Um dos grande destaques da semana dos realizadores é, sem dúvida, o búlgaro ‘Avé’ – vencedor do prémio Fipresci em Varsóvia e presente na semana da critica (em competição pela Câmara D’Ouro) em Cannes. A protagonista, Angela Nedialkova, a misteriosa Avé do título, conquistou os corações do públicos dos festivais de cinema europeu sendo apontada como um dos grandes novos talentos a emergir nos próximos anos na Europa de Leste.
Kamen é um estudante de arte que precisa de atravessar a Bulgária para ir ao funeral de um amigo. Enquanto pede boleia numa estrada, uma misteriosa rapariga chamada Avé começa a pedir boleia ao lado dele. Os dois jovens acabam por se juntar na viagem, isto apesar de Avé ser sempre provocadora e algo descontrolada, com uma tendência para arranjar problemas.
Esta viagem pela velha Bulgária pelos olhos de dois jovens marca a estreia na realização de Konstantin Bojanov, após uma série de curtas-metragens e documentários.
O c7nema falou com o autor búlgaro antes da estreia portuguesa do filme.
Escreveu «Avé» com o Arnold Barkus. Como nasceu a ideia?
Em 2006, eu e o Arnold Barkus estávamos a escrever o argumento de um filme que eu iria realizar e que é inspirado no «Crime e Castigo» de Dostoyevsky, agora passado no Brooklyn (Nova Iorque) contemporâneo. Quando nos apercebemos que o projeto era gigantesco e demasiado ambicioso para um primeiro filme, decidi escrever algo mais pequeno e pessoal, inspirando-me em dois eventos do passado que alteraram a minha vida; o suicídio de um dos meus amigos mais próximos e o meu encontro com uma adolescente em fuga.
«Avé» conta a história de Kamen e Avé, dois estudantes frágeis que imediatamente após se conhecerem são obrigados a confrontar a morte, e mais tarde o amor, pela primeira vez nas suas vidas. E enquanto «Avé» é uma mentirosa compulsiva, que vive num mundo imaginário e que constantemente inventa novas identidades, o Kamen é o seu antípoda – uma personagem ao estilo dos trabalhos de Holden Caulfield – pois nunca interessam as repercussões. Ele está destinado a dizer a verdade da maneira que ele vê as coisas.
Como foi criar uma personagem tão complexa como ‘Avé’?
Avé é uma personagem compósita que, em larga escala, carrega o carisma e qualidades enigmáticas do seu protótipo. Acredito que a maioria de nós tem o seu próprio Avé, alguém que já conhecemos e que deixou uma forte marca na nossa vida. Sinceramente espero que a audiência possa apaixonar-se pelo seu charme, tal acontece com o Kamen.
Angela Nedialkova está fantástica como protagonista. Como a descobriu?
A Angela veio às audições e concorreu a um dos pequenos papéis secundários do filme. Eu realmente gostei dela e convidei-a a vir no dia seguinte para a audição ao papel principal, mas ela não apareceu. Eu tinha passado quase um ano a realizar o casting para o papel de Avé, e tinha uma lista de quatro raparigas com quem já tinha ensaiado muitas vezes, mas que não me deixavam completamente satisfeito – para mim faltava alguma coisa. Algo não estava a soar verdadeiro. Como tal enviei o diretor de casting à procura da Angela, apenas sabendo que ela andava numa escola de arte em Sófia [Bulgária]. Na sua escola ninguém a via há quatro dias e ninguém, nem mesmo o reitor, fazia ideia onde ela andava.
Uns dias mais tarde, encontramo-la num café ao pé de nós. Organizámos uma nova audição, mas ela não apareceu de novo. Eventualmente, quando estávamos a procurar locais para a cena na escola de arte, eu encontrei-a num corredor. Ela veio com uma desculpa que algo de terrível tinha acontecido à sua mãe no dia anterior e por isso teve de faltar à audição. Até hoje não sei se o que me disse era verdade ou mentira, mas eu ofereci-lhe o papel na hora. Toda a gente à minha volta me disse que eu era louco em contratar alguém novo e que praticamente nunca tinha atuado a apenas dez dias antes de começarmos a filmar. Mas eu acreditei na Angela e mantive a minha decisão.
O «Avé» tem sido um grande sucesso nos festivais mundiais. Esperavas isso?
Não, não esperava. Francamente não tenho tido muito tempo para refletir no sucesso do «Avé» nos Festivais, pois logo após acabar o filme, comecei a trabalhar em novas ideias e argumentos.
Tem algum novo projeto?
O Arnold Barkus e eu voltámos de novo a trabalhar na nossa história inspirada no «Crime e Castigo» e estamos perto de completear o guião. Espero que este seja o meu próximo filme.
Conhece o Fantasporto? Alguma vez esteve em Portugal?
Conheço certamente o Fantasporto e estou muito orgulhoso de o «Avé» ter sido escolhido para a semana dos realizadores. Estava muito contente por poder participar no festival, mas infelizmente tive de cancelar os meus planos pois tinha obrigações profissionais em Nova Iorque.
Há muitos anos atrás, quando estudava em Londres, visitei Lisboa e apaixonei-me pela cidade. Sempre pensei – um dia eu podia viver aqui.

