António, Zé Maria e João constroem uma casa e se formos a ver bem as coisas, eles são os seus habitantes. Pegando neste principio, Júlio Alves, realizador de curtas bem sucedidas como «O Jogo» e «42,195 KM») filma a interacção destes homens com espaço, um verdadeiro caixote armado de betão que aos poucos vai ganhando vida.
A ideia original era fazer um filme sobre a casa? O projeto da casa antecedeu as pessoas que estavam a trabalhar?
Não. Eu sempre tive uma certa curiosidade por obras e por pessoas que trabalham nas obras, então eu passeava por entre esses espaços e de alguma maneira até convivia com as pessoas que estavam a trabalhar lá. Esta ideia ocorreu-me porque eu li um documento que o meu pai, quando construiu uma casa há quarenta anos atrás. Descobri o orçamento da casa onde ele discriminava metros quadrados, mas também compromissos para iniciar essa casa, que é uma casa que ainda existe de família, uma casa relativamente pequena, no contexto das Beiras, uma daquelas casas que as pessoas constroem para passar a velhice, o chamado “voltar à terra”. Portanto, eu descobri esse documento que foi ficando comigo durante muito tempo. Depois surgiu esta história da casa, das pessoas que construíam as casas , porque na realidade, se tu passas tempo com elas, percebes que comem, dormem, fazem a sesta, conversam, habitam ali. Mais tarde li um texto do Heidegger, “Construir, Habitar, Pensar”, que foi o “click”, no sentido em que tudo isto já tinha percebido, não tinha descoberto nada de novo, já tinha sido pensado e escrito. A partir destes fragmentos, comecei a filmar. Primeiro que tudo, num contexto como este, nunca sabes como vai ser o fim, porque não sabes se essas pessoas ficam ao fim. Filmei muitas pessoas que ao fim de duas semanas nunca mais as vi e perdi as personagens. O interessante disto foi que consegui durante dois anos filmar pessoas que até estavam cá há cinco anos, voltaram ao Brasil, voltaram para cá e continuaram a trabalhar na casa, portanto houve uma evolução narrativa daquelas vidas e da própria casa. Mas a casa é uma espécie de desculpa, na realidade eu não mostro nunca a casa a não ser no fim.
Mas ela está sempre presente.
Está sempre presente, mas eram os conceitos de habitar e de família que aquelas pessoas pudessem trazer para dentro desta casa que mais me interessavam. Elas trouxeram, elas falam da sua família, dos seus filhos, um fala de uma viagem que fez com o filho para outro país, portanto ele diz que foi emigrante nos Estados Unidos e aquela história de viagem, naquele período e aquele final semi-trágico, mas que apesar de tudo termina bem quando ele diz que é só alegria quando volta ao Brasil. Eram tudo histórias relacionadas com o conceito de habitar, mas das suas próprias famílias que eu transpus para aquela casa. Depois foi uma opção clara nunca os mostrar a falar porque queria afastar-me desta ideia do documentário mais tradicional, queria fazer um objeto que eu chamo filme. Eu até nem gosto muito da terminologia “documentário” para este filme.
Mas acaba por se inscrever nos documentários.
Sim, podemos sempre catalogar as coisas.
Sem ser documentário, qual seria o melhor termo?
-Um filme. Mas se tivermos de conviver com isso, eu convivo com isso, não acho que seja um sacrilégio. Entre Arquitetura e Cinema há um paralelo muito forte, até na forma de pensar e na forma de executar, estas duas disciplinas são muito parecidas, e eu, quase uma espécie de brincadeira, mas acho que é visível, é que estou sempre a redefinir o enquadramento dentro espaço. Quer dizer, há o próprio físico da câmara, mas depois há o claro-escuro onde eles se mexem e depois dentro do claro-escuro há zonas mais claras que são realmente definições e faço essa viagem entre o Cinema e a Arquitetura. Depois no fim até faço uma espécie de brincadeira, que é o plano mais desenhado, que é quando o portão se fecha e nós nos vamos embora, há uma projeção das sombras no portão. Acho que o filme é muito poético e muito bonito, mas há um jogo entre o Cinema e a Arquitetura, as pessoas que habitam a casa e os primeiros habitantes da casa, e obviamente ainda bem que as casas são habitadas por pessoas e essas pessoas têm uma história e foi isso que eu tentei trazer para este filme. Um pedaço da sua história, não é a sua história completa, nem me interessava uma biografia muito dispersa, interessava-me uma coisa episódica que, de alguma maneira, já os permitia definir: há claramente um que é um brincalhão, mais divertido, há outro que é um tipo mais sensato e há um mudo, alguém que consegue só falando gestualmente, que me parece a mim a coisa mais contida e mais bonita, não deixa de ser um habitante daquela casa e interagir com outras pessoas.
É muito difícil fazer cinema em Portugal?
Não há nada que não seja difícil fazer. Obviamente que cinema também é uma coisa difícil de se fazer. Eu até te podia dizer que tenho um projeto para fazer o remake do “Titanic”, só que eu posso estar com esse projeto toda a minha vida e nunca o irei fazer, porque realmente não tenho capacidade financeira para o fazer. Por outro lado, digo-te que quando me perguntam o que é que eu faço na vida e respondo realizador, também não faz sentido ser realizador se fiz três filmes em quarenta anos. Então eu tenho de criar condições para contar as minhas histórias, agora, e isto não serve de desculpa, a democratização das ferramentas faz com que seja mais fácil a um determinado momento agir. Eu acho que eu estou a agir e ao mesmo tempo é cinema que estou a fazer e que quero fazer e continuar, mas, quer dizer, ser engenheiro em Portugal também é difícil: quinhentos euros por mês, pessoas licenciadas, que investiram anos nessa licenciatura. O que eu digo é que é sempre difícil, é muito mais difícil quando não tens nenhum apoio e a importância dos apoios é que as pessoas não percebem que o cinema se tem de apoiar, dá emprego a muita gente, essas pessoas pagam impostos, mais interessante, se calhar menos óbvio é que os filmes têm um percurso enorme nos festivais internacionais, nós exportamos a cultura portuguesa, difundimos a imagem de Portugal, criamos um património, uma identidade e damos um corpo a um país através das Artes: o Cinema, a Literatura, etc. Portanto, o que nós fazemos é uma coisa muito importante.
Obviamente que é difícil, e sobretudo no estado em que as coisas estão mais difícil se torna, mas acho que temos que encontrar todos o nosso espaço e temos de fazer, nem que seja por uma reação a essa inércia. Não é só hoje, vai-se sentir ao longo dos anos um período em que as pessoas se vão encontrar impedidas de contribuir para o património cultural do país e, portanto, é muito mais do que fazer cinema, e é importante que os políticos percebam que o Cinema e as Artes é uma chatice, a malta que faz filmes, a malta farta-se e projeta a coisa e espera que as pessoas gostam. Isto não é uma espécie de discurso meio-falacioso que “estes gajos estão a tentar mamar o dinheiro”, não, estamos a contribuir muito, estamos a exportar Portugal, estamos a levar Portugal lá fora, estamos a fazer com que pessoas tenham interesse por Portugal, pelo cinema, pela literatura, pelo país, pela paisagem, pela humanidade, e isso é a coisa mais bonita que nós podemos fazer. Portanto, é difícil, mas é necessário e acho que temos um conjunto de realizadores muito bom, temos um património cinematográfico enorme, como se pode perceber neste festival.
Porquê Cinema? Porque não Arquitetura?
Bem, porque eu estudei Belas-Artes. Podia ter sido arquiteto, eventualmente, gosto da disciplina, gosto de cruzar coisas, gosto de obras, gosto de pessoas, mas gosto sobretudo de pessoas, gosto de histórias e quero encontrar o meu espaço para contar essas histórias. Agora, aos quarenta anos, talvez possa dizer que sou um realizador, coisa que se calhar não diria há uns anos atrás. Acho que há muitas histórias e muitos momentos que nós podemos de alguma maneira cristalizar. Eu acho que este filme, do meu ponto de vista, falade um momento específico, se calhar há dez anos atrás não seriam brasileiros e seriam ucranianos [os trabalhadores da casa]. Provavelmente, se fizesses um filme daqui a três anos, não haveria brasileiros e seriam outra vez os alentejanos, que eram os que o faziam há quarenta anos. Isto são fenómenos e se podermos, não gosto da palavra “filmá-los”, contá-los, isto é tem um corpo qualquer visto de determinado tempo.
Portanto, o cinema é político?
No meu caso, não sei se é político. O cinema pode ser multi-género, até o género “pipoca”. Se me perguntares se é esse que eu quero fazer, não é. O cinema que me interessa não tem necessariamente ter de ser só político, mas tem de ser um cinema forte.
Mas força a nível social, a nível cultural, como dizias há pouco?
Sim, cultural, social, político, contemporâneo. É tudo isso. Também não sei se quero encaixar-me aqui ou ali. Acho que, se tiver que me definir, amanhã não sei que filme é que vou fazer, não sei qual é o género de filme.
O que me deixa uma boa pergunta para fazer: quais são os projetos para o futuro?
Neste momento, filmei o ano passado inteiro num processo semelhante a este, uma espécie de viagem que eu vou fazer à memória e à ausência. Só gosto de falar dos projetos quando são mais qualquer coisa do que isso, portanto isto já é mais qualquer coisa, porque já passou da caneta e do papel para a máquina e agora estamos já no processo de edição e será o próximo trabalho que espero apresentar ou no final deste ano, se tudo correr bem, ou noutra oportunidade que possa surgir. Por agora deixa que este filme que acabámos de ver faça um percurso qualquer, porque está a iniciar e ele tem a sua energia, mas precisa da nossa para que o possamos por noutros circuitos.
Já tem data de distribuição?
Não, existe uma estratégia de festivais que começava, o que era um grande desejo meu, com a estreia no indielisboa, um festival fundamental no cinema português, que cuida do cinema português e não só cuida, como protege e consegue levá-lo depois para outros sítios. Agora vamos ver o que é que sai daqui e se o filme pode ter um circuito de festivais internacionais, depois de avaliar isso tudo, poderá eventualmente chegar às salas, mas eu não sei se é um filme que os distribuidores estarão interessados em ter.
Tem havido estes anos alguns documentários com sucesso: “José e Pilar”, “Linha Vermelha”, “É na Terra não é na Lua”…
Pode ser. Eu acho que todos esses filmes são muitíssimo bons e são filmes que tiveram um percurso muito grande e muito sólido antes de chegarem às salas de cinema. Se este filme tiver a sorte e tiver essa oportunidade e essa capacidade de chegar tão longe como qualquer um desses filmes, eu ficaria muitíssimo satisfeito e, se isso se traduzisse numa exibição comercial em Portugal, é o ponto mais alto para qualquer filme, é quando o filme é visto por muitas pessoas. Isso é o que nós queremos que os filmes sejam, não queremos filmes para o meu computador, não queremos filmes para ti, eu quero é que o filme seja visto e que a partir de hoje ele se perca pelas salas de cinema.

