Fantasporto 2012: Entrevista a Adam Rehmeier (realizador do filme banido no Reino Unido, «The Bunny Game»)

(Fotos: Divulgação)

Depois do fantastico «Lobos de Arga», o Grande Auditório do Rivoli irá gelar para assistir a «The Bunny Game», um filme de tortura sexual que irá horrorizar os espectadores mais sensíveis. Sinal que o Fantasporto não tem medo – já no ano passado o filme-choque «A Serbian Film» marcou presença no festival portuense.

Depois de «The Human Centipede 2 (Full Sequence)» ter sido banido do mercado britânico pela British Board of Film Classification (BBFC) foi uma questão de semanas até que outro filme fosse alvo da mesma “censura”. «The Bunny Game» foi banido em Outubro de 2011 por “erotizar a violência”.

Segundo a BBFC, «o abuso físico e sexual de uma mulher indefesa, tal como a utilização sádica do prazer que o homem tem derivado a isso» foram os grandes responsáveis pela recusa da classificação. Para além disso, «a nudez frequente da mulher tende a erotizar o que é apresentado, enquanto aspectos do filme, como a falta de explicação dos eventos e o tratamento estilístico, podem estimular os espectadores a partilhar o prazer que o homem tem no sofrimento da mulher e na sua humilhação».

Nesta obra seguimos uma prostituta (Rodleen Getsic) que passa fome e é capaz de fazer tudo por algum sustento. Depois de uma boleia com um camionista (Jeff Renfro), Bunny é abusada por este de diversas formas, que passam por violência sexual e tortura.

O c7nema falou com o realizador americano Adam Rehmeier, realizador de «The Bunny Game», que avisou os espectadores do Fantasporto que «Bunny» não é uma experiência agradável e que a sua filmagem foi tão intensa e negativa que chamou a atenção de espíritos malignos. 

O que devem os espectadores do Fantasporto esperar do «The Bunny Game»?

Os espectadores devem esperar ser fisicamente drenados por «The Bunny Game». Foi desenhado para ser uma série impiedosa de murros no estômago, um “blitzkrieg” de pesadelos visuais e sonoros. Este filme não é para os estômagos fracos nem para espíritos fracos. Não é um filme pipoca. É apenas para fãs “hardcore” de terror e para curiosos.

Geralmente, há pessoas a sair da sala a correr durante a sua exibição.

O filme foi recentemente banido no Reino Unido… Como vês isto? Prejudicou o filme ou apenas lhe trouxe mais atenção? 

Tenho sentimentos mistos em relação à posição do BBFC em banir o meu filme. Primeiro, e antes de mais, magoou-me ter o trabalho banido porque significa que perdi o contrato de distribuição que já tinha com a fantástica Trinity X no Reino Unido.

Pessoalmente não penso que o filme merecia ser banido. Sim, é “hardcore” e é chocante, mas penso que ser classificado para maiores de 18 teria sido a solução razoável. O filme não é para crianças – é um conto moralista (cautionary tale) baseado na realidade. O BBFC deixa imensos filmes perturbadores passarem e serem distribuídos através de lhes fazer pequenos cortes. 

Portanto, apenas posso ver o facto de terem banido «The Bunny Game» como um ataque pessoal. A justificação que deram foi pouco clara e não fazia sentido. Diziam que o filme “erotizava” a violência, o que é uma coisa absurda. Em todos os festivais e exibições que o filme esteve no ano passado, nunca apareceu ninguém no Q&A a dizer que o filme “erotizava” a violência. Penso que a única “erotização” do filme aconteceu com os membros do BBFC.

Dito isto, teres o teu filme banido pelo BBFC é uma espécie de medalha de honra. Significa que o filme funcionou, fez o que era suposto e que se meteu debaixo da tua pele. Não é um filme “soft”, é extremo e perigoso. O ser banido pelo BBFC trouxe-lhe mais atenção é claro, e houve muita gente no Reino Unido a importá-lo através do distribuidor escandinavo Njuta.

 Tem havido muitos filmes de terror com problemas com a censura no Reino Unido, como «Human Centipede II» (banido) e «A Serbian Film» (alvo de inúmeros e pesadíssimos cortes). Parece-te que os filmes de terror são, nos dias de hoje, mais sociais e políticos que a maioria dos filmes de intervenção?

Não tenho a certeza. Ainda não vi o «Human Centipede II» nem o «A Serbian Film», mas sei o que acontece neles que provocou a polémica. Quando fizemos o «The Bunny Game» não estávamos a fazer um comentário social, estávamos apenas a contar uma história credível e aterradora, que é mais credível e assustadora quando passada na marginalidade da nossa sociedade do que numa cabine nos bosques ou numa casa assombrada. Estou cansado de filmes de terror que vão porgéneros e categorias. Qual é o objetivo?

O «The Bunny Game» era a nossa tentativa de fazer algo que fosse mexer contigo, aumentar-te a tua pulsação. Existe mais verdade no nosso filme que em qualquer filme “franchisado” dos últimos dez anos.

Quão intenso foi filmar as sequências de violência?

Filmar violência realista é sempre intenso e nunca divertido. Foi necessário para este tema. Cada ator envolvido percebia no que estava metido e percebia que ia ser uma experiência intensa para conseguirmos fazer o filme.

Não foi uma produção típica. Não há equipa técnica, portanto quando fazíamos as cenas violentas era apenas eu e os atores num sito abandonado qualquer, sem ninguém por perto.

Foi uma experiência com uma energia muito negativa. Acredito que várias entidades não físicas estiveram presentes enquanto filmámos. Senti algo malvado lá. Havia falhas na eletricidade. Havia algo lá, atraído pela violência e pelo comportamento destrutivo, que dançou em torno de nós enquanto filmámos.

Tens algum novo projeto?

«Jonas» é o meu próximo filme e é uma colaboração com o Gregg Gilmore – é uma espécie de sequela de «The Bunny Game». É a luz para a escuridão de «Bunny». Os filmes serão opostos totais e é suposto serem vistos seguidos como uma espécie de “double-feature”. Depois de «The Bunny Game» fazer o teu coração bater mais rápido, «Jonas» é suposto abrandá-lo até à realidade. O filme segue Jonas Knuckolls, um homem que vai de porta em porta em Los Angeles espalhando uma mensagem importante de Deus, após uma intensa experiência religiosa. 

Foi difícil para a Rodleen Getsic sofrer tudo aquilo que «Bunny» sofreu?

«The Bunny Game» foi um desafio para a Rodleen, mas ela adotou a mentalidade de uma atleta preparando-se para uma competição. Ela fisica e mentalmente preparou-se durante vários meses antes de filmarmos. Ele meditava antes e depois da rodagem. Ele inclusivamente deixou-se passar fome nos 40 dias antes de filmarmos. As batatas fritas que a vemos a comer na cena inicial foi a primeira comida sólida que consumiu em mais de um mês. Consegue-se ver a felicidade nos olhos dela! 

 Vais estar no Fantasporto?

Adorava ir ao Fantasporto, nunca estive em Portugal. Infelizmente, estou a filmar nos EUA e não vou conseguir ir. Gostava de ir no futuro, já vi coisas fantásticas por parte do Jay Slater e do Julian Richards (dois convidados habituais do Fantas)!

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