Entrevista a Sergei Loznitsa, por Paulo Portugal

(Fotos: Divulgação)

Um dos cineastas ucranianos mais relevantes da atualidade – que mereceu em janeiro passado uma retrospetiva na Culturgest, em Lisboa – mostrou a sua obra documental no Festival de Cinema Documental de Salónica. O c7nema não quis deixar de o questionar sobre a singularidade do seu trabalho. Mesmo por email, a comunicação foi tão ilustrativa como as suas imagens. Serguei é um realizador com um olhar perspicaz e, até mesmo, insólito, mas com vontade de passar a sua ideia de cinema.

Recentemente, os dois estivemos no Festival de Salónica, ainda que eu no júri (e por isso com pouco tempo) e você como homenageado pelos seus documentários. Como foi a experiência grega?

Gostei muito do Festival de Salónica. No último ano visitei uma dúzia de festivais em diferentes continentes e é óbvio que o sucesso dos certames depende principalmente do seu diretor, que tem de ser o coração e a alma. O líder do Festival de Salónica, Dimitri Epides, é um homem muito inteligente e um grande organizador. As sessões estavam cheias, as discussões dos filmes foram apaixonadas e, acima de tudo, os gregos foram muito calorosos na receção. Que mais podia esperar?

Não era suposto ser realizador, mas depois de estudar engenharia e matemática escolheu a câmara. De que maneira a análise e o método matemático o ajudaram a chegar à arte?

Acredito que todos os artistas deviam estudar matemática. Afinal de contas, a composição artística é baseada no cálculo e na precisão, e é impossível criar uma estrutura funcional – visual ou musical – sem conhecer as regras da matemática e as leis da física.

Recebi a minha segunda educação na VGIK, a Escola Russa de Cinema, em Moscovo. Licenciei-me como realizador. Decidi estudar cinema após trabalhar dois anos como engenheiro em Kiev. Esta foi uma escolha que fiz por opção e nunca me arrependi ou duvidei dessa decisão.

Sentiu algum tipo de contradição?

Naquilo que me diz respeito, sinto que, ao ter ganho o conhecimento das ciências exatas, precisava explorar o outro lado – i.e., as Artes e as Humanidades. Desejei desenvolver a outra metade do meu cérebro e ter uma perceção do mundo numa dimensão diferente.

Houve algum filme em particular que despoletou o processo?

Sempre gostei de cinema e sempre vi filmes desde pequeno. Acho que o primeiro filme que me deixou uma grande impressão, quando eu pensava em ser cineasta, foi Le Bal, do Ettore Scola.

Em Portrait conseguiu algo novo ao captar a quase imobilidade das faces – com belas imagens que fazem a ponte entre o cinema, a fotografia e a pintura. Que procurava na subtileza desses momentos?

Quando comecei a trabalhar em Portrait, cheguei com a minha máquina fotográfica e comecei a tirar fotografias das pessoas. Eram pessoas normais do campo, que não estavam habituadas a câmaras e a ser fotografadas. À medida que iam posando para mim, algo peculiar aconteceu: quando paravam em frente da câmara, parecia que se ausentavam do tempo e da realidade. Este foi um momento de puro cinema, e fiquei fascinado com a experiência. Eu queria captar esse estado em filme.

A maneira como usa o som é muito pessoal. O som das multidões e a composição sonora para os seus filmes parecem funcionar como uma extensão das imagens. Concorda?

O tipo e o estilo de som que uso em cada filme correspondem a uma ideia sobre a obra (o mesmo se pode dizer da imagem, claro). Primeiro vem a ideia, e depois olho para a forma e estrutura que podem representar uma ideia particular. O som é uma ferramenta muito poderosa e, naquilo que me diz respeito, é tão importante como a imagem. Dependendo da ideia que temos para um filme e do impacto que queremos alcançar, som e imagem complementam-se, melhoram o desempenho um do outro e até se podem contradizer e colidir.

Por exemplo, os princípios do design sonoro de Blockade e de Review são bastante diferentes. Em Blockade, eu e o meu designer de som, Vladimir Golovnitsky, tentámos criar a atmosfera de completa autenticidade – o som dos passos na neve, as vozes na multidão, os prédios em chamas, os elétricos atravessando as ruas destruídas. Tudo teria de soar autêntico, de maneira a que o espetador se sentisse imerso naquele espaço e tempo.

Em contraste, em Review, o meu conceito para o design sonoro era diferente. Eu queria ver como o som funciona na propaganda. Usámos diferentes níveis de som, desde o muito alto, quando as imagens eram particularmente pesadas e carregadas ideologicamente, para sons muito mais brandos, quando se mostravam cenas do dia a dia. Também usámos sons em mono e em estéreo, e uma voz-off que surge em diversos fragmentos do filme – mais uma vez para realçar o efeito da propaganda.

Como foi a recente experiência em Portugal com a retrospetiva em Lisboa – uns anos depois de Life, Autumn ter recebido um prémio no Festival de Curtas de Vila do Conde?

Amo Lisboa e é sempre um grande prazer visitar Portugal. Estou muito agradecido ao IndieLisboa e ao sr. Nuno Sena, diretor do festival, que organizou a retrospetiva em janeiro de 2011. O público foi maravilhoso e fiquei positivamente surpreendido de ver tanta gente a assistir aos meus documentários. As discussões após a exibição das obras foram animadas. Acho que existe uma cultura muito especial do cinema documental em Portugal, e os espetadores estão muito educados e genuinamente interessados no género documental contemporâneo.

Que tipo de conhecimento tem do cinema português? Há algum realizador que o impressiona nesse campo?

O grande Manoel de Oliveira! Admiro a sua arte e o seu espírito. Tive a honra de lhe ser apresentado há uns anos. No que diz respeito à nova geração de cineastas, eu diria o Pedro Costa.

Que cineastas, em geral, mais admira? E na Rússia?

A lista seria enorme. Vamos começar pela letra B, por exemplo: Bresson, Bergman, Buñuel, Barnet. E se perguntar por cineastas russos, dos que trabalham atualmente, eu diria: Alexey German, Aleksandr Sokurov e Kira Muratova.

Após um longo período dedicado a documentários, My Joy abriu o caminho para a ficção, que terá continuidade com In the Fog. Apesar da distância temporal, existe algum tipo de sequência entre o destino dos dois partisans na guerra e as personagens em My Joy?

O meu próximo filme, In the Fog, é baseado numa obra do escritor bielorrusso Vassily Bykov. A ação desenrola-se na Bielorrússia ocupada pelos nazis na 2ª Guerra Mundial. Aí, um homem é falsamente acusado de ser colaborador e dois partisans vêm da floresta para o matar, por pura vingança. Este é o ponto de partida da narrativa. É a história de um homem que tem de fazer escolhas morais em circunstâncias imorais.

E apesar de se passar na 2ª Guerra Mundial, o filme mexe em questões existenciais que não estão confinadas a uma época ou a uma nação em particular. Ao mesmo tempo, pode-se dizer que me preocupo muito com o destino da Rússia e penso que a sua turbulenta história recente deve ser focada, examinada, estudada e entendida. Se não lidarmos com o passado, e não tomarmos conhecimento dele, a história repete-se num círculo vicioso.

Tem mais projetos para documentários? Pergunto isto porque o realismo está sempre presente no seu trabalho.

Sim, claro, vou continuar a fazer documentários. De momento estou na pós-produção de uma curta-metragem documental intitulada Letter. Estará terminada no final do verão.

Podemos esperar encontrar o filme na edição de 2012 do Festival de Cannes?

Qual deles? O documentário ou a obra de ficção? Se tudo correr de acordo com o planeado, iremos filmar In the Fog no próximo outono, seguindo-se a pós-produção no inverno. Espero ter o filme terminado no final da primavera de 2012.

Tenho uma grande equipa de artistas a trabalhar comigo: o diretor de fotografia Oleg Mutu, da Roménia; o diretor de som Vladimir Golovnitsky, da Bielorrússia; o diretor artístico Jurgis Krasons, da Letónia; a responsável pelo guarda-roupa Dorota Roqueplo, da Polónia. Juntos temos uma visão do que pretendemos atingir e estamos todos prontos a começar.

 
 
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