Entrevista a Marc Price, o realizador que fez um filme de zombies com 45 libras

(Fotos: Divulgação)

No primeiro dia do Fantasporto 2010, aqueles que fugiram à abertura oficial e a Solomon Kane foram encontrar no pequeno auditório do Teatro Rivoli um filme britânico chamado Colin. Publicitado no cartaz como “o filme de zombies de 45 libras”, tinha já passado pela “Meca” cinematográfica que é o Festival de Cannes e recebido críticas muito favoráveis junto do mundo ligado ao cinema fantástico.

Feito sem dinheiro por Marc Price, um jovem que aproveitava folgas e tempos mortos no trabalho para escrever a história de um rapaz que se transforma em zombie e vagueia pelas ruas de uma Londres destruída e deserta, à procura de algo, Colin surpreende não só pela habilidade de fazer um filme com tão pouco, mas acima de tudo pela forma como consegue ser um produto original do ponto de vista narrativo e criativo. É um filme de zombies onde seguimos apenas uma das criaturas do início ao fim, e onde somos convidados a chorar nas revelações de uma surpreendente recta final.

Ainda fresco do sucesso comercial da exibição cinematográfica e das vendas do DVD no Reino Unido, Price prepara já um novo filme e uma vinda a Portugal para participar como orador na Training Ground do festival FEST de Espinho, no próximo mês de junho.

O jovem realizador falou sobre a produção de Colin, o sucesso do filme e como este mudou a sua vida.

O Colin custou apenas 45 libras a ser feito, tendo a produção recorrido a uma câmara digital MiniDV antiga e a software de edição gratuito. Foi isto intencional?
O único plano que eu tinha era contar uma história envolvente do ponto de vista emocional e, talvez, fazer com que alguns dos meus amigos soltassem uma lágrima ao ver um ator que eles conheciam da produção do filme. Eu não tinha muito dinheiro quando começámos a fazer o filme, por isso o orçamento minúsculo não foi uma opção. Durante os 18 meses em que fomos filmando e editando simultaneamente, acabámos sempre por usar os locais e acessórios que tínhamos disponíveis. Daí não termos gasto mais dinheiro. Isto já se tinha passado nas curtas que fiz. Nunca gostei da ideia de alguém olhar para um argumento que escrevi e decidir se presta ou não. Daí não ter procurado financiamento. Apenas peguei na minha câmara barata e em alguns amigos que sabiam atuar e fiz o melhor filme que conseguia.

Mas não sentiste, a certo ponto, que querias gastar mais dinheiro no filme?
Visto agora pode não parecer verdade, mas o facto de o filme ser assim barato não foi uma escolha de marketing. Se soubesse que ia funcionar como funcionou, tê-lo-ia feito ainda mais barato. As nossas despesas foram em coisas imbecis e evitáveis. Uma delas foi num pé-de-cabra, que poderíamos ter arranjado facilmente. A outra foi num pacote de cassetes MiniDV, porque me esqueci de levar para as filmagens… e na realidade acabámos por usar a que estava dentro da câmara porque ainda tinha espaço.

Na produção usaste o Facebook e o Myspace para encontrar e reunir pessoas para fazerem de zombies. Como funcionou este processo?
A imprensa exagerou bastante em relação a como usámos as redes sociais. Apenas as usámos para coordenar filmagens. Se o Myspace ou o Facebook não existissem, teria usado e-mail ou SMS para combinar com as pessoas. No caso do segundo, já teria gasto mais dinheiro…!

Colin é um filme de zombies visto do ponto de vista de um dos mortos-vivos. De onde veio este conceito?
Quando me mudei para Londres vivia com um artista de maquilhagem. Um domingo à tarde convidámos alguns amigos para socializar e acabámos por os maquilhar de zombies e pedir que andassem pela casa a fazer coisas de zombies. Eu filmei tudo para o meu showreel. Foi divertido e criou uma grande vontade de fazer um filme de zombies. Só um ano mais tarde pensei que queria fazer um filme visto do ponto de vista do zombie. Na altura não conhecia o I, Zombie do Andrew Parkinson. Entretanto já vi o filme, cheguei a falar com ele e percebi que Colin e I, Zombie não eram parecidos. O filme dele tinha mais em comum com The Fly, do David Cronenberg, do que com o meu. Foi um grande alívio – não queria sem querer fazer o mesmo filme.

Para Colin escrevemos “em torno” do que tínhamos à mão: bons atores e locais interessantes que conhecíamos bem e que dominávamos logisticamente. E sabíamos que podíamos construir o som em pós-produção, pois Londres é ruidosa a qualquer hora. Muitos dos locais onde filmámos eram extremamente barulhentos. Colin foi uma história que cresceu em torno do que tínhamos.

Deve o orçamento influenciar a criatividade?
Eu penso que a criatividade está sempre presente, independentemente do dinheiro. Para nós, a falta de dinheiro instigou um pouco a criatividade, especialmente na hora de mostrar as ideias. Fazer cinema é basicamente “resolver problemas”. Quer tenhas cem libras ou cem milhões, irás sempre encontrar problemas que têm de ser resolvidos com criatividade.

Esperavas que Colin chegasse onde chegou?
Esperava apenas que os meus amigos vissem e se esquecessem de que estavam a ver o Alastair Kirton e acreditassem que estavam a ver uma personagem, o Colin. Talvez fazer algum deles soltar uma lágrima. Nem para o mercado do no-budget estava a apontar.

Esperavas que o slogan “filme de zombies de 50 euros” funcionasse desta forma?
O orçamento não era uma estratégia de marketing. A nossa agente de vendas não queria mencionar o quão pouco gastámos, pois no geral os distribuidores olham com maus olhos para filmes low budget. Eu apenas quis ser sincero para que o público visse Colin com a predisposição certa. Só na altura de o distribuir é que outro produtor disse que poderia ser um bom chavão em termos de vendas. Com a crise mundial, haver um filme feito com quase nada a aparecer em Cannes seria uma excelente história. O que é pena é que apenas tentámos fazer o filme que queríamos, sem ir à falência. Quase todos os jovens cineastas que conheço fazem os seus filmes da mesma forma. Preferia que o meu não fosse conhecido só por isso.

Cannes e o sucesso mudaram a tua vida?
Cannes foi uma experiência espetacular. Amigos meus ligaram-me a dizer que me tinham visto na TV e nos jornais. Ter um filme feito no meu quarto a ser exibido em cinemas e lançado em DVD no Reino Unido foi uma verdadeira loucura. Mas não mudou a minha vida – continuo a ser um realizador com pouco dinheiro a tentar fazer-se à vida.

Se George A. Romero inventou os zombies nos anos 60, os ingleses reinventaram-nos nos anos 2000 com 28 Days Later e Shaun of the Dead. Qual é a tua opinião sobre este ‘boom’?
Talvez por ser britânico, nunca notei muito o quanto o meu país trouxe ao género. Quando vejo um filme como Moon, penso “que grande filme” e não penso que é britânico. Sempre fui fã do Danny Boyle e adorei 28 Days Later, e fiquei surpreendido com a má reação da crítica a Sunshine. Mas sempre vi estes filmes como espetaculares, não como “britânicos”.

O que devemos esperar do teu novo filme, Thunderchild?
É baseado na equipa de um bombardeiro Handley Page Halifax, numa missão na Europa Continental durante a Segunda Guerra Mundial. Esta equipa de sete homens encontra criaturas monstruosas que tomam conta de uma das suas bombas.

Quando fizeste Colin trabalhavas como telefonista numa empresa de transportes em Londres. Como mudou a tua vida?
As coisas não são muito diferentes. Estou a preparar Thunderchild e continuo a trabalhar lá. Já tenho atores, argumento, locais de filmagem e alguns efeitos visuais prontos. É só resolver detalhes para avançar. A única pressão que sinto hoje é a de fazer um bom filme. Espero que seja sempre assim.

Qual a tua mensagem para jovens realizadores?
Qualquer um que tenha uma história deve contá-la o melhor possível, no meio mais adequado. Se consegues financiamento, ótimo. Mas não é preciso muito dinheiro quando tens as pessoas certas envolvidas. Fazer o primeiro filme depende de circunstâncias únicas. Kevin Smith tinha as condições certas para Clerks, Rodriguez para El Mariachi, Tarantino para Reservoir Dogs, Peter Jackson para Bad Taste. As minhas levaram-me a fazer Colin. A principal ideia é: tenta fazer o teu filme. Se falhares, vais aprender tanto que o próximo será melhor. Nunca desistir.

Qual te parece ser o papel dos sites de cinema, como o c7nema?
São tão importantes, senão mais, que as revistas. Influenciam mais gente e são um meio dinâmico. Para um filme como Colin, os sites foram fantásticos. Encontrar público é difícil, especialmente com pouco dinheiro. A internet torna isso possível, portanto o papel dos sites no cinema indie é vital.

Pensas que a internet é o futuro em termos de produção cinematográfica?
É um meio excelente para coordenar produção. O produtor do nosso próximo filme está em Mumbai e temos comunicado online. Ao nível do grande cinema, lembro o diário online através do qual Peter Jackson trabalhou a banda sonora de King Kong com James Newton Howard. Eles apenas se conheceram na estreia em Nova Iorque.

Marc Price estará presente no FEST Training Ground, em Espinho, no mês de junho. Colin está disponível em DVD no Reino Unido.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/f1l8

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