O realizador israelita Nadav Lapid esteve em Lisboa para divulgar seu filme “O Polícia”, estreado na última quinta-feira. Depois da sessão de antestreia, em Lisboa, participou de uma conversa com o público – e ficou bastante surpreendido com a quantidade de questões feitas sobre o seu país. Explico a ele que, apesar de Israel estar sempre nos telejornais, pouco sabemos que ultrapasse ao superficialismo da televisão – e Lapid concorda: um dos papéis que seu filme cumpriu foi o de mostrar um outro Israel, completamente desconhecido do Ocidente e, de certa maneira, deles próprios.
Na conversa com o c7nema adiantou que finaliza atualmente o argumento para o seu novo projeto, co-produção com a França que pretende começar a rodar em Israel no final deste ano. O filme, cujo título traduzido para o inglês é algo como “The Kindergarten Teacher”, trata de uma professora de 50 anos que é uma grande fã de poesia – mas que é medíocre como poeta, e conhece um menino de 5 anos no infantário especialmente talentoso que ela tenta “salvar” da estupidez da sociedade que o cerca. “É um filme sobre poesia num mundo que já não a respeita…”, afirma.
Israel habitualmente ocupa os telejornais com a questão palestiniana. O seu filme mostra o país sobre uma perspetiva muito diferente.
Bem, o que eu tenho ouvido a propósito do filme são pessoas a dizer que é refrescante ver um filme sobre Israel que não seja sobre o conflito com a Palestina. Este filme é sobre dois grupos que lidam com um conflito interno, de cunho social, não um conflito nacional. Mas a questão da Palestina está presente de uma maneira profunda, assim como está inserida em todos os aspetos da nossa sociedade. Eles estão presentes em toda a vida de Israel porque nós nos tornamos uma sociedade a viver um presente mitológico e imaginário – de tal forma que eles não precisam estar fisicamente presentes para existirem.
No filme, por exemplo, o propósito do polícia é proteger os bons dos maus. E os maus são os palestinianos. Os revolucionários radicais também tornam-se palestinianos – apesar de não o serem de facto. Eles tornam-se palestinianos em termos metafóricos, quando um policia lamenta que eles não o sejam e risca a foto de cada um – porque eles são terroristas, ou seja, são palestinianos.
Portanto, temos a violência que o filme retrata, a de em país em permanente estado de guerra, um país que não se reconhece mais sem a guerra, que não consegue se reconhecer no espelho sem ver os palestinianos nas suas costas.
O filme fala sobre um conflito social, uma luta de classes entre ricos e pobres, que existe em todo o mundo. Mas, mais especificamente em Israel, é uma luta de classes dentro de um lugar em permanente estado de guerra, de paranoia, de temor deste inimigo imaginário, de medo de que a sua vida esteja em perigo. Este contexto excede ao mero conflito de classes, que existe em toda a parte.
Outra peculiaridade em Israel vem do seu próprio mito fundador enquanto comunidade, onde estão todos juntos contra todos os outros. Dentro desta coalizão, desta nação unificada, as divisões não são admitidas, nunca se discutem as diferenças sociais. Em Portugal, como em qualquer lugar, há uma minoria que explora a maioria, mas o sentimento de injustiça ou ódio é legítimo e aceite.
Em Israel tudo funciona como numa família. Somos todos uma grande família onde não podem haver problemas internos, não é legítimo. Na vida desta grande família os problemas estão sempre do outro lado da fronteira. É por isso que os palestinianos não precisam de existir realmente. No filme eles não aparecem, mas sua presença está lá.
De certa forma já respondeu à minha segunda questão… Ia perguntar se acha que a violência, que é uma componente constitutiva de qualquer cultura ou sociedade, tem maior peso em Israel do que em outros países do Ocidente, por exemplo.
Sim, existe uma violência institucional. Tel Aviv é essencialmente uma cidade de segurança e a violência é transmitida para o exterior. Toda a frustração, toda a violência, toda a raiva é transmitida contra os outros.
Como foi a receção ao seu filme em Israel?
Foi boa entre os críticos e venceu três prémios no Festival de Cinema de Jerusalém. Mas o público ficou extremamente dividido. O filme fez barulho, causou incómodo, ninguém ficou indiferente. Ou adoraram ou odiaram. Houve sessões em que as pessoas gritavam umas com as outras. Também houve uma situação envolvendo a classificação etária. Inicialmente foi classificado para maiores de 18 anos, a mais alta restrição em Israel. Só que isso despertou um grande escândalo na imprensa, porque os jornalistas alegaram que havia censura política, uma vez que não era um filme porno ou algo do género. O ministro da Cultura interveio e eles reduziram para 14 anos.
O cinema em Israel tende a ser crítico e beneficia-se de uma impressionante tolerância. Mas neste caso, o filme toca num tabu. Temos polícias israelitas a matar terroristas israelitas que por sua vez sequestram bilionários israelitas. Em Israel não se consegue aceitar isso.
Problemas com a família…
Exato. De certa maneira podemos falar o que quiser sobre a questão da Palestina. Às vezes ficam zangados, dizem que você está errado, não aceitam, mas está OK. Mas quando tu tocas no interior dessa sociedade… as coisas se tornam quase impossíveis.
Como foi a produção? Encontrou algum tipo de dificuldades?
Houve algumas questões políticas, mas não foram graves. As dificuldades maiores tiveram a ver com a construção estética do filme. Você pode adorar ou odiar, mas é um filme muito ambicioso. É uma tentativa de dar um perfil existencial, psicológico, mental a uma sociedade. A alma desta comunidade. É uma construção narrativa pouco usual. Não foi fácil levantar dinheiro para o filme.
Qual foi o custo?
U$ 800 mil (pouco mais de € 600 mil). Para os nossos padrões é um valor médio. Não é uma produção nem grande nem pequena.
O filme teve uma bela trajetória internacional, ganhou prémios em festivais e também recebeu boas críticas.
“O Polícia” esteve em cerca de 100 festivais ao redor do mundo. Ganhou muitos prémios e muitos elogios. Israel hoje vive muito das co-produções com França e Alemanha e reconhecimento nos festivais – Locarno, Berlim, etc. Bem, não posso reclamar, embora isso também seja perigoso – no sentido que os nossos realizadores podem querer adaptar os seus filmes ao ponto de vista europeu sobre Israel e se tornarem estrangeiros falando do nosso próprio país. Podemos terminar por fazer filmes como cartões postais.
“O Polícia” hoje é um sucesso, mas quando mostramos a produtores franceses eles não se mostraram interessados, pois nunca tinham ouvido falar daquilo, eram problemas internos de Israel. Eles estão habituados ao conflito com a Palestina. O que um olhar estrangeiro pretende é assegurar o seu próprio ponto de vista, aquilo que associa a um determinado país. Tende-se a repetir sempre a mesma coisa. Eles não querem aprender nada, são muito preguiçosos. Isto é o que eu temo nas co-produções, que os nossos realizadores deixem de ser fiéis a si próprios, que caiam na tentação de mostrar ao mundo aquilo que ele quer ver…
Mas gostaria de trabalhar em França ou Alemanha…?
Teoricamente sim. Eu agora tenho um agente francês, outro americano, todos querem ler o novo guião. Mas, na prática, não devo trabalhar fora de Israel, pela simples razão de que não conheço o suficiente destes lugares. Eu não me imagino a contar uma história de “Jean-Marie” ou “Philippe”, que vivem ao pé da Bastilha… Eu não conheço essas pessoas.
Mas num filme de Hollywood, por exemplo, não é muito necessário conhecer culturas… O realizador alemão Florian Henckel von Donnersmarck, por exemplo, depois de “A Vida dos Outros” fez “O Turista”…
Sim, mas não tenho interesse em trabalhar em Hollywood apenas para fazer carreira. Existem coisas que eu quero dizer através do cinema, que eu pretendo mostrar, que quero que as pessoas sintam. Eu não tenho interesse em fazer um filme estúpido com o Robert de Niro. Talvez um filme inteligente com ele, mas na verdade a única possibilidade de eu rodar um filme em Nova Iorque ou Paris seria se fosse a história de um israelita que vive lá.
É a sua primeira vez em Lisboa?
Segunda. Estive no Estoril Film Festival. Já passei por “10 mil” cidades e Lisboa é única. Mais aberta, mais humana, mais caótica. Caótica num bom sentido! (risos). Falo da cor, da arquitetura, nada como a severidade de outras cidades europeias.

