Uma longa conversa com o realizador de «Marius e Jeannette» (1997), «La Ville est Tranquille» (2000), «Mário-Jo est Ses Deux Amours» (2002) e «O Exército do Crime» (2009). Guédiguian é um realizador proletário, de fortes convições, a evocar as circunstâncias e motivações das suas personagens. Sempre com sotaque marselhês e uma esperança socialista. Mas para Guédiguian, qualquer história pode ser abordada, desde que o tema seja do seu agrado, e que seja rodada em Marselha e protagonizada por Jean-Pierre Darroussin e Ariana Ascaride.
É este um regresso a Marselha? Isto depois de fazer um filme histórico?
Sim, sim. É um regresso ao local do crime… Quis voltar, em primeiro lugar, ao lugar onde nasci e onde rodei o meu primeiro filme. Mas isso não quer dizer que seja apenas Marselha, mas sim as recordações do mundo laboral, dos meus pais, e o peso cultural que isso tem nos meus valores. Por isso, de tempos a tempos, sinto necessidade de fazer esta reflexão sobre mim mesmo.
Já agora, qual é para si a importância da cidade de Marselha? Imaginava fazer um filme contemporâneo numa outra cidade qualquer?
Acho que não o faria. É que o que começou por ser espontâneo tornou-se em voluntarismo. Quero com isso dizer que todas as histórias se podem contar em qualquer lugar. Por isso, se não se tratar de uma história particular com uma localidade específica, contarei todas as minhas histórias em Marselha. Sempre. Por exemplo, se eu desse o guião de «As Neves de Kilimanjaro» a um realizador alemão ele não teria de alterar uma linha do guião.
Falou da realidade social, dos seus pais, mas este é um filme de temas bastante atuais, sobre o desemprego. De que forma essa realidade atual também o afetou?
Normalmente, faço filmes muito contemporâneos. Acho que sou muito informado, leio jornais, vejo televisão. Por isso quando começo a trabalhar já tenho esse panorama muito presente. Nesse caso poderiam até ser documentários.
Mesmo se adaptasse Victor Hugo?
Sim, neste caso adaptei o Victor Hugo porque ele me deu o tema essencial do filme. Deu-me o final do filme.
«As Neves de Kilimanjaro»
Os seus filmes são muito realistas. Mas no seu caso vive mesmo esse realismo?
Sim, vou muitas vezes ao bairro onde nasci. Por exemplo, na cena inicial do filme onde estão os trabalhadores que vão ser dispensados, muitos deles são amigos meus que trabalham ou trabalharam na estiva. Por isso, de uma forma ou de outra, estou em contacto com eles. Vou muitas vezes ao bar, onde de me contam os seus problemas familiares, profissionais e económicos. Tudo isso me ajuda.
Durante os anos 30, com o cinema do Jean Renoir, pensava-se que a luta era entre classes, mas neste caso, e em outros dos seus filmes, é mesmo dentro da própria classe trabalhadora. Como vê essa distinção de classes hoje em dia?
Sim, o filme fala precisamente disso. A nossa sociedade moderna opõe pessoas umas contra as outras, mesmo sem terem razões para isso. Por exemplo, quando tinham vinte anos, o casal do filme (Ariane Ascaride e Jean-Pierre Darroussin, atores fetiche do realizador) tinha trabalho e a possibilidade de ter uma vida material normal e ter mesmo algumas posses, comprar um carro, uma casa, ainda que a crédito. E tinham o sonho de poder viver num mundo melhor, que provavelmente se chamaria socialismo. Já o jovem do filme (Gregoire Leprince-Ringuet) não tem trabalho, ou tem apenas biscates. E não tem um futuro material. Nem sequer intelectual. Portanto, não tem sonhos e não imagina um mundo melhor. Isto apesar de terem interesses comuns. É isso que procuro mostrar.
Foi intencional a escolha de fazer este filme ao sol com este naturalismo, esta luz natural?
Sem dúvida. Queria fazer um filme muito solar, quase sobreexposto. De certa forma, a luz do filme é a luz das personagens principais.
Como sempre, escolhe Jean-Pierre Darroussin e Ariane Ascaride. É assim que gosta de trabalhar, neste ambiente familiar?
Diria que hoje é quase como uma trupe de teatro. Mesmo sem ter sido de propósito, quando escrevo algo penso de imediato neles. Isso faz parte da minha maneira de trabalhar. Quando faço filmes fora de Marselha posso trabalhar com outros atores, mas de outro modo não. Conheço muitos actores, pois sou produtor, mas não tenho qualquer interesse em trabalhar com outros atores.
(entrevista ocorrida durante os últimos Encontros do Cinema Francês, promovidos pela Unifrance, em Paris, em Janeiro passado)

