Entrevista a Rodrigo Areias, candidato a prémio em Karlovy Vary com ‘Estrada de Palha’

(Fotos: Divulgação)

Foi há mais ou menos um ano que o c7nema falou com Rodrigo Areias sobre a estreia de “Estrada de Palha» no Curtas de Vila do Conde. Agora, que o filme estreou comercialmente em Portugal e discute na República Checa a secção competitiva, o cineasta português voltou a falar-nos da sua obra.


O western lusitano “Estrada de Palha”, acompanhado com a fantástica banda sonora de The Legendary Tigerman e Rita Redshoes, foi aplaudido com entusiasmo no festival de Karlovy Vary, na República Checa, onde passou em competição numa sala com mais de um milhar de espectadores. Ao longo dos dias têm sido bem visível a adesão dos jornalistas à segunda longa do jovem realizador de Guimarães. Um entrevista com o realizador que comenta ainda a nova Lei do Cinema.

Como surgiu a ideia de fazer este ‘western’ atípico?

Sempre quis fazer um western, isso faz parte do meu crescimento enquanto espectador de cinema. A ideia era que o personagem principal fosse influenciada pelo género do que o próprio filme.

Têm muita força os intertítulos com as citações do (Henry David) Thoreau a partir do seu manifesto ‘Desobediênca Civil’. É algo com uma grande actualidade para os dias em que vivemos…

Eu quis fazer o filme em várias camadas. Temos uma primeira narrativa muito simples, de um tipo que vem para vingar a morte do irmão; depois um segundo nível com os intertítulos; e um terceiro nível a ligar tudo isto. Há muitos pormenores para descobrir quem vir o filme mais do que uma vez.

Onde foi filmado?

Fizemos o percurso da Serra da Estrela até ao alto Alentejo. Depois seguimos pelo Marvão e Castelo de Vide.

E quanto custou?

Nós recebemos 50 mil euros.


Como foi possível fazer o filme com esse dinheiro?

Significa que ninguém recebeu dinheiro. Com uma equipa mínima de oito pessoas. É impensável filmar todos estes quilómetros, com animais, roupas e armas de época, durante três semanas e meia. Algo que não é dignificante.

O Vítor Correia é incrível…

O Vítor passou a ser um herói. E eu identifico-me muito com ele. Identifico-me com o seu lado mais radical. Ele tem um lado que é de um outro tempo. E isso é muito intenso. Está espantoso na cena de abertura do filme, na Lapónia, no norte da Finlândia, a subir uma montanha com um metro e meio de neve. Quando chega ao cimo estava quase em hipotermia. Tinha gelo até nas cuecas… Os finlandeses alucinaram com a violência daquela cena.

E qual a intenção de usar o Ângelo Torres apenas a falar crioulo?

No séc XIX a nossa relação era colonialista e só com um tom de cinzento. Éramos os colonos e não queríamos pensar do valor do esclavagismo. Então temos este negro com um fraque, uma cartola, mas todo esfrangalhado, pois está preso há muito tempo. É claramente um tipo não criminoso preso apenas por ser diferente, por ninguém conseguir falar a língua dele. E essa é a forma de encurralarmos aquilo que é diferente.

O que está por detrás da escolha do título ‘Estrada de Palha’?

Há duas razões: o livros ‘A Transumância do Gado Serrano’ explica como os rebanhos desciam no Outono para o sul e subiam na primavera outra vez para a serra. Isso foi o motor económico da Península Ibérica durante cinco séculos. Mas é também a metáfora do próprio filme, pois nas entradas e saídas das localidades por onde passava o gado, colocava-se palha por cima dos dejetos dos animais e do sangue. No fundo, uma camada que escondia o que não se quer ver. É algo tipicamente português.

Como vês, enquanto cineasta e cidadão, esta ideia atualizada de desobediência civil? Um defeito da democracia?

O problema da democracia somos nós. Nós os que achamos que a democracia é a terceira pessoa. E que a culpa é sempre de outro. Do que matou uma velhinha brasileira para ficar com alguma coisa, do outro que mandou construir um centro comercial. O problema é que esses são os que votámos para ficar lá, sejam eles do partido A ou do partido B. A culpa é sempre de outro.

Já agora, o que achas da nova lei do cinema? Vai ajudar a mudar o presente e o futuro?

Acho que a lei do cinema era obrigatória. Vem em atraso. Há muitas coisas deveriam estar pré-definidas, como as contribuições dos canais de TV por cabo. Deveriam ter ser sido aplicadas há muito.

É a melhor lei?

Pode não ser a melhor lei, mas é a que temos hoje. O que é estranho, no mínimo, é ter sido aprovada apenas com os votos a favor do PSD e do PP. Revolta-me perceber como a oposição, que deveria ter uma posição muito mais activa, faz birra. Sobretudo quando esta tentativa vai ao encontro daquilo que tinha sido definido. Obviamente que falta a discussão e a regulamentação. Tudo aponta para que seja aprovada na próxima sexta-feira. Depois veremos o que vai acontecer ao cinema português.

E o que vai acontecer a ti em termos de projetos?

Para filmes sem dinheiro há sempre projetos (risos). Agora tenho um projecto para fazer, ligado a Guimarães 2012, sobre a obra do Fernando Távora. Vamos fazer um ‘film noir’, em que o Vítor Correia vai ser o nosso Bogart. Tem um nome provisório que é ‘Da Organização do Espaço’, do Fernando Távora. O meu objetivo é filmar a obra do Fernando Távora como uma personagem. Será a arquitectura a paisagem.

 


 

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