Uma entrevista individual – e fascinante! -, com um ator francês que vimos, em fevereiro passado, em «Le Havre», e que está agora nas nossas salas em «As Neves de Kilimanjaro».
Curiosamente, a nossa conversa começa com a sua curiosidade em eu possuir um apelido com o nome do meu país. Mas também pela própria origem do nome Portugal e a eventual ligação com a cidade do Porto. Jean-Pierre acaba mesmo se mostrar conhecedor do nosso país. Apesar deste traço tão vincado de portugalidade, esforcei-me para dar o meu melhor na língua de Camus… Pelo meio, entramos um pouco na pele do ator que se torna camaleão nas mãos de realizadores com métodos de trabalho tão diversos como Aki Kaurismaki (Le Havre) e Robert Guédiguian (As Neves do Kilimanjaro).
Este ano (2011) foi muito intenso…
Sim, um ano com filmes que gostei muito de fazer.
É para si fácil de passar assim tão facilmente de uma personagem para a outra?
Sim, é o meu métier. É mesmo esse um dos prazeres da profissão. Depois de ler um guião sinto logo que a minha imaginação começa a construir um personagem.
Torna-se um pouco nessa personagem…
Sim, procuro identificar-me com ela, com pessoas que possa conhecer que sejam parecidas. Há uma espécie de mimetismo que se vê nos gestos, nas atitudes, na forma de comportamento. E depois há o guarda-roupa. É algo que acho determinante e que lhe dá o contorno. Quando se sente o personagem, ele acaba por nos pertencer.
E há também do outro lado o realizador que acaba por conduzir essa personagem no seu destino. É algo que ajuda nessa construção?
Ajuda, claro. Sobretudo se é o caso se um realizador que assinou também o guião e tem, por isso mesmo, sensações, ideias e imagem dessa personagem. É algo que fazemos em colaboração.
Calculo que isso que diz se aplique em bloco no caso de Robert Guédiguian, pois tem com ele um trabalho de grande cumplicidade. Acha que com ele acaba por ser um pouco mais do que fazer cinema? Algo mais familiar, talvez?
Estou a perceber. É evidente que com o Robert tem um trabalho de grande continuidade. Mas tenho sempre essa etapa de entrar na personagem. Nem que seja de escolher o guarda-roupa. Mas há sempre essa troca de sugestões.
Esse tipo de cumplicidade passa-se também com a Ariane, a sua habitual partenaire nos filmes de Guédiguian?
Diria que sim. É quase como se tivéssemos ensaiado exaustivamente, apesar de nunca o fazermos. Mas temos já um conhecimento tão grande e uma escuta do colega que torna tudo mais fácil. Muitas vezes é durante a rodagem que nos vamos adaptando um ao outro e tentando compreender o instante.
Acha que é nesse processo que se pode encontrar a verdade que o realizador procura?
Há realizadores, como o Aki Kaurismaki, que faz apenas um take. Aí não há sequer o tempo de fazer essa descoberta. Mas aí há outra coisa. A forma como compõe a imagem, organiza a escala de planos. Aí trata-se mais de encontrar um posicionamento no design no set. E menos uma direção de ator. Já a forma como dizemos o texto tem muito menos importância para ele.
O Robert é muito diferente, presumo…
Muito. Há uma ilusão de realidade que é procurada. Um certo naturalismo popular…
… é algo que lhe agrada particularmente?
O que me interessa na minha profissão é abordar estilos diferentes. Pode ser o palhaço, a tragédia grega, ou estar num realismo total. Para além da mudança de realizador ou de personagem, gosto da mudança de estilo.
E até que ponto um realizador deixa a sua marca num ator? Ou a sensação de que o ator fica também com um olhar de realizador?
Sem dúvida. Eu próprio já realizei um filme e fiz uma encenação no teatro. E é no teatro que nos descobrimos enquanto atores. Quando estamos todas as noites em cena, é como se fossemos realizadores. Pois somos nós que conduzimos o olhar do espectador e a montagem. O encenador está antes, mas no palco é o ator que dirige a cena. Por isso, é algo que me parece estar mito próximo.
(entrevista realizada durante os Encontros do Cinema Francês, a convite da Unifrance)

