“Nunca tinha pensado fazer um filme de época”, afirmou Andrea Arnold, a argumentista e realizadora de «Wuthering Heights» (O Monte dos Vendavais), um clássico da literatura inglesa escrito em 1847 pela escritora britânica Emily Brontë.
Ainda a viver a euforia da festa na noite anterior após a estreia mundial no festival de Veneza, a realizadora britânica, de vocação profundamente realista, evoca o desafio de adaptar a mais famosa história de amor. Em formato 4:3. Visceral, crua, hiper-real. Tudo isso no filme. E foi disso mesmo que se falou.
Poderemos talvez começar pela sua escolha estética para este projeto? É bastante diverso do que fez anteriormente, ainda que estejam presentes elementos muito identificadores do seu estilo…
Bom, isso tem a ver com diversos aspetos. Mas quando escrevi o primeiro esboço quis logo que fosse muito visceral. Havia muita violência, fel e sangue. Esse foi um ponto de partida.
Seja como for, na sua mente esteve sempre presente a ideia de fazer uma adaptação para um filme de época e não algo atual…
É engraçado porque a primeira vez que pensei neste projeto foi como uma peça contemporânea. Foi ao local onde os Bronté viveram e reparei num miúdo com um capuz e pensei: “é o Heath
cliff!…! E comecei até a escrever como se fosse algo contemporâneo. Mas quando mais me envolvia na história, percebi que as referências ao livro e do que a Emily Bronté escrevia de ser uma mulher naquela época tinham pouca relevância agora. Por isso, talvez como um serviço a ela, optei pelo tempo original.
Já agora, fico curioso, quando foi o seu primeiro contacto com o romance?
Acho que foi início da minha juventude. Lembro-me que vi o filme quando era ainda muito jovem…
A versão do (Laurence) Olivier…
Sim, foi a única que vi. Apesar de ter curiosidade de ver a de Buñuel. Lembro-me de pensar muito nela. Foi algo que me afetou muito. Aliás, é uma obra que tem um impacto estranho nas pessoas. E percebi que não era apenas uma história de amor, mas algo mais negro e estranho. E depois dos realizadores anteriores se desvincularem do projeto eu percebi que poderia ser a minha hora e a possibilidade de mostrar a minha versão. Entretanto, apareceu essa possibilidade e foi aí que me surpreendi com o material porque nunca tinha eu pensado em fazer um filme de época. Acabou por ser uma decisão que me surpreendeu, mas por fim envolveu-me. Isto sem eu saber onde me iria levar. Apenas quis saber onde me levaria.
Seja como for, percebe-se que é um filme muito seu, muito pessoal.
Sempre que inicio um projeto novo, percebo que vai ser uma viagem pessoal. Num determinado nível, é algo que faço para mim própria. É só assim que sei trabalhar. Mas também o livro é um objeto muito pessoal. Conseguimos sentir a jovem Emily Bronté.
Teve sempre em mente usar o formato de 4:3?…
Adoro esse formato… O que posso fazer…. (risos) Acho que acaba por ser uma outra forma de mostrar a paisagem magnífica. Logo que fiz os testes o próprio negativo se mostrou adequado. E acho que descobrir mais sobre o formato pela forma como enquadra uma pessoa. É um formato muito pessoal.
E terá sido também essa a razão pela qual escolheu atores não profissionais?
Eu queria fazer algo muito real e visceral, por isso achei que seria melhor ter “não” atores.
O trabalho de câmara é magnífico, mas um pouco acidentado, não? Foi a Andrea que fez a câmara?
Não, foi o maravilhoso Robbie Ryan (habitual DP da realizadora) a andar pelas ‘moors’ com uma câmara á mão. Acho que merece uma medalha…

