia via torrent é garantida. Uma promessa é uma promessa.
Têm receio que o filme fique conhecido apenas pela estratégia de distribuição?
O meu objetivo é que The Tunnel seja apreciado pelo seu conteúdo e não apenas pela forma como foi lançado. No fim, tudo depende da história.
Se inspirarmos outros projetos a seguir este caminho, já terá valido a pena.
O que pensa da atual vaga de remakes e do excesso de filmes Found Footage?
Não sou fã de remakes, mas gostei bastante de Let Me In (a versão americana de Let the Right One In). O Found Footage é ótimo como ferramenta acessível para novos realizadores, mas começa a soar a truque repetido. Espero que The Tunnel traga algo novo ao género.
A internet salvou ou destruiu o cinema?
A internet não destruiu nada. Mais do que nunca estamos ligados a ela. Negar esta tecnologia na hora de mostrar filmes é absurdo. Os cineastas deviam parar de associar internet a pirataria e começar a usá-la a seu favor.
Planos para o futuro?
Sim, o próximo projeto será muito diferente de The Tunnel — e não será em Found Footage.
Projeto de sonho?
Realizar um grande épico de ação passado nas Filipinas, de onde sou natural.
Conhece o cinema português?
Infelizmente, não muito. Tens alguma recomendação de filmes de género (ficção científica e terror)?
Que conselho deixa aos jovens realizadores?
Deitem fora a necessidade constante de autoafirmação. Se acham que são bons e sabem de cinema, façam filmes e provem-no.

