Estreia hoje em Portugal «Michael», um filme que marcou a estreia de Markus Schleinzer na realização e que provocou alguma polémica em Cannes (e deixou muita gente verdadeiramente irritada).
No filme – que passou pelo IndieLisboa, seguimos Michael (Michael Fuith), um agente de seguros aparentemente com uma vida mundana mas que esconde um tenebroso segredo. Ele mantém sequestrado uma criança de 10 anos na sua casa.
O c7nema teve a oportunidade de falar com Markus Schleinzer, um homem habituado a trabalhar com Michael Haneke e que confessa que o cineasta alemão foi o principal impulsionador para que se sentasse na cadeira de realizador.
Esta é uma personagem que segue regras. O que lhe fascinou nesta personagem?
No inicio não me interessei em explorar o lado do criminoso. Procurava um tema para um primeiro filme e trabalhava com um grupo com quem discutia temas possíveis e este foi o assunto que mais discussão suscitou. Depois disso sentei-me e escrevi um argumento de forma bastante rápida [5 dias]. Estava claro desde o início que não queria escrever um filme do ponto de vista da vítima. Acho que isso era uma maneira fácil e exploratória do tema. Não queria fazer isso. Por mais que isto soe mal, quando falamos de um tema destes, foi mais fácil para mim trabalhar o filme do ponto de vista do criminoso, pois esta gente vê as coisas de uma forma muito clara nas suas vidas. Eles não têm consciência da sua culpa. Se tivessem noção, provavelmente não saberiam viver com isso. Acabariam por se matar, ou encontrar tratamento. Muitas vezes eles próprios interpretam a sua sexualidade como uma forma pedagógica de lidar com ela.
Já trabalhou como ator e diretor de casting. Sempre quis realizar um filme e sempre procurou uma boa história?
Mentiria se dissesse que não era um desejo ou um sonho de realizar um filme. Mas levei muito tempo. Na verdade não tinha pressa. Eu precisava que alguém me empurrasse um pouco para isso e neste aspecto o Michael Haneke foi uma grande ajuda pois enquanto trabalhava no «Laço Branco» ele constantemente me incitou a fazer o filme e isso fez a diferença porque sentei-me e comecei a trabalhar no processo que já falámos antes.
Porque acha que ele fez isso? Acha que queria mesmo que se tornasse num realizador?
Obviamente, porque acreditava que eu tinha algum talento e acreditava em mim. Depois de ver-me a trabalhar com todas aquelas crianças no «Laço Branco» acho que ficou impressionado…
Como diretor de casting, o que procurava para o papel do jovem rapaz? Procurava alguma coisa em particular?
Na verdade foi uma tarefa bastante difícil escolher uma criança pois há diversos aspetos a ter em consideração. Em primeiro lugar era preciso encontrar pais que deixassem o filho participar num filme assim. E tinham também de ser pais capazes de abordar o tema de uma forma aberta e inteligente. Isto porque existem pais que só querem que os filhos sejam famosos e na maioria das vezes as crianças nem têm interesse nisso. Isto era algo que eu tinha como adquirido, e claro que a criança tinha de saber interpretar o papel. Outra coisa importante era que eu não queria alguém que trouxesse consigo uma marca de vítima, como por exemplo uma criança que tivesse sofrido com a separação dos pais ou uma outra tragédia na sua vida. Eu não queria explorar qualquer sofrimento já existente. Não consigo fazer um filme sobre o abuso de uma criança abusando da criança, do ator. Era importante que fosse uma criança saudável, forte, com a sua própria personalidade e que sentisse o filme como uma boa experiência para si. Eu não sei se repararam ontem no Photocall, mas felizmente eu sinto isso no David, que tens os pais certos e é um rapaz muito forte.
Quantas crianças viu até encontrar a certa para este papel?
Quase 700, mas no «Laço Branco» foi pior. Vimos 1000 durante um ano.
O que lhe disse quando estavam a filmar?
Era muito importante desde o início que tudo fosse tratado com bastante abertura. Isto já fazia parte do processo de casting. Nós fomos muito frontais e directos com todos os pais dos miúdos que participaram no casting. Demos-lhes uma pequena sinopse do filme e depois quando já só tínhamos quatro crianças a concorrerem, os pais tiveram acesso a todo o guião. Eu sentei-me com eles e expliquei-lhes todo o processo, falei de cenas especificas e fiz questão que não existissem surpresas nem alterações de planos. Não sou o tipo de pessoa que chega aos sets e diz que pensou numa coisa ontem à noite e muda; não fiz nada que não tivesse acordado. Para além disso, esta geração tem uma grande vantagem – em oposição à minha geração – que é o facto destas crianças serem ensinadas sobre estas coisas desde muito cedo. Eles têm psicólogos que vão às escolas e lhes dizem, “não vão com o homem que vos diz que tem um cão no carro para verem”. E eles já têm uma ideia do efeito que provocam nos adultos, já têm consciência sobre isso. Já sabem também dos seus direitos e das suas forças. Que podem dizer que não. Isso foi importante.
Claro que no caso do David nós tentámos envolve-lo o máximo que podíamos no processo criativo de construção do filme. Por exemplo, todos os desenhos que vêem no filme foram desenhados por ele. Ele também escolheu onde os pendurar e como os tinha. De certa maneira demos-lhe uma responsabilidade na criação e fizemo-lo sentir que a sua opinião contava.
Como acha que o seu filme vai ser recebido na Áustria, tendo em conta os recentes casos ligados ao tema?
Pelo que sei, o filme tem sido muito bem recebido na Áustria, talvez porque – infelizmente – tivemos alguns casos trágicos nos últimos anos que levaram a que o tema fosse discutido e estivesse na ordem do dia. No final de contas, isto é o tipo de coisas que existe em muitos locais, não apenas na Áustria. É um problema mundial e não existe uma solução definitiva para estes casos. É um tema incómodo, é algo que não queremos lidar a toda a hora e que muitas vezes olhamos para o lado. Mas existe e está ali.
O título do filme, foi algum tributo ao Haneke? Porque escolheu este nome?
(risos) Não. Michael é um nome muito comum naquela geração, tal como o meu nome. Na minha turma existiam quatro Markus e cinco Michael’s. É o nome perfeito para um nome invisível. Eu não procurei um nome particular e original. Para além disso, em hebreu Michael significa aquele que fica com o lugar de Deus, o que – sem dar muita importância neste caso – encaixa na personagem, pois de certa maneira é o que ele faz. Ele faz o seu mundo, as suas regras.
Por isso, não. Não é definitivamente um tributo ao Michael Haneke. Aliás, o Haneke odeia o título, não tanto porque é o nome dele, mas porque – na sua opinião – os nomes não vendem nos filmes. De qualquer maneira, eu não fazia ideia que nome poderia dar a este filme, por isso o nome [Michael] pareceu-me a melhor opção.
Já tem ideia sobre que será o seu segundo filme?
Acabei de trabalhar neste filme há uma semana e já estou em Cannes. Tudo está a acontecer muito rápido. Há demasiado presente para falar no futuro neste momento.
O Haneke viu o filme?
Sim.
Que disse ele?
Que era uma obra-prima…
Uau

