7 Dias em Havana – Entrevista com Elia Suleiman e Gaspar Noé

(Fotos: Divulgação)

Sim, são os dois realizadores ‘outsiders’ do projeto 7 Dias em Havana, obra que estreou ontem (dia 13) em Portugal. Numa entrevista em que estão iguais a si próprios. Como, aliás, o seu cinema.

É este o registo gravado da entrevista de grupo com o palestino Elia Suleiman e o francês (nascido na Argentina) Gaspar Noé a propósito da exibição no festival de Cannes de 7 Dias em Havana. Os outros são Laurent Cantet, Julio Medem e Benicio Del Toro, na sua estreia como realizador. Numa altura em que o filme chega finalmente ao nosso território, recordamos esse encontro. Mas há que dizer algo: do grupo de realizadores presente, tanto Suleiman como Noé foram aqueles que melhor interpretaram uma ideia de cinema esclarecida, sem abandonar o seu estilo reconhecível. Evitando o lugar comum, o cartão postal ou a curiosidade de peça de mosaico para assentar neste tapete sobre a capital de Cuba. Talvez por isso seja o grupo mais outsider do conjunto. Mais uma ideia para apreciar os seus filmes. Não que os outros não tenham o seu interesse. Mas Noé e, sobretudo, Suleiman é outra coisa. Um observador, sibilino, desintegrado; outro visceral, obsessivo e alucinado. Adivinhem de quem falamos.

Elia Suleiman

Elia, o seu filme é o mais outsider de todos. Como chegou a este projeto?

 Eu não tinha qualquer ideia sobre este projeto de 7 Dias em Havana. Apenas me coloquei dentro das possibilidades e limitações de um guião de 24 horas. Dito isto, esclareço também que não tinha qualquer interesse em cruzar histórias ou personagens com os outros filmes. Algo que chegou a ser sugerido e muito defendido pelos produtores que pretendiam que existisse esse cruzamento.

Pessoalmente recusei essa ideia. Mas eu não acreditava nessa ideia, bem como nos cartoons que colocaram no final. Tentei apenas cumprir o projeto o melhor do que podia e fazer um bom filme. 

Provavelmente gostaria de visitar Havana, presumo…

Nada disso. Havana não me atrai nada. Nem sequer compreendo o seu posicionamento de acordo com a sua natureza exótica, ou a ilusão criada pelo Ocidente. São preconceitos ampliados por um mercado de escravos sexuais. Confesso que isso não significa nada para mim. Eu nem sequer sabia muito sobre Cuba. A única coisa que conhecia de Cuba era Castro, e não muito mais, apesar de não me querer reduzir a essa ideia. Mas não era muito mais.

Não gosta de Cuba, é isso?

Eu nunca teria escolhido Cuba. Nem para férias. Na verdade, a minha ligação à América Latina é muito fraca. Num lado mais positivo, foi um projeto que me permitiu duplicar o silêncio que normalmente têm os meus filmes (risos)…

Mas porque decidiu então fazer o filme?

Não veja as coisas assim. Eu não disse que não. A verdade é que não me sentia seguro. E eu não sou um aventureiro. Por isso, quando me levantava, o que fazia? Acabei por me aborrecer. Mas acabei por agradecer este desafio. Até porque foi algo que teve um eco mais profundo e no tempo. Por isso recordo esses momentos com alguma ternura.

O que mais o surpreendeu em Havana?

Poderá pensar que eu cheguei lá com uma capacidade intelectual sobre esse lugar, mas não é o caso. O que me aconteceu é que fiquei com medo. Senti-me só. Queria voltar para casa. Queria o meu dinheiro de volta. Queria uma refeição decente, um quarto decente. Não posso dizer que apreciei o desconforto ou a sensação de alienação que senti nos primeiros dias. Não fiquei deslumbrado pela cidade, nem por esse folclore.

E porquê?

Eu não preciso de uma nova Gaza. Não é disso que estou à procura. Nunca me deslumbraram as Ramallahs deste mundo, de lugares bloqueados com grande ambiente nocturno, etc. No caso de Cuba não se compara a Ramallah, pois tem uma imensa herança cultural com diversas camadas. Mas não deixa de ser exótica e sensacionalista. Neste caso não gostei de ser turista. Quatro dias depois não entrei no avião a pensar que queria fazer este filme. Nada disso. Senti-me ambivalente e a desejar uma boa refeição. Dito isto, tenho acrescentar que algo se alterou em mim. Havana alterou não só a forma como vejo o mundo, mas também como me vejo a mim próprio. 

Por certo, isso afetou a forma como partiu para o filme…

Eu fiquei extremamente alerta e cauteloso, por que não queria cair em nenhum lugar comum. E porque nunca poderia presumir que conseguiria alcançar o conhecimento desse ligar em escassos dias. Por isso perguntei-me: quem sou eu? Quem sou eu a visitar este lugar? E decidi olhar para dentro de mim próprio, em vez de olhar para fora. Foi então um processo de interrogação interior. 

E que desafios encontrou?

Para mim, o posicionamento da câmara foi o mais importante. Ou seja, como posso estar eu o mais próximo e distante? Tentando estar longe das presunções de que falei há pouco. Tentei criar um barómetro sobre a sinceridade de quem somos em relação aos outros seres humanos. Para isso, Cuba foi um bom teste.

Perdoe-me se estou incorrecto, mas parece-nos ver algo de Jacques Tati na sua personagem. Subscreve esta visão?

Não, porque não sou referencial nos meus filmes. Apenas me limito a tirar notas no meu bloco. E depois uso uma certa imagem, um certo som. Sem um tema propriamente dito. Quando esse bloco já está cheio há necessidade de perceber se existe uma imagem e uma história. O resto é muito trabalho para perceber se essas ideias funcionam, se têm graça ou não. É esta a natureza do meu trabalho. Mesmo quando sinto alguma melancolia. Isto é cinema.

 Gaspar Noé

No caso do seu filme, dá a sensação de não estarmos em Cuba, mas sim em África…

É verdade. Eu senti o mesmo quando estive em Cuba. Às vezes parecia que estava em África. Aliás, a presença de África é muito mais presente do que esperava. Em todos os lados da sociedade existe magia negra e rituais africanos com sacrifícios de animais. Só que eu não queria matar vinte frangos só para fazer um plano. Por isso, o produtor decidiu antes matar uma cabra… (risos) Mas eu decidi fazer a coisa mais suave. Isto apesar de nos meus filmes estar habituado a fazer coisas para maiores de 18 anos.

Refere-se à cena entre as duas raparigas?

Sim, não podia fazer uma cena de sexo entre as duas. Elas não estavam nada interessadas nisso. Por isso, acabámos por usar um tipo, um curandeiro com uma faca grande. De tal maneira que não sabemos se vai haver uma violação ou um assassínio. Mas no final percebemos que acabei por filmar um ritual de purificação.

Chegou a ver algum ritual verdadeiro?

Sim, vi. E são assustadores. Porque toda a gente acredita nisso. E acaba por contagiar-se aos outros. O transe coletivo acaba por ser interessante. Acabamos por sentir a presença da magia.

Quando partiu para o projeto tinha alguma ideia de história? 

A história está na dança deles, nos beijos das duas miúdas e o ritual que se segue. Mas é inventado, ainda que baseado nesses rituais. 

Portanto não foram as histórias propostas no início, pois não?

Não, não. São as minhas obsessões. E como não reconheci as minhas obsessões nas outras histórias, por isso…

Os produtores não recearam o vosso estilo mais ‘outsider’?

O que receavam era que nós nos puséssemos a andar de Havana… (risos)

O Elia quis evitar o lado mais turístico e cartão postal. Partilha dessa visão?

Eu queria filmar aqueles jovens a dançar assim… Poderia ser em qualquer lugar, mas só em Havana seriam assim tão lascivos (risos).

Como vai ser o seu próximo projeto? Já está a escrever?

Não, eu não gosto muito de escrever. Assim que arranjar dinheiro para a pré-produção começo a fazer o casting. E deve acontecer em breve. 

Com o que poderemos contar?

Vai ser um filme em inglês, rodado em França e com jovens a fazer sexo.

 
 
 
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