Entrevista a Nicolau Breyner, realizador de “A Teia de Gelo”

(Fotos: Divulgação)

“O meu próximo filme será uma comédia”, adianta o realizador do recém lançado “A Teia de Gelo”. Lançando um novo filme com um intervalo de três anos, Nicolau Breyner parece estabelecer um caminho de regularidade para o seu trabalho como realizador. Em altura de crise e manifestos pela salvação do cinema português, Nicolau Breyner faz um filme em duas línguas, diz que vai distribuí-lo internacionalmente e que esse é caminho para viabilizar a produção nacional. Mesmo reconhecendo ser esta uma via mais indicada para o cinema comercial, no qual assumidamente investe, não deixa de ser uma atitude diferente em relação aos tempos sombrios com que se encara atualmente a sétima arte em Portugal. Ainda sem dados concretos, fala de uma negociação já em andamento para distribuição de “A Teia de Gelo” na América do Sul. De resto, nesta conversa com c7nema ele fala da criação do projeto e conta pormenores das duras filmagens na Serra da Estrela.

“A Teia de Gelo” é uma história original sua que depois obteve a colaboração do João Nunes. Como surgiu a ideia?

Não faço a mínima ideia. Eu estou sempre a imaginar histórias, são aquelas coisas que passam pela cabeça de repente. Às vezes quando vou para o escritório, ou coisa assim, escrevo a história. Um dia pensei numa coisa dessas talvez com base numa história que a minha mãe contava quando eu era miúdo – que talvez tivesse algumas coisa ou não a ver com isso, não sei. Assim, escrevi e meti numa gaveta durante dois anos ou três. Depois fui buscar.

E essa mistura que vemos no filme, que tem elementos de suspense e de policial, já estava desde o início?

Desde o início. A única coisa que eu juntei depois foi a parte passada em África, porque eu queria estabelecer uma rutura no filme entre uma parte e outra – entre o sol e o ambiente africano e depois o isolamento, a chuva, a neve, a tempestade.

Já “Contrato” também tinha elementos de filme policial…

Esse não é bem um filme policial, embora seja um thriller. Mas a violência é sobretudo psicológica, embora haja alguma violência física. Eu gosto de filmes assim, gosto de filmes que me façam mexer na cadeira, não gosto de ficar quieto. Gosto de filmes que me surpreendam de algum modo.

E a nível da produção, como correu?

Na produção tive a sorte de ter a Ana Costa e a Cinemate como produtores. Essa era uma produção difícil, por vários motivos. A montagem financeira era muito complicada, mas ele conseguiu fazê-lo e deu-me a hipótese de fazer esse filme. Neste sentido foi muito diferente do “Contrato”. 

Quanto tempo duraram as filmagens?

Um mês e uma semana. Em duas línguas. 

E as cenas na Serra da Estrela, foram muito difíceis de filmar? 

Foram complicadas. Aquilo que eu mais desejava e que tive foi uma tempestade de neve. Aquilo que se vê no filme é real, não há trucagem nenhuma. O Diogo Morgado caía a representar por causa do vento. Aquilo era o que eu queria, mas filmar assim foi muito complicado. 

Quantos dias estiveram lá?

Quase duas semanas.

Já tinha essa ideia desde o início, utilizar a natureza como personagem?

Claro, só faz sentido se for assim. Neste sentido tive a melhor sorte do mundo. Só um dia precisávamos de neve e não tivemos. Nos outros dias nevou sempre que quisemos. Por isso também foi mais uma razão para pôr a África primeiro. Para mim, a África é luz, alegria, é o tropicalismo, do qual gosto muito. E na Serra de Estrela é tristeza, desolação, frio, neve. Tudo o que eu odeio (risos).

E como foi a escolha do elenco?

Foi uma bênção. Não podia ter escolhido melhor. Se fizesse esse filme novamente escolhia exatamente os mesmo atores. Não hesitava. Foram de uma generosidade a filmar em inglês e português. 

Já realizou dois filmes num curto espaço de tempo. Pode-se dizer que agora tem uma carreira regular como realizador…

Eu quero realizar mais. Eu gosto imenso de fazer televisão, sou o homem das novelas, fui eu quem as inventou. Mas com a mesma força que eu um dia disse ‘vamos fazer novela em Portugal’ e ninguém acreditou, diziam que era uma utopia minha, agora estou a dizer ‘vamos investir em cinema português’”. E vamos conseguir. O caminho é esse. É claro que estou a falar de cinema mainstream, não cinema de autor, que é outro circuito. Cinema que seja rentável, que seja show business, cinema negócio financeiro, tem que ser feito em inglês – do contrário não funciona.

Já tem um novo projeto como realizador?

Sim, agora vou fazer uma comédia. Esperei esse tempo para fazer uma comédia porque acho que é a coisa mais difícil de fazer. Portanto decidi fazer um ou dois filmes, para só depois fazer a comédia. Já tem argumento e vou rodá-lo no inverno.

Acha que em Portugal há uma clivagem entre cinema comercial e cinema de autor?

Há espaço para as duas coisas e, acima de tudo, acho que não pode haver um divórcio porque os subsídios um dia vão acabar – e só havendo uma indústria de cinema com um certa solidez é que pode haver dinheiro para financiar o cinema de autor. 

Acha que a indústria de cinema é viável em Portugal?

Se exportarmos é. Nós podemos fazer cinema mais barato que o resto do mundo. Temos que entrar na co-produção, que é fundamental. Ir buscar atores lá fora torna o filme mais caro, mas é investimento, é a possibilidade de divulgar o filme em toda a Europa. 

E é curioso que aqui realmente não se pensa nisso… Em França, Itália, Alemanha as co-produções são extremamente comuns…

Claro! O problema é que cá as pessoas pensam pequeno. ‘Vou fazer o meu filmezinho, com dois tostõezinhos, para os portuguesinhos verem nos cinemazinhos’… Isso não é a minha maneira de pensar! Tenho muito pena. Pode ser que consiga ou não, mas vou tentar. 

“Contrato” teve 60 mil espetadores. Qual é a expetativa para “A Teia de Gelo”?

Espero mais, muito mais! É um filme mais consistente. Eu adorei fazer “O Contrato”, não estou a dizer que não gosto, foi o filme que eu podia fazer naquele momento. É um filme perfeitamente digno. Agora, este tem outro desenvolvimento. Tem outro tipo de história. 

E a nível da distribuição? Há estratégias para contornar o atual sistema?

Temos de pensar em novas formas de atrair o público para o cinema. Já propus num encontro com profissionais e distribuidoras. Temos que busca-los a casa de qualquer maneira, não podemos ficar à espera.

Os festivais, por exemplo, estão sempre cheios, mesmo os mais alternativos…

Claro! Para já o festival é mais barato. Temos que encontrar espaços maiores para exibir cinema. Se tivermos uma sala para 800 pessoas, podemos pôr o bilhete a € 2, € 2,5…  Lugares ao ar livre, no verão, por exemplo. Ou em grandes esplanadas, aí os bilhetes podem ser mais baratos.

Houve um realizador em Leiria que apresentou um filme em duas sessões e levou tanta gente ao cinema quanto outros filmes portugueses lançados este ano em 90 ou 100 sessões… É claro que foi uma situação específica.

Mas é isso! Nós temos que reinventar a maneira de exibir cinema. Nós temos que levar o cinema até as pessoas. Temos que arranjar uma maneira.

  
 
Link curto do artigo: https://c7nema.net/rd6a

Últimas