Entrevista a Shia Labeouf (Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme)

(Fotos: Divulgação)

Ao seguir este diálogo, imaginamos que será difícil não ficar contagiado com a energia que brota deste rapaz de 23 anos, destinado a fazer a diferença no seu meio. Tal como nos sucedeu a nós. Com a agravante de escutar a sua linguagem rápida e observar o seu estado de permanente adrenalina. Não é por acaso que o comparam a Tom Cruise, Tom Hanks e outros grandes talentos. Mas, apesar dos tenros 23 anos, Shia LaBeouf denota um conhecimento cru da sua posição neste negócio. Porque é de um negócio que se trata, diz-nos ele. O filme não podia ser mais a propósito: Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme, de Oliver Stone. Sim, é o namorado de Carey Mulligan, por quem se apaixonou durante a rodagem deste filme. Mas nada de perguntas pessoais, para não quebrar o embargo antes assinado…

Incomoda-o que o seu nome seja tantas vezes mal escrito?
Não quero saber. Há muitos nomes parecidos. Mas o meu apelido é mal interpretado porque a minha avó era uma lésbica poeta beatnik nos anos 50 e andava com o Ginsberg. Isto porque não queria ser encarada como “gay”, pois ninguém leria o que escrevia. A família dela não gostava nada. Ela era descendente dos cajuns da Louisiana, que eram homofóbicos. Por isso decidiu mudar-se para Venice Beach e andar com estes poetas beatniks. Mudou o apelido e é por isso que é tão estranho.

Quando aceitou fazer este filme, alguém o avisou do temperamento de Oliver Stone?
Eu não tinha medo do temperamento dele, apenas de não estar à altura. O que eu não queria era ser pior do que o Martin Sheen em Wall Street (1987). Queria ser melhor. Tinha medo de olhar o Josh Brolin e sentir que estava a derreter, ou de olhar para o Michael Douglas e não estar à altura. Para estes traders, o que os salva é a confiança; eles são hustlers. Vendem água a uma baleia, vendem-lhe algo que já tem por um preço que desconhece. Para isso é necessária muita confiança.

Até que ponto o seu conhecimento sobre Wall Street lhe deu essa confiança?
Eu era a pessoa com mais conhecimento no set. Sem qualquer dúvida.

Mesmo mais do que o Josh Brolin, que também é jogador da bolsa?
Junto dele senti-me como pertencendo a outra classe. Mas quem sou eu? Sou um puto que vem dos Transformers e ele é o Josh Brolin. E aquele ali é o Michael Douglas! Não tinha esse estatuto. Por isso tive de ser astuto e fazer com que viessem ter comigo a pedir conselhos. Chegámos ao ponto em que até os experts da equipa vinham falar comigo. Já estava preparado para fazer o exame final para ser trader. Já me ofereciam cargos. Muitos dos homens que estavam nesta profissão foram inspirados por Wall Street.

O que foi que mais o fascinou nesse meio?
Eu estava apenas a tentar sobreviver. A única forma de entrar no filme era preparar-me dessa maneira.

Chegou a pensar que poderia fazer a diferença, mudar alguma coisa?
Wall Street foi criada para financiar guerras. Tivemos uma guerra civil, entre o Norte e o Sul. E estas ações eram a forma de financiamento. O Sul apostava largamente no trabalho de escravos. Assim ganhavam dinheiro. Essa foi a ideia de criar capital. Na sua origem, o capitalismo é justo, cria trabalho e garante que as pessoas possam possuir bens ou conseguir investimento para iniciar um negócio. Mas existem sempre extremos. Demasiado socialismo é mau, tal como demasiado capitalismo é mau. Tudo o que é demais é mau.

Dinheiro a mais é mau?
Sim. Conheci muitas pessoas que viviam de números. Não se pode viver apenas disso.

Como foi trabalhar com Carey Mulligan?
Ela é a atriz mais talentosa com quem já trabalhei…

Oliver Stone comparou-o a um Tom Cruise jovem. Concorda?
Tenho enorme respeito pelo Tom Cruise, mas não me revejo nele. É a opinião do Oliver. É bom saber, mas também é um limite. Antes era comparado ao Tom Hanks, antes dele ao John Cusack. É engraçado. Parecia que tinham sempre de me enquadrar de alguma forma, pois eu não era ainda um protagonista. Agora que os meus filmes fazem dinheiro, sou o Tom Cruise…

Que estrelas de cinema admirava quando era adolescente?
Conheci o Jon Voight quando tinha 14 anos e ele apresentou-me à profissão. É um ator incrível. Mas o Dustin Hoffman é o meu preferido. Ponto final.

O que sentia quando apostava largo na bolsa?
Era como no casino. Embora a bolsa não seja apenas um casino. Há apostas educadas e científicas.

Consegue sentir essa adrenalina quando está a trabalhar como ator?
Sim, e também exorcizo os meus demónios. Conseguir gritar em plenos pulmões no meio de 50 homens aos berros e a fazer sinais é algo muito terapêutico.

É o que faz antes de uma cena?
Nem sempre. Depende do filme. Nos Transformers é quase commedia dell’arte, pois não falamos com ninguém. É pantomima. Depois saltamos para um filme como este, completamente diferente. Mas eu não sou nada, estou só a aprender. Tenho apenas 23 anos.

Mesmo assim, muitas pessoas não têm essa carreira numa vida inteira. Como se sente ao ter esse sucesso tão jovem — Transformers, Indiana Jones, Wall Street…?
Temos de pensar racionalmente. É movie business. Fiz um filme chamado Paranóia e fiquei ligado. Ninguém esperava. O Steven Spielberg viu-o e viu em mim algo que procurava. Foi uma decisão comercial. Não queria necessariamente o melhor ator, queria atingir um objetivo. Foi através de Transformers que conheci o Oliver. Ele precisava de financiamento e eu apareci como um trunfo. Eu sabia disso. Poderia ter escolhido Emile Hirsch ou Paul Dano. Há muitos atores da minha geração tão bons como eu. É inspirador ter figuras como Ryan Gosling ou Ben Foster, que puxaram o envelope e elevaram a fasquia. Isso faz-nos dar o nosso melhor.

É interessante como alguém da sua idade avalia a sua posição com tanta clareza…
Claro. Tive a sorte de o Steven me garantir cinco anos de trabalho (Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal). Eu sabia que não era por ser um grande ator, mas por captar a atenção do público. Ele explorou isso com fins comerciais. Ele é genial nisso. Tal como o Oliver, embora tenham visões diferentes. Ambos são génios. Para mim foi uma sorte, pois vinha de um período negro na minha vida. Precisava de lições que o Steven não me podia dar. Precisava de alguém com a brutalidade do Oliver.

Fale-nos do seu período negro…
Nunca soube beber como um gentleman. Só sabia beber como um louco. Era a minha raiz cajun. O meu pai era alcoólico, o meu avô também, e o pai dele também. Venho de uma família de alcoólicos militares incorrigíveis. Eu e o meu pai fomos a única geração de sobreviventes. Foi uma bênção encontrar o Oliver, porque também passou por momentos complicados. Ao Steven não podia contar isso. Ao meu pai também não, porque não o respeito. Adoro-o, mas não como pai. É mais como um amigo. Tenho relações intensas com os meus realizadores, morreria por todos eles. Oliver Stone é uma figura paternal para mim, como o meu pai nunca conseguiu ser.

Foi Oliver quem o convidou ou foi você que se propôs?
Ele escreveu-me uma carta, convidou-me ao escritório e depois desfez-me completamente. Brutalizou-me. Chegou a dizer: “Não te preocupes, o Tom Cruise não era ator antes de me conhecer”. É duro, mas eu precisava dessa brutalidade.

Depois desse “exorcismo”, vai procurar papéis semelhantes?
Não é plano. A minha sensibilidade está a mudar. Faço filmes que gosto de ver e com pessoas com quem gosto de trabalhar. Tudo pode mudar. Vou regressar ao trabalho e é aí que estou focado.

É o novo Transformers?
Sim, começo já na próxima semana. É o melhor guião até agora. Ninguém está a pensar em filmes maus. É um dos mais difíceis de fazer em Hollywood.

Publicado em Máxima online

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